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#Sermões#Retórica

Sermão da Bula da S. Cruzada

Por Padre Antônio Vieira (1647)

A este inconveniente porém acode hoje a misericórdia divina e a benignidade do Sumo Pastor por meio da Santa Cruzada, concedendo a todos os que a tomarem faculdade de eleger cada um o confessor aprovado de que mais se contentar e satisfizer. Por isso o ministro que abriu o lado se não nomeia no texto, e só se diz que era unus militum: um, indeterminadamente. E posto que da História Eclesiástica conste que foi Longino (ou, como o vulgo lhe chama, Longuinhos) neste mesmo homem concorriam duas circunstâncias dignas de grande reporo para o nosso caso. Era Langino estrangeiro e cego. Estrangeiro, porque, sendo romano, servia nos presídios de Jerusalém; cego, porque, como afirma S. Gregório Nazianzeno, de ambos os olhos não via.5 E por que quis Cristo que lhe abrisse o lado e fosse o dispensador destas graças um estrangeiro, e cego? Para tirar toda a ocasião e escusa ao pejo e repugnância humana. Tendes pejo de manifestar a vossa miséria, tendes repugnância de descobrir o vosso pecado? O remédio está na vossa eleição: buscai um estrangeiro que vos não conheça, buscai um cego que vos não veja: Unus militum. Passemos à segunda palavra.

§III

Militum. – O descaminho dos soldos. O merecimento da esmola não consiste em que o comam aqueles para quem se dá, senão em que se dê para que eles a comam. Abraão e os anjos peregrinos. Judas e as esmolas dos discípulos de Cristo.

Militum. Sobre esta palavra saldados, a primeira coisa que ocorre é o soldo. E este se paga pontualmente e se despende todo com os nossos soldados cavaleiras da África, tão beneméritos da fé e da Igreja: esse é o fim para que os Sumos Pontífices concederam o subsídio da bula. Da pureza das mãos em que se recebe, nunca houve, nem pode haver dúvida. Mas, como passa por tantas outras, e há tanta mar e sumidouros em meio, não sei se poderá ser justificada a queixa comum. É certo que nos escritores da África, sem serem Tertulianos, nem Agastinhos, se lêem de tempos passados graves lamentações deste descaminho. O dinheiro santo da bula, que cá se recolhe em vinténs, dizem que torna de lá em meticais, e que a muita fome que de cá se leva é a causa da que lá se padece. Mas isto toca a quem toca O que a mim me pertence é desfazer este escrúpulo e assegurar a todos os que tomam a bula que, ainda que o dinheiro da esmola se desencaminhe, e os saldados da África os não comam, sempre as graças concedidas se ganham com infalível certeza.

No dia do juízo, dirá Cristo: Venite, benedicti Patris mei. esurivi enim, et dedistis mihi manducare (Mt 25, 35): Vinde benditos de meu Padre, porque tive fome, e me destes de comer. – Notai muito aquele porque. Não diz: Porque comi o que me destes, senão: Porque me destes de comer. Aqui está o ser da obra O merecimento da esmola não consiste em que o comam aqueles para quem a dais, senão em que vós a deis para que eles a comam. E isto é a que se verifica na esmola da bula, em qualquer acontecimento. Pode acontecer que a não comam, nem se sustentem com ela os soldados para que está aplicada. E pode também acontecer que em porte não haja tais saldados, porque há praças fantásticas. Mas, ainda que a praça e o soldado seja fantástico, a esmola que se dá para seu sustento sempre é verdadeira, e o merecimento certo. Grande exemplo na História Sagrada.

Vieram à casa de Abraão três anjos em figura de peregrinos, e diz o texto que Abraão os hospedou e lhes pôs a mesa, e os tratou com grande agasalho e regalo (Gên. 4,2). Agora pergunta: Aqueles anjos comeram verdadeiramente o que lhes deu Abraão? Claro está que não, porque os anjos não comem, e aqueles corpos com que aporeceram eram corpos fantásticos. Contudo diz o mesmo texto que Deus pagou esta obra a Abraão muito de contado, e lhe fez grandes mercês por ela, como foi o do filho Isac, e outras (Gên. 15,18). Pois, por uma obra que se fez a homens fantásticos, a homens que não havia tais homens no mundo, e pelo comer que se lhes deu, o qual eles não comeram, nem podiam comer, faz Deus tantas graças e tantas mercês a Abraão? Sim. Porque ainda que os homens eram fantásticos, a esmola era verdadeira, e ainda que eles não comeram o que lhes deu Abraão, Abraão deu-o para que eles comessem. A esmola da Bula que dais para os saldados de África, pode acontecer que eles a não comam, ou porque alguns as não há, ou porque fica cá o dinheiro, ou porque, se lá vai, eles (como dizeis) ficam anjos; mas como Deus só respeita o merecimento da esmola e o fim dela, ainda que os homens a divirtam e desencaminhem, o paga que naquela escritura se vos promete sempre está segura.

(continua...)

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