Por Padre Antônio Vieira (1652)
Daqui se estenderá uma dúvida do texto de Ezequiel, em que muitos têm reparado, mas a meu ver, ainda não está estendido. Viu Ezequiel aquele misterioso carro por que tiravam quatro animais: um homem, um leão, uma águia e um boi. Todos estes quatro animais tinham asas, mas a águia, diz o texto que voava sobre todos quatro: Desuper ipsorum quatuor (Ez. 1, 10). Dificultosa proposição! Se dissera que a águia voava sobre todos os outros três animais, claro estava, e assim havia de ser naturalmente, porque as asas nos outros eram postiças, e a águia nascera com elas. Vede vós agora um boi com asas, como havia de voar? Mas porque muitas vezes a águia e o boi andam no mesmo jugo, por isso o carro faz tão pouco caminho. As asas no leão e no homem ainda que vemos voar tanto a tantos homens, vêm a ser quase o mesmo. De maneira que voar a águia sobre os outros três animais, não é maravilha. Mas dizer que voava sobre todos quatro, sendo a águia um deles, como pode ser? A nossa razão nos descobriu este grande mistério. Estes animais, como dizem conformemente todos os doutores, eram os quatro evangelistas; as asas eram as penas com que escreveram; a águia era S. João. E diz o profeta que a águia voava, não só sobre os outros três, senão sobre todos quatro: Desuper ipsorum, porque assim foi. Quando S. João escreveu o seu Evangelho, voou sobre os três evangelistas, porque disse muito mais que eles; mas quando no fim do seu Evangelho acrescentou aquelas duas regras em que disse que as maravilhas de Cristo não se podiam escrever, voou sobre todos quatro, porque voou sobre si mesmo, e disse muito mais do que tinha dito. De maneira que muita mais voou aquela águia quando encolheu as penas que quando as estendeu. Quando estendeu as penas para escrever as coisas de Cristo, voou sobre os três evangelistas; quando encolheu as penas confessando que se não podiam escrever, voou sobre todos quatro, porque voou sobre si mesmo: Desuper ipsorum quatuor. Passemos agora de uma águia a outra águia, em sentido também literal, porque assim como S. João é a águia entre os evangelistas, assim Santo Agostinho é a águia entre os doutores.
Se as penas de Santo Agostinho se estenderam, se as penas de Santo Agostinho se aplicaram a escrever a História e milagres de Penha de França, muito disseram, como elas costumam. Mas encolhendo-se essas penas, e confessando que as maravilhas deste prodígio do mundo são tão grandes que se não podem escrever, não há dúvida que dizem muito mais: Dum se excusat, magis res Mariae, quam si eas perscripsisset, amplifcat. Nas matérias grandes, o atrever-se a escrever, é engrandecer a pena; não se atrever a escrever, é engrandecer a matéria. Se as penas da águia Agostinho se atreveram a uma empresa tão grande, como reduzir a escritura o número sem número das maravilhas desta Senhora, ficaram mui engrandecidas as penas; mas não se atrevendo a empreender tal assunto, e confessando-se desiguais para tão grande empresa, fica mais engrandecida a Senhora. Aquela mulher vestida do sol e coroada de estrelas, que viu S. João no Apocalipse, diz o texto que lhe deram as asas de uma águia grande para voar: Datae sunt mulieri alae duae aquilae magnae, utr volaret (Apc. 12, 14). Que mulher é a vestida de sol e coroada de estrelas, senão a Virgem Santíssima? E que asas são as da grande águia, senão as penas, os escritores de Santo Agostinho? Nas outras ocasiões dão-se a esta Senhora as penas daquela águia para voar muito; nesta ocasião negam-se-lhe as penas para voar mais. E assim é: muito mais voa a grandeza desta Senhora encolhendo-se estas penas e não se atrevendo a escrever suas maravilhas, que se todas se empregaram a escrever: Quam si eas perscripsisset. Este foi o generoso pensamento e a discretíssima advertência com que se não escreveu Livro da História e Milagres de Penha de França, sendo mais eloqüente o silêncio do que a escritura em muitos livros.
§III
Os milagres da
Penha de França não hão mister livros para conservar-lhes a memória. A Penha de
França e a penha de Israel. Quem não é sujeito às leis do tempo não há mister a
fé das escrituras.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 23 ago. 2026.