Por Padre Antônio Vieira (1674)
O Tabor e a exclamação de S Pedro. Fineza natural do heliotrópio e fineza sobre-natural de Moisés. Os serafins de Isaías e a visão de Deus. Conselhos de Davi a Deus.
Notável caso é que, quando S. Pedro disse: Bonum est nos hic esse, digam os evangelistas que estava fora de si: Nesciens quid diceret.10 Quer estar sempre com Cristo, e está fora de si? Antes dissera eu que nunca esteve mais em si que quando quis estar sempre com Cristo. Pois, por que mereceu uma tal censura o fervor e amor de Pedro? Porque disse que queria estar com Cristo quando viu descobertos os resplendores de sua glória, sendo que isso havia de dizer quando depois se lhe encobriram com a nuvem que sobreveio. No teatro do Tabor representaram-se sucessivamente duas cenas muito diversas. Na primeira apareceu a majestade de Cristo como sol resplandecente, descoberto e coroado de raios: Resplenduit facies ejus sicut sol. Na segunda, desceu e atravessouse uma nuvem que eclipsou toda aquela glória, e a encobriu aos olhos dos apóstolos: Nubes obumbravit eos. E que disse agora Pedro? Nada. Pois agora é que ele havia de dizer: Bonum est nos hic esse, porque querer estar com Cristo quando se mostra e deixa ver com toda a sua glória e majestade, nem é fé, nem é amor, nem é pensamento digno da cabeça da Igreja. Por isso a mesma nuvem que lhe tolheu o sentido da vista, lhe abriu e espertou logo o sentido da fé: Et ecce vox de nube dicens: Ipsum audite. A prova da verdadeira fé e a fineza do verdadeiro amor não é seguir ao sol quando ele se deixa ver claro e formoso com toda a pompa de seus raios, senão quando se nega aos olhos, escondido e encoberto de nuvens. Vede-o no espelho da natureza.
Aquela flor, a que o giro do sol deu o nome, chamada dos gregos heliotrópio, imóvel e com perpétuo movimento, jamais deixa de seguir e acompanhar a seu amado planeta. Quando o sol nasce, se lhe inclina e o saúda; quando sobe, se levanta com ele: quando está no zênite, o contempla direita; quando desce, se torna a dobrar; e quando finalmente chega ao ocaso, com nova e profunda inclinação se despede dele. Grande milagre da natureza. Grande fineza de amor! Mas onde está o mais fino desta fineza? Descobriu-o e ponderou-o Plínio com uma reflexão tão admirável como a da mesma flor: Heliotropii miraculum saepius diximus cum sole se circumagentis etiam nubilo die. Tantus sideris amor est: Maravilha é, e fineza prodigiosa que aquela flor amante do sol, sem se poder mover de um lugar, o siga sempre em roda, acompanhando seu curso; mas o mais maravilhoso desta maravilha, e o mais fino desta fineza, diz Plínio, é que não só segue e acompanha o sol quando se lhe mostra claro e resplandecente, senão quando se esconde e se cobre de nuvens: Etiam nubilo die, tantus sideris amor est. Mas passemos da escola da natureza à da graça, e vejamos se há nela alguma flor semelhante. Desejou Moisés ver a Deus, e pediu-lhe que lhe mostrasse seu rosto: Ostende mihi faciem tuam (Êx. 33,13).
Foi-lhe respondido que não era possível nesta vida: Non videbit me homo, et vivet.14 E que vos parece que faria Moisés com este desengano? Não o disse ele na sua história, mas disse-o por ele S. Paulo com altíssima ponderação: Invisibilem tanquam videns sustinuit.15 Desenganado Moisés de poder ver a Deus, foi tal a sua fineza, que fazia não o vendo o que havia de fazer se o vira. Que havia de fazer Moisés se vira a Deus? Havia de estar sempre com os olhos fixos nele, sem jamais se apartar de sua vista e de sua presença. Pois isto que havia de fazer se o vira, isso mesmo fazia não o vendo: Invisibilem tanquam videns sustinuit.
Assim provou Moisés o seu amor, e assim prova Deus nestes dias, e quer provemos o nosso: Ut palam fiat utrum diligatis eum. Mostra-se-nos o Sol Divino encoberto com aquela nuvem que o faz invisível para provar se pode tanto em nós a fé como a vista, e se o assistimos e acompanhamos não o vendo, como se o víramos. Os que assim o fizeram, bem podem tomar por divisa de seu amor a fineza natural do heliotrópio e a sobrenatural de Moisés. E será o corpo e a alma da empresa igualmente discreta. O corpo, um heliotrópio voltado ao sol coberto de nuvens; e a alma, a letra de S. Paulo: Invisibilem tanquam videns. Não cuide que ama a Cristo quem não antepõe sua presença invisível a tudo quanto se vê e pode ver no mundo. Lá vos chama a ver, aqui a não ver, porque a prova do verdadeiro amor não está em amar vendo, senão em amar sem ver. Amar e ver, é bem-aventurança; amar sem ver, é amor. O mesmo mundo o contesta. Toda a gala do amor, qual é? Vós o pintais nu como a verdade, e assim há de ser se é amor. Qual é logo a sua gala? Toda a gala do amor é a sua venda. Vendado e despido, porque quando não tem uso dos olhos, então se descobre o amor. Ut palam fiat utrum diligatis eum.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.