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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Dominga da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1655)

Mas como a matéria é tanto das portas a dentro da alma, e poderia parecer temeridade, e querela julgar de fora, direi primeiro qual é a minha tenção em tudo o que disser. Este milagre do diabo mudo fez diferentes efeitos nos ânimos dos presentes. Houve quem louvou, houve quem condenou, e houve quem admirou. Uma mulher devota louvou: Beatus venter quite portavit.4 Os escribas e fariseus condenaram: In Beelzebub, principe daemoniorum ejiciit daemonia.5 As turbas, a gente do povo, admirou: Et admiratae sunt turbae. A estes últimos me hei de acostar hoje. Não hei de ser dos que louvam, nem hei de ser dos que condenam; só hei de ser dos que admiram. As vossas confissões, vistas a uma luz, parece que têm que louvar; vistas a outra luz, parece que têm que condenar: eu nem as louvarei, nem as condenarei; somente me admirarei delas. Estas minhas admirações são as que haveis de ouvir. Não será o sermão admirável, mas será admirativo: Et admiratae sunt turbae.

§II

As confissões em que o mudo fala e o demônio fica. Há homens que ainda depois de falar continuam mudos, porque falam no que dizem e são mudos no que calam. O pecado e a confissão de Arão.

Cum ejecisset daemonium, locutus est mutus, et admiratae sunt turbae. Hão de se confessar as confissões, como dizíamos, e as confissões que se hão de confessar são aquelas em que o mudo fala e o demônio fica. Mas, como pode ser, falando em termos de confissão, que o demônio fique, se o mudo fala? No material das palavras temos a resposta: Locutus est mutus: falou o mudo. Se ele falou, como lhe chamam mudo? Porque na confissão há homens que ainda depois de falar são mudos. Falam pelo que dizem e são mudos pelo que calam; falam pelo que declaram, e são mudos pelo que dissimulam; falam pelo que confessam, e são mudos pelo que negam. Fez o Batista aquela sua famosa confissão, posto que confissão em outro gênero, e diz o evangelista: Confessus est, et non negavit, et confessus est (Jo. 1, 20): Confessou, e não negou, e confessou. – Notável duplicação de termos! Se tinha dito que confessou, por que acrescenta que não negou: Confessus est, et non negavit? E depois de dizer que confessou e não negou, por que torna a repetir que confessou: Confessus est, et non negavit, et confessus est? Não bastava dizer que confessou? Não: porque nem todo o confessar é confessar. Quem confessa e nega, não confessa,. só confessa quem confessa sem negar. E porque João confessou e não negou, por isso diz o evangelista que confessou: Confessus est, et non negavit, et confessus est. Ah! quantas confissões negadas! Ah! quantas confissões não confessadas se absolvem sem absolvição neste sacramento! Virá o dia do Juízo, virá o dia daquele grande cadafalso do mundo: quantos se verão ali confessos e negativos, confessos e diminutos, confessos e não confessos, e por isso condenados?

Admirável coisa é ver muitos pecados como se fazem, e ouvir como se confessam! Vistos fora da confissão, e em si mesmos, são pecados e graves pecados; ouvidos na confissão, e com as cores de que ali se revestem, ou não parecem pecados, ou parecem virtudes. Seja exemplo, para que nos acomodemos ao lugar, o pecado e a confissão de um grande ministro.

(continua...)

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