Por Padre Antônio Vieira (1669)
Excluídos já os queixosos e descontentes sem cousa, e que porventura são a cousa de haver tantos descontentes, ouçam agora os beneméritos maldespachados a muita razão que têm de se consolar. A do Evangelho, como logo mostrarei, é a mais forte de todas. Mas sem recorrer a motivos da fé, se eu fora um dos beneméritos, em mim mesmo e no meu próprio merecimento, achara tão grandes razões de me consolar, que sem outra mercê nem despacho, me dera por mui contente e satisfeito. Discorrei um pouco comigo.
Ou mereceis os prêmios que vos faltam, e com que vos faltam, ou não; se os não mereceis, não tendes de que vos queixar; se os mereceis, muito menos. Ainda não sabíeis que não há virtude nem merecimento sem prêmio? Assim como o vicio é o castigo, assim, a virtude é o prêmio de si mesma. O maior prêmio das ações heróicas é fazê-las. Com melhores palavras o disse Sêneca, porque falava em melhor língua: Quid consequar, inquis, si hoc fortiter si hoc grate fecero? Quod feceris: Se me perguntas que hás de conseguir pelo que fizeste ou forte ou generosamente, respondo-te que tê-lo feito5. Rerum honestarum pretium in ipsis est: O prêmio das ações honradas, elas o têm em si, e o levam logo consigo; nem tarda, nem espera requerimentos, nem depende de outrem: são satisfação de si mesmas. No dia em que as fizestes, vos satisfizestes.
E se fora de vós mesmo esperáveis outro prêmio, contentai-vos com o da opinião e da honra. Se vossos serviços são mal premiados, baste-vos saber que são bem conhecidos. Este prêmio mental assentado no juízo das gentes, ninguém vo-lo pode tirar nem diminuir. Que importa que subais mal consultado dos ministros, se estais bem julgado da fama? Que importa que saísseis escusado do tribunal, se o tribunal fica acusado? Passai pela chancelaria este despacho, deixai-o por brasão a vossos descendentes, sereis duas vezes glorioso. Só vos dou licença que vos arrependais de ter pretendido. Pouco fez ou baixamente avalia suas ações quem cuida que lhas podiam pagar os homens.
Se servistes à pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma. Mas que paga maior para um coração honrado que ter feito o que devia? Quando fizestes o que devíeis, então vos pagastes. Ouvi ao Mestre divino que tudo nos ensinou. Dizia Cristo a seus soldados, a quem encarregou não menos que a conquista do mundo, em que todos deram a vida: Cum feceritis omnia, dicite: servi inutiles summus: Quando fizerdes tudo, dizei que sois servos inúteis (Lc. 17,10). Notável sentença! O servo inútil é aquele que não faz nada; mas o que faz muito, e muito mais o que faz tudo, há de cuidar e dizer que é servo inútil? Sim. Ninguém entendeu melhor este texto que o Venerável Beda. Não fala Cristo da utilidade que recebe o Senhor, senão da utilidade que não recebe o servo. O servo não recebe utilidade do seu serviço, porque é obrigado a servir; e assim há de servir quem serve generosamente. O mesmo Cristo se declarou, e deu a razão muito como sua: Quod debuimus facere, fecimus: O que devíamos fazer isso fizemos. Quem fez o que devia, devia o que fez, e ninguém espera paga de pagar o que deve. Se servi, se pelejei, se trabalhei, se venci, fiz o que devia ao rei, fiz o que devia à pátria, fiz o que me devia a mim mesmo, e quem se desempenhou de tamanhas dívidas, não há de esperar outra paga. Alguns há tão desvanecidos que cuidam que fizeram mais do que deviam. Enganam-se. Quem mais é e mais pode, mais deve. O sol e as estrelas servem sem cessar, e sempre com grande utilidade; mas esta toda é do universo, e nada sua. Prezai-vos lá de filhos do sol, e tão ilustres como as estrelas, e abstende-vos a mendigar outra paga.
Eu não pretendo
com isto escusar os que vós acusais. Porque vós sois benemérito, não devem
esses ser injustos, antes aprender da vossa generosidade a ser generosos e
liberais. Que dão ou que podem dar, a quem deu por eles o sangue? Mas por que
ainda com o pouco que podem, faltam ao agradecimento, quero eu que vos não
falte a consolação. Se vossos feitos foram romanos, consolai-vos com Catão, que
não teve estátua no Capitólio. Vinham os estrangeiros a Roma, viam as estátuas
daqueles varões famosos, e perguntavam pela de Catão. Esta pergunta era a maior
estátua de todas. Aos outros pôs-lhes estátua o senado, a Catão o mundo. Deixai
perguntar ao mundo e admirar-se de vos não ver premiado. Essa pergunta e essa
admiração é o maior e melhor de todos os prêmios. O que vos deu a virtude, não
vo-lo pode tirar a inveja; o que vos deu a fama, não vo-lo pode tirar a
ingratidão. Deixai-os ser ingratos, para que vós sejais mais glorioso. Um
grande merecimento sobre uma grande ingratidão fica muito mais subido. Se não houvesse
ingratidões, como haveria finezas? Não deis logo queixas ao desagradecimento:
dai-lhe graças.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.