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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- Coitada, é uma pobre de Cristo! - E depois que engomadeira admirável! No ministérioexaminavam com espanto os seus peitilhos! - O Julião diz bem: eu não ando engomado, ando esmaltado! Não é simpática, não, mas é asseada, é apropositada...

E levantando-se, com as mãos nos bolsos das suas largas calças de flanela:

- E, enfim, minha filha, a maneira como ela se portou na doença da tia Virgínia... Foi um anjopara ela! - Repetiu com solenidade: - De dia, de noite, foi um anjo para ela! Estamos4he em dívida, minha filha! - E começou a enrolar um cigarro, com a fisionomia muito séria.

Luísa, calada, fazia saltar com a pontinha da chinela a orla do roupão; e examinando fixamente as unhas, a testa um pouco franzida, pôs-se a dizer:

Mas enfim, se eu embirro com ela, não me importa, posso bem mandá-la embora.

Jorge parou, e raspando um fósforo na sola do sapato:

- Se eu consentir, minha rica... É que é uma questão de gratidão, para mim!

Ficaram calados. O cuco cantou meio-dia.

- Bem, vou à vida - disse Jorge. Chegou-se ao pé dela, tomou-lhe a cabeça entre as mãos.

- Viborazinha! - murmurou, fitando-a muito meigamente.

Ela riu. Ergueu para ele os seus magníficos olhos castanhos, luminosos e meigos. Jorge enterneceu-se, pôs-lhe sobre as pálpebras dois beijos chilreados. E torcendo-lhe o beicinho, com uma meiguice:

- Queres alguma coisa de fora, amor?

- Que não viesse muito tarde.

Ia deixar uns bilhetes, ia numa tipóia, era um pulo...

E saiu, feliz, cantando com a sua boa voz de barítono:

- Dia dei oro,

Dei mondo signor

La la ra, la ra

Luísa espreguiçou-se. Que seca ter de se ir vestir! Desejaria estar numa banheira de mármore cor-de-rosa, em água tépida, perfumada, e adormecer! O numa rede de seda, com as janelas cerradas, embalar-se, ouvindo música! Sacudiu a chinelinha; esteve a olhar muito amorosamente o seu pé pequeno, branco como leite, com veias azuis, pensando numa infinidade de coisinhas: - em meias de seda que queria comprar, no farnel que faria a Jorge para a jornada, em três guardanapos que a lavadeira perdera...

Tornou a espreguiçar-se. E saltando na ponta do pé descalço, foi buscar ao aparador por detrás de uma compota um livro um pouco enxovalhado, veio estender-se na voltaire, quase deitada, e, com o gesto acariciador e amoroso dos dedos sobre a orelha, começou a ler, toda interessada.

Era a Dama das camélias. Lia muitos romances; tinha uma assinatura, na Baixa, ao mês. Em solteira, aos dezoito anos entusiasmara-se por Walter Scott e pela Escócia; desejara então viver num daqueles castelos escoceses, que têm sobre as ogivas os brasões do clã, mobilados com arcas góticas e troféus de armas, forrados de largas tapeçarias, onde estão bordadas legendas heróicas, que o vento do lago agita e faz viver; e amara Ervandalo, Morton e lvanhoé, ternos e graves, tendo sobre o gorro a pena de águia, presa ao lado pelo cardo de Escócia de esmeraldas e diamantes. Mas agora era o moderno que a cativava: Paris, as suas mobílias, as suas sentimentalidades. Ria-se dos trovadores, exaltara-se por Mr. de Camors; e os homens ideais apareciam-lhe de gravata branca, nas ombreiras das salas de baile, com um magnetismo no olhar, devorados de paixão, tendo palavras sublimes. Havia uma semana que se interessava por Margarida Gautier; o seu amor infeliz dava-lhe uma melancolia enevoada; via-a alta e magra, com o seu longo xale de caxemira, os olhos negros cheios de avidez da paixão e dos ardores da tísica; nos nomes mesmo do livro - Júlia Duprat, Armando, Prudência, achava o sabor poético de uma vida intensamente amorosa; e todo aquele destino se agitava, como numa música triste, com ceias, noites delirantes, aflições de dinheiro, e dias de melancolia no fundo de um cupê quando nas avenidas do Bois, sob um céu pardo e elegante, silenciosamente caem as primeiras neves.

- Até logo, Zizi - gritou Jorge do corredor, ao sair.

- Olha!

Ele veio com a bengala debaixo do braço, apertando as luvas.

Não apareças muito tarde, hem? Escuta, traze-me uns bolos do Baltresqui para a D. Felicidade. Ouve. Vê se passas pela M.me François que me mande o chapéu. Escuta.

- Que mais, bom Deus?

- Ah! Não! Era para ires pelo livreiro que me mande mais romances... Mas está fechado!

Foi com duas lágrimas a tremer-lhe nas pálpebras que acabou as páginas da Dama das camélias. E estendida na voltaire, com o livro caído no regaço, fazendo recuar a película das unhas, pôs-se a cantar baixinho, com ternura, a ária final da Traviata:

- Addio, dei passato...

Lembrou-lhe de repente a notícia do jornal, a chegada do primo Basílio...

Um sorriso vagaroso dilatou-lhe os beicinhos vermelhos e cheios. - Fora o seu primeiro namoro, o primo Basílio! Tinha ela então dezoito anos! Ninguém o sabia, nem Jorge, nem Sebastião...

(continua...)

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