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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

O homem que estava junto do valado, ao qual eu não dava aten ção porque ia voltado aexaminar o trem, determinara essa queda, colhendo repentinamente e com a máxima força as rédeas que ficavam para o lado dele e impelindo ao mesmo tempo com um pon tapé o flancodo animal para o lado oposto.O cavalo, que era um poldro de pouca força e mal manejado, es corregou das pernas e tombou ao dar a volta rápida e precipitada a que o tinham constrangido.O desconhecido fez levantar o cavalo segurando-lhe as rédeas, e, ajudando-me a erguer, indagava com interesse se eu teria mo lestado a perna que ficara debaixo do cavalo.Este indivíduo tinha na voz a entoação especial dos homens bem-educados. A mão que me ofereceu era delicada. O rosto ti nha-o coberto com uma máscara de cetim preto. Entrelembro-me de que trazia um pequeno fumo no chapéu. Era um homem ágil e extremamente forte, segundo denota o modo como fez cair o cavalo.Ergui-me alvoroçadamente e, antes de ter tido ocasião de dizer uma palavra, vi que, ao tempo da minha queda, se travara luta entre o meu companheiro e os outros dois indivíduosque fingiam examinar o trem e que tinham a cara coberta como aque le de que já falei.

Puro Ponson du Terrail! dirá o Sr. Redactor. Evidentemente. Parece que a vida, mesmo no caminho de Sintra, pode às vezes ter o capricho de ser mais romanesca do quepede a verosimilhança artística. Mas eu não faço arte, narro factos unicamente.

F..., vendo o seu cavalo subitamente seguro pelas cambas do freio, tinha obrigado alargá-lo um dos desconhecidos, em cuja ca beça descarregara uma pancada como cabo do chicote, o qual o outro mascarado conseguira logo depois arrancar-lho da mão.

Nenhum de nós trazia armas. O meu amigo tinha, no entanto, tirado da algibeira achave de uma porta da casa de Sintra, e es poreava o cavalo estirando- se-lhe no pescoço e procurando alcançar a cabeça daquele que o tinha seguro.O mascarado, porém, que continuava a segurar em uma das mãos o freio do cavalo empinado, apontou com a outra em revólver ã cabeça do meu amigo e disse-lhe com serenidade:- Menos fúria! Menos fúria!

O que levara com o chicote na cabeça e ficara por um momen to encostado à portinholado trem, visivelmente atordoado mas não ferido, porque o cabo era de baleia e tinha porcastão uma simples guarnição feita com uma trança de cima, havia já a este tempo levantado do chão e posto na cabeça o chapéu que lhe caíra.A este tempo o que me derribara o cavalo e me ajudara a le vantar tinha-me deixado ver um par de pequeninas pistolas de coronhas de prata, daquelas a que chamam em França coups de poing e que varam uma porta a trinta passos de distância. Depois do que, meofereceu delicadamente o braço, dizendo-me com afabilidade:

— Parece-me mais cómodo aceitar um lugar que lhe ofereço na carruagem do quemontar outra vez a cavalo ou ter de arrastar a pé daqui à farmácia da Porcalhota a sua perna magoada.

Não sou dos que se amedrontam mais prontamente com a ameaça feita com armas. Seique há um abismo entre prometer um tiro e desfechá-lo. Eu movia bem a perna trilhada, o meu amigo estava montado em um cavalo possante; somos ambos robustos; poderíamostalvez resistir por dez minutos, ou por um quarto de hora, e durante esse tempo nada mais provável, em estrada tão frequentada como a de Sintra nesta quadra, do que aparecerem passageiros que nos prestassem auxílioTodavia, confesso que me sentia atraído para o imprevisto de uma tão estranha aventura.Nenhum caso anterior, nenhuma circunstância da nossa vida nos permitia suspeitar que alguém pudesse ter interesse em exercer connosco pressão ou violência alguma.

Sem eu bem poder a esse tempo explicar porquê, não me pare cia também que aspessoas que nos rodeavam projectassem um roubo, menos ainda um homicídio. Não tendo tido tempo de observar miudamente a cada um, e tendo-lhes ouvido apenas algumas pa lavrasfugitivas, figuravam-se-me pessoas de bom mundo. Agora que de espirito sossegado penso no acontecido, vejo que a mi nha conjectura se baseava em várias circunstâncias dispersas, nas quais, ainda que de relance, eu atentara, mesmo sem propósito de análise. Lembro-me,por exemplo, que era de cetim alvadio o forro do chapéu do que levara a pancada na cabeça.

O que apontara o revólver a F... trazia calçada uma luva cor de chumbo apertada com doisbotões. O que me ajudara a levantar tinha os pés finos e botas envernizadas: as calças, de casimira cor de avelã, eram muito justas e de presilhas. Trazia esporas.

Não obstante a disposição em que me achava de ceder da luta e de entrar no trem, perguntei em alemão ao meu amigo se ele era de opinião que resistíssemos ou que nos rendêssemos..



(continua...)

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