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#Novelas#Literatura Portuguesa

Alves & Cia

Por Eça de Queirós (1925)

De resto sabia bem que eram nove. Mas é que a idéia da reunião anual da Transtagana trazia-lhe bruscamente a lembrança de que aquele era o aniversário do seu casamento. Durante os dois primeiros anos aquele fora um dia de festa íntima, com um bonito jantar a que ia a família, à noite uma pequena quadrilha, ao som de simples piano; depois, no terceiro aniversário, viera nos primeiros dias de luto de sua sogra, a casa estava ainda triste, Lulu ainda chorava – e agora, este dia passava, estava quase passado, sem que nem um nem outro se tivessem lembrado. Lulu não se lembrara decerto. Quando ele tinha saído era manhã, ela estava-se a pentear, não lhe dissera nada. E era uma pena que aquele belo dia passasse sem beberem uma garrafa de Porto, sem terem um crème à sobremesa. E além disso deveriam Ter convidado seu sogro e sua cunhada – ainda que, ultimamente as relações com seu sogro tinham arrefecido, havia um afastamento, pôr causa duma criada nova, que era toda poderosa em casa do viúvo. Mas enfim, num dia daqueles, como num dia de anos, esqueciam-se essas coisas, o sentimento de família dominava. E então decidiu logo correr à rua de São Bento, lembrar a Lulu aquela grande data, mandarem um recado ao sogro – que morava a Santa Isabel. Eram quase três horas, a correspondência estava assinada, não havia nesse dia outros afazeres – naquela espécie de repouso que se seguia à azáfama dos dias de paquete para a África. E tomando o chapéu regozijava-se daquele meio feriado que assim se dava, alegrava-o a idéia de ir surpreender no meio do dia com um bom abraço a sua querida Lulu – que, durante toda a semana, estava só até às quatro e meia, que era quando se fechava o escritório. E uma só coisa o contrariava: é que o Machado estivesse no Lumiar, não pudesse vir jantar com eles.

— Volta? – perguntou o guarda-livros, vendo-o de chapéu na cabeça.

Godofredo pensou um momento em convidar o guarda-livros: mas depois temeu que o Machado se ofendesse, sabendo o seu talher tão facilmente preenchido.

Não volto... Se o sr. Machado pôr acaso aparecesse... Não é natural, mas enfim se aparecesse, que lá o esperamos às seis, como estava combinado.

Ao descer as escadas sentia-se contente, como s4e estivesse casado na véspera. Era um desejo ardente de entrar em casa, pôr aquele calor, vestir o seu casaco de linho, pôr os pés nas chinelas, e ficar ali, esperando o jantar, gozando o seu interior, os movimentos, a presença da sua bonita Lulu. E, naquela onda de felicidade que o invadia, veio-lhe a boa idéia de levar um presente a Lulu. Pensou num leque. Mas depois decidiu-se logo pôr uma pulseira que vira havia dias, numa vidraça de ourives. Era uma serpente mordendo o rabo, com dois olhos de rubis. E este presente tinha uma significação: a serpente simbolizava a eterna continuidade, a volta regular dos dias felizes, alguma coisa que vai sempre girando num círculo de ouro. Somente receava que a jóia fosse cara. Mas não: eram cinco libras, e, enquanto ele a examinava, o ourives disse-lhe que tinha vendido havia dias uma igual à sra. Marquesa de Lima. Imediatamente pagou-a – e ainda não tinha dado dois passos na rua, parou, à sombra, abriu a caixa, deu-lhe outro olhar, tão contente estava com a sua compra. E então vinha-lhe um enternecimento – como vem sempre aos que dão um presente. E como se uma pequena porta aberta, no egoísmo e na avareza natural do homem, fizesse romper através dela toda a onda expansiva das generosidades latentes. Naquele momento desejou ser rico para lhe dar um colar de brilhantes. Mas ela merecia-o. Eram casados há quatro anos, e nunca entre eles houvera uma nuvem. Desde que a vira naquela tarde em Pedrouços, adorara-a: mas, podia-o agora confessar, ao princípio tivera-lhe medo. Julgara-a imperiosa, orgulhosa, exigente, seca. Tudo por causa daquela bela estatura dela, dos seus belos olhos negros, do porte ereto, do cabelo ondeado e crespo... Mas não, dentro daquele corpo de rainha bárbara, havia o coraçãozinho duma criança. Era boa, era esmoler, era alegre, e tinha um gênio que corria igual e suave, como a superfície transparente dum rio de verão. Só um momento, havia coisa de quatro meses, ela mostrara certas desigualdades, um pouco de melancolia, uma pontinha de nervos: até ele supusera que... Mas não era isso, infelizmente. Eram nervos: e passaram – viera uma reação – e nunca como nos últimos tempos ela fora mais terna, mais alegre, inundando-o de felicidade...

E tudo isso lhe bailava alegremente em volta do coração, enquanto subia, na calma ardente sob o seu guarda-sol, a rua Nova do Carmo. Ao alto, no restaurante do Mata, parou a encomendar uma empada de peixe para as seis horas. E comprou ainda um fiambre, olhava em redor para ver o que poderia levar mais, com alegria e a sofreguidão de pássaro que provê o seu ninho.

(continua...)

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