Por Coelho Neto (1897)
Maria, sentindo a dobrez da fadiga, os olhos pesados de sono, sentou-se tão perto d’água que ela toda refletiu-se na superfície espelhenta.
Viu-se, sem vaidade, com a mesma inocência com que revê o pássaro e, num momento, infantilmente, mergulhou, até o punho, as mãos ambas no paul.
Quis José repreendê-la, vendo-a, porém, sorrir, sorriu também. Gotejando saíram as pequeninas mãos da água que tremia.
Olhavam os dois os círculos que se abriam quando viram dias flores subirem à tona, brancas, abertas em cinco pétalas, eretas em finas hastes, como se o reflexo das mãos da Imaculada se houvesse materializado em memória da ablução ligeira.
Eram lírios e trescalavam.
Virtude, brilho das almas, que importa que desças à vasa? És impermeável como a luz, purificadora como o raio de sol.
Não perdes a límpida pureza e, se entras no vício, fazes desabrochar a graça; se afundas no crime, tiras o arrependimento.
O pântano era lôbrego, coberto de folhas mortas e as mãos de Maria, só com o aflorarem, tanto o purificaram que dele nasceu o lírio sem mácula, símbolo formoso e cândido da inocência.
A REFEIÇÃO
Suave som de flauta pastoril deu a Maria o encanto de um égloga. Voltou a cabeça dourada e viu o rebanho que se aproximava em vagaroso passo.
Trazia-o um menino, guiando-o por entre as heras de aroma. Um lindo menino, tão alvo que não despedia sombra, como as naves que os raios de sol atravessam; tão louro que a sua cabeça alumiava.
Vinha a flauta soando em suaves acentos e atraídas, enlevadas na música, abelhas voavam em volta do pastorinho, que assim apascentava dois rebanhos; um pela terra verde, outro pelos ares claros.
Ergueu-se Maria e, sem dizer palavra, olhando os ubres apojados das ovelhas, deu a sentir o seu desejo.
Como devia saber aquele leite que era a metamorfose das flores dos silvados! Como devia recender na boca e aquecer a fartar!
Calou-se a flauta e o menino, fitando os olhos meigos do casal errante, como se de muito o conhecesse e amasse, deteve-se, e os animais pararam.
Ficou o rebanho unido, tão junto que não fazia mais que um velo e as abelhas, zumbindo, puseram-se a esvoaçar em torno dos lírios alvos.
José adiantou-se e, oferecendo um óbolo ao menino, pediu-lhe um pouco de leite.
Sorrindo, o pastorinho tomou o tarro que trazia ao flanco.
Logo, entre as ovelhas, houve um movimento ansioso. Balavam todas oferecendo as tetas refertas, atropelavam-se, saltavam querendo, cada qual, ser a escolhida e o pastorinho brandamente as afastava.
Foi à primeira, ordenhou-a. O leite esguichou em um fio; outra chegou, depois outra e a todas ele atendia para que nenhuma ficasse preterida.
Já a espuma fervia crescendo em flor, transbordando do vaso e as ovelhas festejavam-se contentes.
Sorrindo, aceitou Maria a oferta do zagal; bebeu a lentos goles, saboreando. E foi a vez de José.
Refeito, o patriarca insistiu na dádiva da moeda, mas o menino negou-se a recebê-la:
“Que era um gole de leite? Qualquer pastor faria o mesmo.”
Saudou-os, e, pondo-se à frente das ovelhas, levou a flauta aos lábios.
Os sons vibraram. Lento e manso o rebanho prosseguiu. Foi então que Maria viu que as abelhas, tantas que ocultavam os lírios, deixavam as flores voando à música de flauta.
- Lindo pastor! Lindo rebanho! Disse, enlevada, a Virgem. Mas logo, referindo-se às abelhas que fugiam, perguntou a José: Que terão elas buscado nas flores d’água? - O aroma e o néctar, explicou o patriarca.
Chegaram-se os dois às flores e viram, maravilhados, que estavam cheias de mel cristalino e louro como o âmbar precioso e tão perfumado como se contivesse toda a essência das flores.
Tomou José um dos lírios e deu-o a Maria; a Virgem ofereceu-lhe o outro. Depois, deliciados, contemplavam-se felizes. - A flauta já não soa, vai muito longe o pastor, disse Maria.
- Vai muito longe! Repetiu José contrito, levantando os olhos para o céu, como se procurasse nas nuvens o pastorinho louro e as ovelhinhas brancas.
A NUVEM
Sob a irradiação do sol a terra seca abrasava, exalando um bafio de rescaldo. Triste, flagelada Samária pagã!
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. A partida. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7527 . Acesso em: 7 abr. 2026.