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#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

Pantagruel e Gargantua esgaçavam os lábios, como sansculottes embriagados.

Os garfos eram chuços, as facas eram espadas. A demagogia do ventre arremessava-se doudamente contra a imponência régia dos acepipes.

Enquanto a comida abarrotava as bocas, ia a música abarrotando os ouvidos.

Tudo em grosso, abundantemente, desvairadamente.

Em certa ocasião começaram os brindes.

Brindou-se a este, que era um dos mais puros advogados da causa republicana; a aquele, que defendera no parlamento provincial os sagrados direitos do povo (povo era com P grande); a aquel'outro, que constituía uma das mais legítimas esperanças do partido regenerador...

Houve uma pausa solene, no meio da qual uma voz trêmula e vibrante levantou-se:

- Cidadãos!

Uma agitação moveu o auditório, e o silêncio caiu cem graus abaixo de zero.

- Concidadãos!...

Falava um jovem ex-deputado, famoso pela violência com que usava agredir os tronos.

... É hoje o dia em que o mundo comemora um dos grandes acontecimentos da sua história...

(Alguns apoiados surdos.)

- ... Na grande era revolucionária, foi no dia de hoje que o povo, compreendendo a grandeza dasua soberania, alçou alteroso o colo das suas iras, e resolveu afogar em sangue a tirania infame da torpe realeza!.

(Muito bem, muito bem!)

- ... Já era demais!... Por tantos séculos havia a pata da injustiça calcado o livro dos direitos dohomem... a exploração dos fracos pelos potentados... o roubo iníquo do salário ao proletariado... a realeza usufruindo desaforadamente o suor do povo e sugando sofregamente, para a manutenção das suas orgias, o generoso sangue dos pobres, o sangue daqueles mesmos que sustentavam-lhe as indústrias do seu estado, daqueles mesmos que lavravam os campos da sua nação...

(Bravos! bravos!)

- ... Já era demais... Tudo preparou o terrível desabamento social que se chama queda da

Bastilha!...

"A onda popular rodeou espumante, etc., etc...

O eloqüente tribuno orou por longo tempo, e concluiu em tom religioso, no meio das aclamações dos circunstantes:

- ... Mas ainda não estão por terra todas as Bastilhas; ainda existem muitas realezas, e cada realeza é uma Bastilha temerosa...

"Abaixo pois as realezas!...

"Por terra as Bastilhas!...

"Plante-se a bandeira republicana por todo o mundo!... Que o orbe terráqueo apareça aos olhos dos outros planetas com a forma cintilante de um barrete frígio!...

(Bravôh! bravôh!...)

... Expulsemos, pois, da nossa pátria o velho chaveco da monarquia, ainda que tenhamos de oferecer, para a sua retirada, um rio do nosso sangue rubro!...

(Bravôôôh!)

E saudemos agora, neste brinde, como a síntese dos nossos votos, das nossas aspirações, a próxima fundação da república brasileira!...

E um brinde estrondoso como um furacão, subiu daquela tempestade de aplausos e garrafas, para sujar de vinho a cara impassível das instituições...

Naquele momento mesmo, quem se afastasse da fazenda em festa, até meia distância da fazenda do Dr. Salustiano, ver-se-ia apertado num contraste pavoroso.

Atrás da escuridão dantesca de uma noite tempestuosa e feia, ouviam-se perfeitamente, de uma banda, rumores orgíacos, inextinguíveis, como os risos de Homero; de outra banda, lastimosos gritos cruciantes, que pareciam pedir socorro às feras da mata...

De um lado, 14 de julho; do outro, a punição de Emídio, o negro fugido...

Uma coruja passou... Se estivesse presente, o Dr. Salustiano perceberia que a coruja ia cantando a Marselhesa.

Sentia-se realmente nas trevas do ar o grande anjo da igualdade roçando com a ponta das asas brancas os dois extremos do horizonte.

Depois, do discurso, a festa do compadre continuou; o delírio do prazer recrudesceu.

As libações caíam em cascata sobre a toalha da mesa. As imaginações catavam estrelas para o símiles dos brindes, a retórica já não tinha mais tropos.

Quando ia falar o Dr. Salustiano, que, por uma especial consideração, fora encarregado de pôr o fecho de ouro ao banquete com o grande brinde à Liberdade, acercou-se dele um sujeito que entrara, havia pouco, e por trás da cadeira disse-lhe ao ouvido:

- O Emídio bateu a bota... não resistiu ao viramundo...

Era o feitor que conhecemos.

O doutor atirou-lhe enfadado as cinco letras de Cambrone, e tomou uma garrafa do melhor champagne.

Todos os convidados tinham o olhar sobre ele, e gritavam todos:

- O brinde à Liberdade! o brinde!

O doutor ergueu-se vagaroso, solene; segurou corretamente o fuste de cristal de uma taça finíssima que enchera.

A estátua de gesso. acima dele, com a cabeça inclinada e a lâmpada ao alto, fitava-o, parecendo esperar o brinde, espantada...

- Cidadãos!... O futuro... pertence à idéia republicana...

(Falava um profeta)

(continua...)

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