Por Raul Pompéia (1881)
Pantagruel e Gargantua esgaçavam os lábios, como sansculottes embriagados.
Os garfos eram chuços, as facas eram espadas. A demagogia do ventre arremessava-se doudamente contra a imponência régia dos acepipes.
Enquanto a comida abarrotava as bocas, ia a música abarrotando os ouvidos.
Tudo em grosso, abundantemente, desvairadamente.
Em certa ocasião começaram os brindes.
Brindou-se a este, que era um dos mais puros advogados da causa republicana; a aquele, que defendera no parlamento provincial os sagrados direitos do povo (povo era com P grande); a aquel'outro, que constituía uma das mais legítimas esperanças do partido regenerador...
Houve uma pausa solene, no meio da qual uma voz trêmula e vibrante levantou-se:
- Cidadãos!
Uma agitação moveu o auditório, e o silêncio caiu cem graus abaixo de zero.
- Concidadãos!...
Falava um jovem ex-deputado, famoso pela violência com que usava agredir os tronos.
... É hoje o dia em que o mundo comemora um dos grandes acontecimentos da sua história...
(Alguns apoiados surdos.)
- ... Na grande era revolucionária, foi no dia de hoje que o povo, compreendendo a grandeza dasua soberania, alçou alteroso o colo das suas iras, e resolveu afogar em sangue a tirania infame da torpe realeza!.
(Muito bem, muito bem!)
- ... Já era demais!... Por tantos séculos havia a pata da injustiça calcado o livro dos direitos dohomem... a exploração dos fracos pelos potentados... o roubo iníquo do salário ao proletariado... a realeza usufruindo desaforadamente o suor do povo e sugando sofregamente, para a manutenção das suas orgias, o generoso sangue dos pobres, o sangue daqueles mesmos que sustentavam-lhe as indústrias do seu estado, daqueles mesmos que lavravam os campos da sua nação...
(Bravos! bravos!)
- ... Já era demais... Tudo preparou o terrível desabamento social que se chama queda da
Bastilha!...
"A onda popular rodeou espumante, etc., etc...
O eloqüente tribuno orou por longo tempo, e concluiu em tom religioso, no meio das aclamações dos circunstantes:
- ... Mas ainda não estão por terra todas as Bastilhas; ainda existem muitas realezas, e cada realeza é uma Bastilha temerosa...
"Abaixo pois as realezas!...
"Por terra as Bastilhas!...
"Plante-se a bandeira republicana por todo o mundo!... Que o orbe terráqueo apareça aos olhos dos outros planetas com a forma cintilante de um barrete frígio!...
(Bravôh! bravôh!...)
... Expulsemos, pois, da nossa pátria o velho chaveco da monarquia, ainda que tenhamos de oferecer, para a sua retirada, um rio do nosso sangue rubro!...
(Bravôôôh!)
E saudemos agora, neste brinde, como a síntese dos nossos votos, das nossas aspirações, a próxima fundação da república brasileira!...
E um brinde estrondoso como um furacão, subiu daquela tempestade de aplausos e garrafas, para sujar de vinho a cara impassível das instituições...
Naquele momento mesmo, quem se afastasse da fazenda em festa, até meia distância da fazenda do Dr. Salustiano, ver-se-ia apertado num contraste pavoroso.
Atrás da escuridão dantesca de uma noite tempestuosa e feia, ouviam-se perfeitamente, de uma banda, rumores orgíacos, inextinguíveis, como os risos de Homero; de outra banda, lastimosos gritos cruciantes, que pareciam pedir socorro às feras da mata...
De um lado, 14 de julho; do outro, a punição de Emídio, o negro fugido...
Uma coruja passou... Se estivesse presente, o Dr. Salustiano perceberia que a coruja ia cantando a Marselhesa.
Sentia-se realmente nas trevas do ar o grande anjo da igualdade roçando com a ponta das asas brancas os dois extremos do horizonte.
Depois, do discurso, a festa do compadre continuou; o delírio do prazer recrudesceu.
As libações caíam em cascata sobre a toalha da mesa. As imaginações catavam estrelas para o símiles dos brindes, a retórica já não tinha mais tropos.
Quando ia falar o Dr. Salustiano, que, por uma especial consideração, fora encarregado de pôr o fecho de ouro ao banquete com o grande brinde à Liberdade, acercou-se dele um sujeito que entrara, havia pouco, e por trás da cadeira disse-lhe ao ouvido:
- O Emídio bateu a bota... não resistiu ao viramundo...
Era o feitor que conhecemos.
O doutor atirou-lhe enfadado as cinco letras de Cambrone, e tomou uma garrafa do melhor champagne.
Todos os convidados tinham o olhar sobre ele, e gritavam todos:
- O brinde à Liberdade! o brinde!
O doutor ergueu-se vagaroso, solene; segurou corretamente o fuste de cristal de uma taça finíssima que enchera.
A estátua de gesso. acima dele, com a cabeça inclinada e a lâmpada ao alto, fitava-o, parecendo esperar o brinde, espantada...
- Cidadãos!... O futuro... pertence à idéia republicana...
(Falava um profeta)
(continua...)
POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.