Por Aluísio Azevedo (1880)
Trazia sai curta de pano escuro e grosseiro, deixando ver o começo de umas pernas bem feitas e terminadas por dois sapatinhos pretos de fivela e laço. O seio arfava-lhe sob a pressão do tecido rijo de barbatanas de baleia, que armavam um corpete de lã vermelho, muito justo e melhor talhado. Os cabelos, de tal negrura, que levantariam ao sol reflexos de azul-ferrete, destacavam-se do quadrado de linho branco, que lhe toucava cuidadosamente a fronte e reapareciam mais abundantes no pescoço em forma de duas reforçadas tranças.
Estava cansada. — Que a deixassem! Queria desafrontar-se daquelas roupas; e, passeando os olhos pelos grupos multicores dos rapazes no vestíbulo, parecia procurar alguém com certa impaciência.
Mal dera alguns passos sorrira. Os lábios sempre anunciam rindo, quando os olhos acham quem o coração procura.
Com efeito, um moço, saindo da multidão, acercou-se dela.
Era um belo rapaz. Esbelto e destro, olhar sombrio e ardente, agradável expressão de amargura na fisionomia, e suma confiança desamparada nos movimentos. Tinha uma cabeça escultural, modelada pelo tipo quase extinto da raça etrusco-pelágia.
Como os mais vestia jaquetão de veludo com mangas compridas e abotoadas, calções justos e claros, enfeitados de fitas na junção com a meia listrada, camisa de lã, aberta no pescoço.
Chamava-se Miguel Rizio. Filho de um músico romano, dedicara-se à arte do pai com algum êxito até aos doze anos. De repente, viu-se órfão e sem apoio, ficando-lhe, como derradeira consolação, a sua querida rabeca, única que no viver miserável de larazone, a que o condenara a miséria, não o desamparou jamais. Dormiam abraçados, muita vez, pelos alpendres, quando lhes falecia o teto e a cama.
Um belo dia, conseguiu fugir para Roma e lá, melhorando a arte, melhorou também os meios de subsistência.
De volta à ilha, sua pátria, encontrava-se aos domingos com Rosalina, e desde então, apesar da meninice da pequena, amou-a ele, quase tanto, quanto à sua rabeca.
E ela? Valha-a Deus! Por esse tempo nem se lhe dava dos amores do músico.
Quem se deu foi o pescador. De uma feita, desconfiou dos olhos ardentes de Miguel, e, cravando neles os seus, não menos ardentes e mais ferozes, fê-lo desde aí experimentar, a despeito da precoce energias de seus dezenove anos, um não sei que desagradável, que o obrigava e evitar sempre o pai de Rosalina.
Agora, ausente este, o moço sentia-se livre e feliz, e nestas circunstâncias deu com franqueza o braço a Rosalina, tomando alegremente o caminho de casa, que não ficava longe.
A boa Ângela protegia os inocentes amores da pupila, amores novos e superficiais para ambas, que apenas há dois meses o sabiam; enraizados, porém, e velho para Miguel, que há muito consumia noites e esperanças a cismar na filha do seu gratuito e maior inimigo.
Caracteres angélicos como o do artista sabem e podem amar; não com esse amor sensual e grosseiro, cheio de desejos, que estiolam o coração e os sentidos dos filhos das grandes capitais, mas com essa fragrância singela, comparável ao perfume da violeta e que se pode chamar afeto, religião ou mesmo fanatismo. Não a amava ele porque a desejasse, senão porque a sentisse em toda a sua
individualidade; nele tudo se poderia extinguir, menos esse sentimento, que o acompanhava como uma qualidade inerente à sua matéria. Quanto mais procuravam evitá-lo, quanto mais obstáculos levantavam à sua passagem, quanto mais faziam por pisá-lo, mais forte recendia esse afeto, semelhante às plantas do Oriente, que tanto mais perfume exalam, quanto mais grosseira for a mão que as triture.
Supersticioso como era, tinha para si que nem a morte seria capaz de destruir essa paixão.
— Quando eu morrer — pensava ele, há de ficar nesta ilha o meu amor, triste, invisível e inconsolável, como um espírito penado, e irá todas as noites deitarse à soleira da tua casinha branca, minha Rosalina. Vês um frasco de perfume que se quebra e derrama o líquido perfumoso? Pois bem; os pedaços desaparecem, a umidade do chão, que o líquido ensopara, bebe-a o calor da atmosfera, mas o perfume fica e ficará por muito tempo! É assim que eu te amo, minha amiga!
No entanto, Rosalina estava longe de alcançar a grandiosidade deste sentimento: supunha-o vulgar e reles, como soe acontecer com as raparigas, que não conhecem o coração do homem.
CAPÍTULO VI
Há dois anos, estava Maffei em Rezina.
Há dois anos, cartas impregnadas de certo cheiro de prosperidade vinham alegrar a família do pescador e sobressaltar o ânimo do pobre Miguel. Contudo, a casinha branca continuava naquela ignorada e encantadora solidão; agora, porém, as oliveiras deixavam apodrecer o fruto nos galhos, o lugar onde dormia ocioso e as redes da pesca não viam água salgada desde muito tempo.
Fazia uma noite deliciosa. Uma dessas noites sem lua, em que a frouxa claridade das estrelas povoa o campo de poesia e amor.
O relógio de São Tiago badejava pausada e religiosamente, o toque do crepúsculo, quando Miguel, com sua rabeca debaixo do braço, seguia abstraído pela orla do caminho, que ia dar à casinha branca.
Em breve, atravessava o patamar de pedra da casa do pescador, e descansava vagarosamente sobre a mesa a rabeca e o chapéu de feltro de copa alta.
Ângela e Rosalina correram ao encontro do recém-chegado.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.