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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

— Aquela, que te trazia suspensa sobre a cabeça uma ameaça de morte?...

Fazia-o, porque era adoravelmente boa!

— Aquela, que te não permitiu fosses o dono do primeiro beijo de teu filho?...

É verdade, a mesma!

Aquela fúria?

Era uma santa!

E ficou muito sério, com o rosto compungido e contrito.

Até hoje ainda não sei como não caí para trás, fulminado.

Meti as mãos nos bolsos das calças, abri as pernas à marinheira, ferrei o olhar no tapete do chão, apertei os lábios, arregacei as sobrancelhas, e embatuquei.

Sim, senhor!...

Estava preparado para ver, sem me alterar, o meu estimável amigo Leandro de Oviedo atirar as mãos para o chão e pôr-se a percorrer a sala de pernas para o ar.

Que digo? Poderia ver sem pestanejar, o retrato da própria sogra de Leandro desprender-se do seu caixilho dourado, e vir dar-lhe um beijo, ou dançar um fandango entre nós dois.

Naquele instante nada me causaria abalo!

Mas, ao fim do jantar, reanimado por um velho e generoso Barbera, pedi ao meu paradoxal amigo que me explicasse o milagre daquela sua tão absoluta inversão de pontos de vista. Sempre queria ouvir!

— Não te darei uma palavra e terás a mais satisfatória explicação do mistério, disse-me ele. — Dormes aqui, não é verdade? Dormes decerto!

Mas...

— Podias até passar alguns dias comigo. Isto por cá é muito aprazível nesta época. Onde estás morando?

No Freitas.

— Ora! Não te largo esta semana! Seria desumanidade deixar-te ir! Hospedado no Freitas!...

— Mas é que... não contava com isto... Vou sem dúvida incomodar tua família...

— Qual! Minha família não sei quando virá... Tu agora não tens ainda com certeza o que fazer... De resto não ficas totalmente preso: podes ir à cidade quando quiseres; trazer de lá ou mandar buscar o que precisares. Olha! aqui pelo menos estás livre de qualquer febre! e podemos dar magníficos passeios, a cavalo e de carro, pela Floresta, à Vista Chinesa, à Gávea. Amanhã mostro-te as minhas estrebarias; se ainda conservas gosto pelo gênero, encontrarás o que ver.

Confessei-me vencido, mesmo porque sentia já a curiosidade excitada.

Jogamos à noite uma partida de bilhar e, às onze horas, na ocasião de recolher à câmara que me destinaram, exigi de Leandro a prometida explanação do milagre.

Entra para o teu quarto, que lá te levarei, respondeu ele, afastando-se.

E pouco depois voltava, trazendo com todo o carinho um pequeno estojo de ébano. Abriu-o defronte de mim com uma chavezinha de prata, e tirou de dentro um livro preciosamente encadernado.

Mostrou-me o livro, em silêncio, cheio de gestos e desvelos religiosos. Na capa, entre guarnições de ouro e pedras finas, havia um delicadíssimo esmalte, retratando em miniatura o busto da sogra. Estava a primor, com o seu distinto e singelo penteado de cabelos brancos, com as suas lunetas de cristal, e com aquele sutil sorriso malicioso, que lhe conheci noutro tempo.

— Não poderia dar-te maior prova de amizade, do que te confiando este sagrado tesouro, disse-me Leandro. — É um manuscrito de minha sogra. Começa a lê-lo hoje antes de dormir, e depois, quando o tenhas concluído, conversaremos a respeito da mãe de minha mulher...

Tomei nas mãos, cuidadosamente, a sedutora relíquia, examinei-a deveras intrigado, depu-la de novo no seu estojo, agradeci a Leandro o obséquio, impaciente por vê-lo pelas costas.

Logo que me pilhei sozinho, fiz em três tempos a toilette, aninhei-me na cama, cheguei para perto da luz do velador, e, com uma volúpia repassada da mais legítima curiosidade, abri a primeira página e comecei a leitura.

Mal sabia eu que grande influência ia exercer esse manuscrito sobre minha vida... E como hoje posso publicá-lo, não ponho nisso a menor dúvida.

É o que se segue:

CAPÍTULO II

Manuscrito de Olímpia

La nature a des perfections pour montrer qu’elle est l’image de Dieu, et des défauts pour montrer qu’elle n’en est que l’image.

PASCAL, Pensées.

Órfã de pai e mãe, tinha eu dezoito anos de idade, quando passei das mãos de meu tutor para as mãos do estimado e simpático Dr. Virgílio Xavier da Câmara, que me recebeu por esposa na igreja de São João Batista em Botafogo.

Meu noivo contava vinte e sete anos.

(continua...)

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