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#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

Toda a vantagem havia em tomarmos a estrada do Jardim. Em primeiro lugar podiam os nossos comboios escapar ao inimigo que parecia perseguir-nos noutra direção. E não era só dos mercadores estacados na Machorra, à nossa espera, que se tratava, mas também de todos os mais que, na suposição do secionamento ou da perda de nossa coluna, penosamente retrogradavam para Nioac. Tínhamos ainda a probabilidade de algum abastecimento nos distritos desertos, onde, mesmo longe das estancias, há animais erradios. Em terceiro lugar não eram de pequena monta as vantagens que nos apresentava a disposição de um terreno acidentado, em parte coberto de matas e capões capazes de neutralizar as armas mais danosas em uma retirada, a cavalaria, graças aos acidentes do terreno e a mataria; a artilharia, porque a nossa, com a dianteira que tomávamos, teria sempre á faculdade de, antes do inimigo, ocupar qualquer posição de algum valor estratégico.

Íamos desde logo evitar uma planície de meia légua onde a água das últimas chuvas ainda encharcava o solo, apenas deixando estreita passagem ao longo da qual, durante muitas horas, teríamos que suportar o fogo do inimigo.

Enfim, por esse caminho da estancia de Lopes, só havia um grande rio a atravessar, 0 Miranda, enquanto pela estrada ordinária, precisaríamos, além deste, transpor numerosas correntes, três pelo menos volumosas: o Desbarrancado, o Santo Antônio e o Feio, que as menores chuvas sobremodo acaudalam.

Podia-se dizer, é exato, que um efeito desagradável do nosso desvio da estrada batida seria persuadir aos paraguaios que procurávamos escapar-lhes pela fuga, assim se amesquinhando a boa impressão que os últimos combates lhes deviam ter dado de nós. Mas esta aparente desvantagem vinha pelo contrário, naquele momento, reforçar o desejo em que nos empenhávamos de salvar os comboios da perseguição do inimigo, atraindo-a sobre nós. 1t que ela não nos inspirava temor. O que certamente nos levava a refletir sobre o cave vinha a ser a idéia de nos embrenhar em lugares ainda não explorados, cheios talvez de inesperados obstáculos, no meio desta macega alta que a alguns passos impede a visão; que é preciso cortar sem descanso e quando seca (como então estava) exige perigoso e pesado serviço. Qualquer consideração acerca de perigos e dificuldades secundárias desaparecia, contudo, em frente à urgência da situação. Não houve quem não o compreendesse; uma única porta de salvação nos restava aberta.

Pusemo-nos a marchar a uma hora da tarde; iam os oficiais no centro de seus batalhões. Achava-se o comandante com parse do seu estado-maior no quadrado do 20. Ao entrar nele, jovialmente dissera ao capitão Paiva: "Venho colocar-me aqui entre os senhores; ninguém se defenderá melhor que nós".

Caminháramos um quarto de légua, quando muito, e já o fogo dos paraguaios começara do alto de uma eminência que dominava o teatro do combate da manhã.

Apanhava-nos os quadrados a descoberto, obrigando-nos a uma evolução em colunas.

Surtiu esta manobra bom efeito. Deveria ela, no entanto, fazer compreender ao inimigo as vantagens de contra nós empregar, em constante alternância, a artilharia para bater os quadrados e a cavalaria para nos acutilar, desde que nos formássemos em coluna. Felizmente não havia o que lhe abrisse os olhos e safamo-nos deste mau passo sem maior dano. Nosso guia, sempre à vanguarda, por simples intuição militar, e sem que nenhum recado tivesse recebido, aproveitou o conhecimento que tinha do terreno, fazendo-nos deixar bruscamente a estrada da Machorra e inflectir para a esquerda. Por meio de súbita contramarcha levou-nos ao pé de uma eminência onde nos era fácil assestar uma bateria, caso fosse necessário; era a segurança. Apenas percebeu Lopes, aliás, a ausência de inconvenientes, tornou a meter-nos no rumo norte por subida bastante suave.

Pareceu-nos o inimigo hesitante sobre o que lhe convinha fazer. Era-lhe visível a perplexidade; avultado número de cavaleiros corria no campo de um lado para outro. Encaminhavam-se grupos sobre a bateria inimiga onde era evidente a presença do comandante. Pareciam as peças seguir-nos o movimento à medida que progredíamos no declive por onde nos fazia Lopes marchar Foi esta, aliás, a última vez em que se mostraram: nunca mais as tornamos a ver, ou porque receassem os paraguaios arriscá-las em paragens para eles desconhecidas e prestando-se a emboscadas ou tivessem esgotado as munições. Provavelmente as despacharam sob a escolta d' um corpo de cavalaria, que tomou a direção da Machorra. Desde aí fomos menos incomodados, mesmo pela cavalaria.

Prosseguia a nossa jornada sem maior empecilho além da macega alta, que nos cercava e precisávamos irremediavelmente cortar, e sobre a qual se tornava a marcha das mais penosas; cortando as arestas das gramíneas os pés dos soldados. Reservava-nos ela, entretanto, provações bem mais cruéis que não tardariam a ocorrer.

(continua...)

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