Por Franklin Távora (1878)
Longe de o chamar á razão, o tiro, que mais parece Ter sido aviso de prudência do que meio de dar cabo do poderoso inimigo, visto que, se esta fora a intenção, não teriam posto na arma tão pequena carga que, não obstante ser muito curta a distancia, a bala produziu unicamente no governador ligeira escoriação, serviu antes para o arrojar de uma vez no caminho do atentado. Bastava Ter contra se suspeita de cumplicidade no nefando delito da Rua-das-aguas-verdes para qualquer ser atirado a horrorosa prisão. O capitão André Dias de Figueiredo foi talvez preso como cúmplice, unicamente por Ter por nome o mesmo que o do juiz ordinário que em 1666 intimou ao governador Mendonça Furtado a ordem de prisão em nome do rei. Enfim, foram tantos os excessos do governador Caldas, agora mandando abrir devassas, agora ordenando prisões indevidas; ora estabelecendo presídios, como fez em S.Lourenço-da-mata e em Santo_Antão, ora determinando que o povo fosse desarmado sem ter em atenção sequer estar iminente a invasão francesa, segundo acertadamente pondera o nosso cronista, que, antes do dia 5 de novembro, em que devia romper a revolução, rebentou esta por ocasião de pretender o capitão João da Mota prender o capitão-mór de Santo-Antão Pedro Ribeiro da Silva. Foi em 2 do dito mês que, em lugar de Mota prender Ribeiro quando este ia ouvir missa na matriz, o sitiou ele em seu próprio presidio e o obrigou a capitular com a condição de não voltar ao Recife enquanto o povo, que tratava de reunir-se, não descesse a atacar a vila novamente criada. Enfim, no Domingo (10 de novembro) uma multidão passante de 2.000 matutos tomou o Recife, e como não encontraram ai o governador, foram aquartelar-se em Olinda, senhores da situação. Caldas tinha fugido de véspera para a Baia sem Ter cumprido a sua promessa de embeber, antes de partir, a sua espada em corações pernambucanos.
Foi logo chamado a tomar as rédeas do governo, visto vir apontado na carta regia que prevenia as vacâncias, o bispo d. Manoel Alvarez da Costa que se havia retirado, em visita pastoral, para a Paraíba com o ouvidor dr. José
Ignácio de Arouche pouco simpático aos do Recife por não Ter querido convir na ampliação do termo. D. Manoel volta a Olinda e assume o exercício do novo cargo em 15 de novembro. O primeiro ato do seu governo foi perdoar aos povos a sublevação e o tiro dado em Sebastião de Castro Caldas.
Como era natural, o perdão irritou os parciais do governador Caldas, os quais, não só pelos ódios próprios, mas também pelas reiteradas sugestões que lhes chegavam do mesmo governador para que, por sua vez, rompessem contra os do outro partido, assegurando-lhes que o rei não deixaria de levar a bem semelhante serviço, não pensaram senão em tomar estrondoso desforço. Ou porque acreditassem piamente no que escrevia Caldas, ou porque o seu ódio não tinha outro objetivo que o de aniquilar a nobreza, a quem deviam tão grande revez, que os havia prejudicado em seus interesses e em sua política, os europeus, que esposavam a causa da reação, alimentavam em silencio os seus projetos de vingança e aparelhavam-se com sagacidade e tino para o rompimento formal. Neste intuito levaram muitos meses a prover-se de mantimentos. A farinha, o feijão, o milho, o arroz, o açúcar, a carne, o peixe entravam todos os dias para os seus armazéns, onde ficavam em bom recato. Finalmente, no dia 18 de junho, aos gritos de <Viva el-rei d. João V, morram os traidores> puseram eles nas ruas a revolta, tomaram conta das fortalezas do Brum, Buraco, e Cincopontas, e no pressuposto de restaurarem a perdida autoridade de Caldas, consideraram o bispo suspenso de suas atribuições e o recolheram no colégio dos jesuítas. Nomeando um governo monstruoso, composto de João da Mota e de um preto mestre de campo do Terço-dos-Henriques, obrigaram o bispo a assinar ordens que importaram em os assegurar na posse da situação, assim violentamente roubada á legalidade.
Fosse porém qual fosse o verdadeiro motivo da reunião no engenho Bujari, o certo é que nunca em sua casa reuniu João da Cunha tão numeroso concurso de pessoas escolhidas, com ser costume de longa data ajuntarem-se ai por S.João moradores de conta do lugar.
Não só por ser poderoso, senão também por ser homem de resolução e de gênio arrebatado, era João da Cunha muito temido em todo aquele termo.
Uma tradição de sangue dava a seu nome e família triste celebridade. Contava-se que varias pessoas, das quais algumas por faltas muito leves, tinham sido mandadas matar por sua ordem e enterrar depois na bagaceira. Mais de um negro tinha morrido nos açoites, e de um até se dizia que fora atirado vivo, não sabemos por que motivo, na fornalha do engenho, onde morreu queimado.
Naqueles tempos tradições semelhantes, em vez de diminuírem o tamanho moral do herói dessas repugnantes ilíadas, recomendavam aos povos os sanguinários Achiles, que por este modo se faziam conhecer e celebrizar.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.