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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Mas como? Que razão daria a seus pais e ao mundo para aquele ato de tamanha gravidade e escândalo! De si não se preocupava. O que não queria era lançar qualquer mácula sobre o marido, a quem amava, e sujeitá-lo à reprovação geral.

Falaria a Hermano logo no dia seguinte, e combinariam o melhor meio.

Separar-se-iam como dois irmãos queridos, que o destino aparta; e longe, lembrando-se um do outro, revivendo os dias felizes que haviam precedido o seu casamento, se amariam eternamente.

Mais tarde, talvez!...

Essa meiga esperança veio afagar o seu pensamento, cerrou-lhe as pálpebras e trouxe-lhe um sono plácido, depois de tão violentas emoções.

Capítulo 17

Era tarde quando Amália acordou. Deitada ainda e envolta nas alvuras de suas roupas de linho, entrou a olhar amorosamente os objetos que a cercavam, os móveis, as decorações da parede, as árvores do jardim que ensombravam as janelas.

Tinha saudades deste sonhado ninho de seu amor, onde, se não havia achado a ventura, fruíra tão doces momentos de enlevo conversando com seu Hermano.

E agora era preciso deixá-los e com eles as ilusões de uma felicidade, de que lhe fugira quando a supunha segura. Sua esperança despedia-se de todos estes companheiros de solidão que lhe haviam sorrido nos primeiros dias.

Hermano desde muito cedo andava na chácara. Ao entrar em casa viu a mulher sentada na sala, a cismar. Ela revolvia as dolorosas impressões da véspera, para fortalecer-se em sua primeira resolução.

Vendo o marido que parara indeciso, enviou-lhe o seu melancólico e resignado sorriso.

Hermano aproximou-se então e disse-lhe impetuosamente com uma voz sufocada:

— Sou um miserável, Amália; sacrifiqueia-a indignamente. Amei-a com paixão, jurei fazer a sua felicidade, que era a minha, uni o meu ao seu destino; e eu não me pertencia, não era livre, não podia dispor de mim! Sou um miserável!... Traí a minha primeira mulher, e à segunda enganei!...

— Não me enganou, Hermano; afaste semelhante idéia. Eu sabia o que se passava em seu espírito e previ o que veio acontecer. Se alguém errou fui eu, que me iludi numa esperança falaz, mas tão grata, que ainda me deixaria enlevar por ela se fosse possível.

— Sabia, Amália?... Mas por que não me repeliu? E eu, cego que estava, roubei-lhe a felicidade, a existência inteira!

— Tinha esse direito. Ela lhe pertencia.

Hermano afastou-se arrebatadamente com um gesto de desespero. Amália foi a ele com o pensamento de acalmar essa agitação e de convencê-lo da necessidade de uma separação que aplacaria os seus escrúpulos, e pouparia a ela novos e cruéis martírios.

O marido, porém, voltara para dizer-lhe:

— Não se aflija, Amália!... Cometi uma perfídia, mas não passou de uma alucinação!... A minha honra e a minha lealdade não me abandonaram ainda e espero em Deus que não me hão de desamparar nunca. Juro restituir-lhe intata a sua liberdade que eu tive a desgraça de comprometer. Resigne-se por alguns dias a este constrangimento. Ele cessará, deixando-a outra vez senhora de si.

— É sobre isto mesmo que desejava falar-lhe, Hermano. Refleti, penso que uma separação é necessária para o sossego de ambos. Devemos, porém, fazê-la de modo que não nos fique mal. O meio é que eu não sei. Se fosse possível!... Lembrei-me que na Europa, com as viagens, ninguém suspeitaria, nem mesmo mamãe.

— Oh! ninguém suspeitará!... Terei o cuidado de ocultar! Tomarão por um acidente um acaso!

Hermano, proferindo estas palavras com um tom equívoco e um sorriso pungente, deixou a moça entregue a suas tristes reflexões.

A princípio ela não penetrou o verdadeiro sentido daquela resposta do marido. Pensou que ele se referia apenas ao pretexto da separação, prometendo achar um que poupasse desgosto à família e não desse azo à maledicência.

Mas aquele estranho sorriso, e a qualificação de acidente dada pelo marido ao fato que devia desligá-los, lançou em seu espírito uma dúvida cruel. Que pretendia ele fazer então, simuladamente, para que os outros o atribuíssem a uma casualidade?...

Amália ergueu-se, trêmula de horror. Adivinhara! Hermano tinha resolvido matar-se. Era essa a significação daquele juramento que fizera de restituir-lhe a liberdade. Para não expor a reputação dela, de sua esposa, é que prometia levar a efeito o plano sinistro de modo que ninguém desconfiasse do suicídio.

Ansiosa buscou o marido; mas este se havia recolhido ao gabinete, onde ela não se animou a entrar.

Imagine-se o que devia sofrer, pensando que naquele mesmo instante em que tremia atenta ao menor rumor, ele, Hermano, talvez carregava o revólver, armava-o e... despedaçava a cabeça com um tiro!

(continua...)

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