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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

— Sim; depois que tiver dançado com todos, replicou o moço completando seu pensamento com o olhar.

— Então a sexta.

A orquestra abriu o baile com uma brilhante sinfonia, depois da qual deram o sinal da primeira quadrilha. Rompeu-se então a simetria, e formou-se o turbilhão.

Durante a contradança, Horácio não se esqueceu do pezinho adorado; e procurou todos os meios de o descobrir nalgum momento de confusão ou descuido. Chegou até a fingir estouvamento em algumas das marcas com o fim de embaraçar o vestido da moça.

— Eu me sento! disse-lhe Amélia irritada.

— Bárbara, non hai cor! replicou-lhe Horácio com as palavras do romance.

– O seu coração está no botim? perguntou-lhe a moça com despeito. -- O meu, a senhora bem o sabe, já não me pertence, pois lho dei há muito tempo; e ando-o agora procurando no chão, onde creio que o deixou esmagado um tirano que eu adoro e me repele. Mas conto com a senhora para movê-lo em meu favor. Sim?

— Não, respondeu a moça agastada.

— Realmente eu não compreendo. Será possível que a senhora tenha ciúmes dele? perguntou Horácio gracejando.

A moça olhou-o com expressão.

— Tenho sim, tenho ciúmes!

Terminada a quadrilha, Horácio, depois de algumas voltas de passeio pela sala, deixou a moça no seu lugar e desceu a escada de mármore que levava ao jardim, iluminado com lampiões de diversas cores. Havia ao lado da casa, e ao longo de uma latada, mesas de ferro para tomar sorvetes e refrescos. Horácio, dirigindo-se para esse lugar, avistou Leopoldo sentado a uma das mesas.

— Oh! por cá também, Leopoldo?

— É verdade; contra meus hábitos.

— Está esplêndido! Não achas?

— Sem dúvida. Mas parece que não tem grande interesse para ti.

— Por que pensas assim?

— Vens te esconder aqui, quando se dança. Devias deixar isso para mim, que sou uma espécie de misantropo, uma alma errante neste mundo das fadas.

— Para ser franco, devo-te confessar, que neste baile, onde se acham reunidas as mais bonitas mulheres do Rio de Janeiro, onde nada falta do que pode tornar brilhante uma festa, nem o luxo, nem a riqueza, nem a concorrência, nem as notabilidades de toda espécie, neste baile só há uma coisa que me interessa; uma coisa bem pequenina, e por isso mesmo de um encanto inexprimível

— Que condão será esse tão poderoso?

— Disseste a palavra. E um condão, um verdadeiro condão de fada, que me transformou de repente, e fez do senhor um escravo humilde e submisso.

— Mas no fim de contas o que é?

— Um pezinho!

Tendo proferido esta palavra, Horácio julgou ter dito tudo quanto era possível exprimir na linguagem humana. Um pezinho, era aquele ente adorado que ele entrevia nos sonhos dourados de sua imaginação; era o primor, que deixara impressa a sua forma delicada na mimosa botina. O moço desenhava na fantasia aquele ídolo de suas adorações; e acreditava que Leopoldo devia, como ele, extasiar-se ante a maravilha da natureza.

Longe disso, Leopoldo depreendera das palavras do amigo, que ele estava sob a influência de uma paixão materialista; que ele amava a forma, e levava sua idolatria a ponto de adorar não a forma completa, a imagem viva e palpitante da mulher, mas um fragmento, um trecho apenas dessa forma.

— Pois para mim também, disse Leopoldo, só há neste baile como neste mundo uma coisa que me ilumina a existência.

— A glória?... aposto.

— Um sorriso, apenas.

Horácio não pôde reprimir um gesto desdenhoso. O sorriso era para ele uma das coisas mais triviais; tinha-os colhido tantas vezes, e em lábios tão puros e mimosos, que já não lhe excitavam a atenção. Eram como as flores de um vaso que todos os dias se substituem.

—Vais dançar? perguntou o leão.

— Agora não.

— Pois façamos uma coisa. Conta-me a história de teu sorriso, que eu te contarei a história de meu pezinho.

— Começa então. Cabe-te a preferência, disse Leopoldo.

— Eu a aceito; porque o objeto de meu culto não tem igual no mundo.

Horácio acendeu o charuto. Ele não tinha o menor interesse em saber a história de Leopoldo; o que desejava era um pretexto para falar do objeto de sua adoração, e vazar o que tinha n'alma.

— Há cerca de dois meses, passando pela Rua da Quitanda, achei por acaso sobre a calçada um objeto que tinha caído de um carro. Era uma botina, mas que botina!... um mimo, um primor, uma coisa divina!

"Não podes fazer idéia, não, Leopoldo. Sabes que tenho amado mulheres lindas de todos os tipos, alvas ou morenas; formosuras de todas as raças, desde a loura escocesa até a brasileira de tranças negras; adorei-as, uma depois de outras, e às vezes ao mesmo tempo, essas diferentes irradiações de beleza. Pois confessote que nunca o sorriso ou o beijo da mais sedutora dentre elas me fez palpitar o coração como aquela botina.

(continua...)

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