Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Defronte da barra do Rio de Janeiro, ao sul dela quatro ou cinco léguas, estão duas ilhas baixas, e ao noroeste delas está um porto de areia bem chegado à terra, onde há abrigada ao vento sul, sueste, leste e noroeste, e como for outro vento convém fugir na volta de leste ou do norte, que serve para quem vem para o reino; e quem houver de ancorar aqui, pode-se chegar à terra até quatro ou cinco braças de fundo para ficar bem; e quem houver de entrar no Rio, dando-lhe o vento lugar, entre pela banda do leste, e sendo o vento oeste, vá pela barra de oeste, pelo meio do canal que está entre a ponta de Cara de Cão e a lájea; mas a barra de leste é melhor, por ser mais larga; e por cada uma delas tem fundo oito até doze braças até a ilha de Viragalham; e quanto mais forem a loeste, tanto menos fundo acharão, depois que passarem a ilha, e para a banda de leste acharão mais fundo em passando a ilha de Viragalham, que se chama assim, por ser este o nome do capitão francês, que esteve com uma fortaleza nesta ilha, que é a que Mem de Sá tomou e arrasou.
Defronte da barra deste Rio ao mar dela, está uma ilha, a que chamam ilha Redonda; e afastado dela para a banda de leste, está outra ilha, a que chamam a ilha Rasa; e defronte desta ilha e a ponta da lagoa, estão três ilhas no meio, e chegando à terra está outro ilhote, a que chamam Jeribatuba, em derredor da qual estão quatro ilhotes.
C A P Í T U L O LI
Em que particularmente se explica a baía do Rio de Janeiro da ponta do Pão de Açúcar para dentro.
É tamanha coisa o Rio de Janeiro da boca para dentro, que nos obriga a gastar o tempo em o declarar neste lugar, para que se veja como é capaz de se fazer mais conta dele do que se faz.
E comecemos do Pão de Açúcar, que está da banda de fora da barra, que é um pico de pedra mui alto, da feição do nome que tem, do qual, à ponta da barra, que se diz de Cara de Cão, há pouco espaço; e a terra, que fica entre esta ponta e o Pão de Açúcar, é baixa e chã; e virando-se desta ponta para dentro da barra se chama Cidade Velha, onde se ela fundou primeiro. Aqui se faz uma enseada, em que podem surgir navios, se quiserem, porque o fundo é de vasa, e tem cinco, seis e até sete braças. Esta enseada se chama de Francisco Velho, por ter aqui sua vivenda e granjearia, a qual é afeiçoada em compasso até outra ponta adiante, que se chama da Carioca, junto da qual entra uma ribeira, que se chama do mesmo nome, donde bebe a cidade. Da ponta da Cara de Cão à cidade pode ser meia légua; esta ponta de Cara de Cão fica quase em padrasto da lájea, mas não é muito grande por ela não ser muito alta.
A cidade se chama São Sebastião, a qual edificou Mem de Sá, num alto, numa ponta de serra que está defronte da ilha de Viragalham, a qual está lançada deste alto por uma ladeira abaixo; e tem em cima, no alto, um nobre mosteiro e colégio de padres da companhia, e ao pé dela uma estância com artilharia para uma banda e para outra, um modo de fortaleza numa ponta, que defende o porto, mas não a barra, por lá não chegar bem a artilharia.
Ao pé desta cidade, defronte da ponta do arrecife dela, tem bom surgidouro, que tem de fundo cinco e seis braças, e che-gando-se mais à terra tem três e quatro braças, onde os navios têm abrigo para os ventos gerais do inverno, que são sul e su-sueste. E quem quiser ir para dentro há de passar por um banco, que tem de preamar até vinte palmos de água; e passando este banco, virando para detrás da ponta da cidade, acharão bom fundo, onde os navios estão seguros de todo tempo, por a terra fazer aqui uma enseada. E quando os navios quiserem sair deste porto carregados, hão de botar fora por entre a ilha e a ponta da terra firme, pela banda do norte, e hão de rodear a ilha em redondo para tornarem a surgir defronte da cidade, e surgirem junto da ilha de Viragalham, entre ela e a cidade; no qual lugar acharão de fundo três braças, e três e meia, onde tem porto morto e defronte desse porto é o desembarcadouro da cidade, onde se diz as casas de Manuel de Brito.
C A P Í T U L O LII
Em que se explica a terra da baía do Rio de Janeiro da ponta da cidade para dentro até tornar à barra.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.