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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Fê-lo com palavras dignas, graves, elevadas... Desde que vira D. Virgínia, amava-a. Amava-a, menos pela sua beleza – que era grande, que era cativante – do que pelas qualidades morais que ela não podia deixar de ter, sendo «filha de tal mãe». Não se atrevera, ao princípio, a dizer-lho a ele, padre Augusto; não o conhecendo bem, poderia suspeitar que, pobre bacharel, ele apenas aspirasse ao dote da senhora. Mas agora o padre Augusto conhecia-o, não é verdade? Estava bem certo do seu desinteresse, do seu desprendimento de todas as ambições de dinheiro – não é verdade? Julgava então poder desabafar no seio de um amigo sincero! Amava a Srª D. Virgínia! Mas uma coisa pedia.41 ao padre Augusto – uma coisa lhe pedia, ali, como amigo, como companheiro –que não dissesse nada às senhoras! Se ele tivesse urna posição social, uma sólida fortuna em terras, um título de fidalguia deste reino, então, decerto, não hesitaria em revelar o alto anelo do seu coração! Mas estava apenas no começo da sua carreira, infelizmente. Por modéstia, por dignidade, por circunspecção, devia calar-se... E todavia, sentia em si energias, delicadezas, todas as condições para fazer feliz, bem feliz, uma menina... Sabia o padre Augusto o que ele desejaria? Casar com ela, ter uma pequenina casa em Campolide, ilustrar-se na carreira do foro, viver com conforto, e ter um velho amigo respeitável que viesse todos os dias comer a sopa com intimidade e fazer a sua partida de voltarete... Um amigo como o padre Augusto... Que se ele casasse, o padre Augusto não havia de ficar a viver ali, no quarto estreito da Adelaide Gervásio, com janela para as pedras do saguão! Havia de viver com eles, ter o seu talher à mesa, a sua roupa branca bem tratada, o seu caldo de galinha à noite, os carinhos de uma família... Mas enfim, tudo aquilo eram sonhos...

Daí a dias, ao sair da Igreja de S. Domingos, Virgínia – que, como me afirmou o Conde mais tarde, tinha, em rapariga, o hábito de escutar às portas – ao ver Alípio, corou prodigiosamente.

Na semana seguinte, Alípio recebeu do padre Augusto um convite verbal para ir passar a noite com os Amados. Aceitou. Foi uma soirée íntima grave, um pouco silenciosa, edificante. Alípio falou da sua excelente tia, da sua caridade – e da caridade dos Noronhas. Contou a maravilha de um velho, ao pé de Penafiel, que vivia havia vinte anos em estado de graça; narrou anedotas piedosas de Fr. Bartolomeu dos Mártires; provou como todos os países protestantes – a Inglaterra, a Alemanha, a Suécia – iam numa decadência progressiva e fatal; voltou as páginas da Prece à Virgem que Virgínia tocou com mimo ao piano, e fez, com padre Augusto, o voltarete do Sr. Desembargador.

E, quando recolhia com o sacerdote às portas de Santo Antão, teve o gozo de lhe ouvir estas palavras memoráveis:

– Não há que ver, o amigo deu no goto às senhoras! E todos aprovamos. Isto é, o nosso Desembargador é que parece um bocado renitente...

– Se a Srª D. Laura quiser... Isto é, se o padre Augusto quiser!...

– Não digo que não. Estimam-me na família... Vão muito pelo que eu digo... Mas às vezes o nosso Desembargador tem birras!

Tinha começado a chuviscar, e para que o padre Augusto, tão sujeito a defluxos, se não constipasse, o nosso Alípio, sempre bom, sempre afectuoso, tomou generosamente uma tipóia.

As birras do obeso e obtuso Amado eram realmente singulares. Sem razão, de repente, embirrava. E era então como o obstáculo bruto, inerte, material, de um enorme pedregulho numa estrada. Era uma resistência passiva e espessa: as bochechas tornavam-se-lhe mais balofas, as pálpebras papudas mais pesadas, e sem dar razões, rosnava surdamente:

– Não estou pelos autos... Não vai... Não me calha.

E causava indignação e horror, sentir aquela massa bestial e adiposa, atravancando obstinadamente o caminho!

O Dr. Vaz Correia, que todas as manhãs pedia a Alípio que lhe fizesse o relato do estado do negócio, tinha-o avisado:

– E cuidado com esse animal! Se ele começa a dizer que não calha, acabou-se. Você esbarra e não há-de ir para diante.

Como conseguiu Alípio desvanecer a resistência inerte e espessa do Desembargador? Não possuo documentos em que possa basear uma narração anedótica fidedigna. Sei apenas que ao fim de três meses – Alípio ia então todas as quintas e.42 domingos a casa dos Amados – o Desembargador, segundo a expressão pitoresca do Dr. Vaz Correia, começou a «derreter». Já dizia:

– Não é mau rapaz... Começa a calhar-me!

Pude averiguar que o nosso fino Alípio lhe dera uma receita para fazer chá de erva cidreira, que aliviava o Desembargador nas suas digestões monstruosas. No dia dos seus anos, publicou na Semana uma leve biografia, em que, num grandioso estilo à Plutarco, a integridade do Desembargador era comparada à dos Sénecas e dos Catões.

Por fim teve ocasião de lhe prestar um serviço resplandecente, que muito deve ter contribuído para o «derretimento» do Desembargador.

A história foi-me assim contada: no escritório do Dr. Vaz Correia praticava, havia anos, um certo Dr. Pimentel, moço estimável, mas que, segundo a expressão moderna, «tinha telha».

Era um mancebo franzino melancólico, de grande nariz e lunetas de ouro, que passava horas em silêncio, catando um a um os pêlos do bigode.

(continua...)

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