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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- Os trabalhos, minha senhora... - disse Basílio curvando-se. E acrescentou rindo, batendo coma bengala na pedra do tanque:

- E a velhice! Sobretudo a velhice!

Na água escura e suja as luzes do gás torciam-se até uma grande profundidade. As folhagens em redor estavam imóveis, no ar parado, com tons de um verde lívido e artificial. Entre os dois longos renques paralelos de árvores mesquinhas, entremeadas de candeeiros de gás, apertavase, num empoeiramento de macadame, uma multidão compacta e escura; e através do rumor grosso, as saliências metálicas da música faziam passar no ar pesado, compassos vivos de valsa.

Tinham ficado parados, conversando.

- Que calor, hem? Mas a noite estava linda! Nem uma aragem! Que enchente!

E olhavam a gente que entrava: moços muito frisados, com calças cor de flor de alecrim, fumando cerimoniosamente os charutos do dia santo; um aspirante com a cinta espartilhada e o peito enchumaçado; duas meninas de cabelo riçado, de movimentos gingados que lhe desenhavam os ossos das omoplatas sob a fazenda do vestido atabalhoado; um eclesiástico cor de cidra, o ar mole, o cigarro na boca, e lunetas defumadas; uma espanhola com dois metros de saia branca muito rija, fazendo ruge-ruge na poeira; o triste Xavier, poeta; um fidalgo de jaquetão e bengalão, de chapéu na nuca, o olho avinhado; e Basílio ria muito de dois pequenos que o pai conduzia com um ar hilare e compenetrado - vestidos de azul-claro, a cinta ligada numa faixa escarlate, barretinas de lanceiros, botas à húngara, cretinos e sonâmbulos.

Um sujeito alto então passou rente deles, e voltando-se, revirou para Luísa dois grandes olhos langorosos e prateados; tinha uma pêra longa e aguçada; trazia o colete decotado mostrando um belo peitilho, e fumava por uma boquilha enorme que representava um zuavo.

Luísa quis-se sentar.

Um garoto de blusa, sujo como um esfregão, correu a arranjar cadeiras; e acomodaram-se ao pé de uma família acabrunhada e taciturna.

- Que fizeste tu hoje, Basílio? - perguntou Luísa.

Tinha ido aos touros.

- E que tal? Gostaste?

- Uma sensaboria. Se não fosse pelo trambolhão do Peixinho tinha-se morrido de pasmaceira.Gado fraco, cavaleiros infelizes, nenhuma sorte! Touros em Espanha! Isso sim!

D. Felicidade protestou. Que horror! Tinha-os visto em Badajoz, quando estivera de visita em Elvas à tia Francisca de Noronha, e ia desmaiando. O sangue, as tripas dos cavalos... "Puh! E muito cruel!"

Basílio disse, com um sorriso:

- Que faria se visse os combates de galos, minha senhora!

D. Felicidade tinha ouvido contar - mas achava todos esses divertimentos bárbaros, contra a Religião.

E recordando um gozo que lhe punha um riso na face gorda:

- Para mim não há nada como uma boa noite de teatro! Nada!

- Mas aqui representam tão mal! - replicou Basílio com uma voz desolada. - Tão mal, minha ricasenhora!

D. Felicidade não respondeu; meio erguida na cadeira, o olhar avivado de um brilho úmido, saudava desesperadamente com a mão:

- Não me viu - disse desconsolada.

- Era o Conselheiro? - perguntou Luísa.

- Não. Era a Condessa de Alviela. Não me viu! Vai muito à Encarnação, sou muito dela. É umanjo! Não me viu. Ia com o sogro.

Basílio não tirava os olhos de Luísa. Sob o véu branco, à luz falsa do gás, no ar enevoado da poeira, o seu rosto tinha uma forma alva e suave, onde os olhos que a noite escurecia punham uma expressão apaixonada; os cabelinhos louros, frisados tornando a testa mais pequena, davam-lhe uma graça ameninada e amorosa; e as luvas gris perle faziam destacar sobre o vestido negro o desenho elegante das mãos, que ela pousara no regaço, sustentando o leque, com uma fofa renda branca em torno dos seus pulsos finos.

- E tu, que fizeste hoje? - perguntou-lhe Basílio.

Tinha-se aborrecido muito. Estivera todo o santo dia a ler.

Também ele passara a manhã deitado no sofá a ler a Mulher de Fogo de Belot. Tinha lido, ela?

- Não, que é?

- É um romance, uma novidade.

E acrescentou sorrindo:

- Talvez um pouco picante; não to aconselho!

D. Felicidade andava a ler o Rocambole. Tanto lho tinham apregoado! Mas era uma tal trapalhada! Embrulhava-se, esquecia-se... E ia deixar, porque tinha percebido que a leitura lhe aumentava a indigestão.

- Sofre? - perguntou Basílio, com um interesse bem-educado.

D. Felicidade contou logo a sua dispepsia. Basílio aconselhou-lhe o uso do gelo. - De resto felicitava-a, porque as doenças de estômago, ultimamente, tinham muito chique. Interessou-se pela dela, pediu pormenores.

D. Felicidade prodigalizou-os; e falando, via-se-lhe crescer no olhar, na voz a sua simpatia por Basílio. Havia de usar o gelo!

- Com o vinho, já se sabe?

- Com o vinho, minha senhora!

(continua...)

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