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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

De resto, simples e espirituosa.Dizer-lhe que os meus olhos nunca se demoraram amorosa mente na pureza infinita da sua testa, e na curva do seu seio, seria de um estranho orgulho. Tive, sim, nos primeiros tempos em que fui àquela casa, um amor indefinido, uma fantasia delicada, um. Desejo transcendente por aquela doce criatura. Disse-lho até; ela riu, eu ri também; apertámo-nos gravemente a mão; jogámos nessa noite o écarté; e ela terminou por fazer numa folha de papel a minha caricatura. Desde então fomos amigos; nunca mais repa rei que ela fosse linda;achava-a um digno rapaz, e estava conten te. Contava-lhe os meus amores, as minhas dívidas, as minhas tristezas; ela sabia ouvir tudo, tinha sempre a palavra precisa e de finitiva, o encanto consolador. Depois, também, ela contava-me os seus estados de espírito nervosos,ou melancólicos.

— Estou hoje com os meus blue devils — dizia ela.Fazíamos então chá, falávamos ao fogão. Ela não era feliz com o marido. Era um homem frio, trivial e libertino; o seu pensamento era estreito, a sua coragem preguiçosa, a sua dignidade desa botoada. Tinha amantes vulgares e grosseiras, fumava impie dosamentecachimbo, cuspia o seu tanto no chão, tinha pouca ortografia. Mas os seus defeitos não eram excepcionais, nem destacavam. Lorde Grenley dizia dele admirado:- Que homem! Não tem espírito, não tem mão de rédea, não tem ar, não temgramática, não tem toilette, e, todavia, não é de sagradável. Mas a natureza fina, aristocrática, da condessa, tinha ocultas repugnâncias, com apresença desta pessoa trivial e monótona. Ele, no entanto, estimava-a, dava-lhe jóias, trazialhe às vezes um ramo de flores, mas tudo isso fazia indiferentemente, como guiava o seu dog-cart.O conde tinha por mim um entusiasmo singular achava-me o mais simpático, o mais inteligente, o mais bravo; penduravase orgulhosamente do meu braço, citava-me, contava asminhas audácias imitava as minhas gravatas.

Em tempo a condessa começou a descorar e a emagrecer. Os médicos aconselhavam uma viagem a Nice, a Cádis, a Nápoles, a uma cidade do Mediterrâneo. Um amigo da casa,que voltava da Índia, onde tinha sido secretário-geral, falou com grande admira ção de Malta.

O paquete da Índia havia sofrido um transtorno; ele tinha estado retido cinco dias em Malta,e adorava as suas ruas, a beleza da pequena enseada, o aspecto heróico dos palácios, e a animação petulante das maltesas de grandes olhos árabes...

— Queres tu ir a Malta? — disse uma noite o conde a sua mu lher.- Vou a toda aparte; mas, não sei porquê, simpatizo com Mal ta. Vamos a Malta.

Venha também primo.- Está claro que vem! — gritou o conde.

E declarou que não fazia a viagem sem mim, que eu era a sua alegria, o seu parceiro de xadrez e o inventor das suas gravatas, que me roubava num navio, e que me deixava seuherdeiro.

Cedi. A condessa estava encantada com a viagem: queria ter uma tempestade, queria irdepois a Alexandria, à Grécia, e beber água? do Nilo; havíamos de caçar os chacais, ir a Meca disfarçados — mil planos incoerentes que nos faziam rir...

Partimos num vapor francês para Gibraltar, onde devíamos tomar o paquete da Índia.Passámos no Cabo de São Vicente com um luar admirável, que se erguia por trás do cabo, dava uma dureza saliente e negra aos ásperos ângulos daquela ponta de terra e vinhaestender-se sobre a vasta água como uma malha de rede luminosa. O mar ali é sem pre mais agitado. A condessa estava na tolda, sentada numa cadei ra de braços, de vime, a cabeça adormecida, os olhos descansados, as mãos imóveis, uma sensação feliz na atitude e norosto.

— Sabe? — disse ela de repente, baixo, com a voz lenta. -Estou com uma sensação tãofeliz de plenitude, de desejos satisfeitos... E mais baixo: -...e de vago amor... Sabe explicar-me isto?

Estávamos sós, no alto mar, sob um luar calmo, o conde dor mia; a longa ondulação de água arfava como um seio, sob a luz; sen tia-se já o magnético calor da África. Eu tomeilhe as mãos e disse-lhe num segredo:- Sabe que está linda!

— Oh! primo! — interrompeu ela rindo. — Mas nós somos ami gos velhos! Está doido! O que é falar de noite, sós, ao luar, em amor! Ah! meu amigo, creia que o que senti,inexplicável como é, não foi por si, graças a Deus, foi por alguém que eu não conheço, que vou encontrar talvez, que não vi ainda. Sabe? Foi um pressentimento... Aí está! Como o luaré traiçoeiro, meu Deus! E eu que estou velha!

Eu ia responder, rir. Uma luz brilhou a distância, na bruma nocturna: o capitão aproximou-se:Conhecem aquela luz?



(continua...)

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