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#Novelas#Literatura Portuguesa

Alves & Cia

Por Eça de Queirós (1925)

Mas uma senhora passara sobre a face comovida de Machado, e um bafo morno de tristeza pesou na sala. E foi esta tristeza que, subitamente, os pôs à vontade. Era como se o Machado, com aquele luto pesado, aquela saudade da mãe, aquele túmulo ainda recente, não fosse o mesmo que ali bebera copos de vinho do Porto, com ela nos braços, sobre o sofá amarelo; mas um outro Machado, um rapaz grave, com uma dor que era necessário consolar, envelhecido, e para sempre incompatível com coisas de amor. Ela achava-o mudado, e olhando-o não se recordava de como ele era noutros tempos; ele também a achava tão estranha, como se fosse a primeira vez que viesse àquela casa. O marido esquecia, eles esqueciam ambos também. E terminaram pôr se olhar, falar, naturalmente, sem embaraço, ela dizendo “sr. Machado”, ele respondendo “vossa excelência” frios, tendo para sempre acabado de estremecer um defronte do outro, como dois carvões apagados.

E o jantar foi tranqüilo, calmo, íntimo, quase alegre.

Então a vida continuou, desenrolando-se, banal e corredia como ela é. O luto de Machado acabou, ele voltou aos teatros, teve outras vezes raparigas espanholas e namorou senhoras. Depois o Neto morreu, de repente, de apoplexia, dentro dum omnibus: e a Teresinha veio viver com a irmã. Ao fim de dois anos Machado casou, com uma menina Cantanhede, pôr quem ele concebera uma paixão absurda, frenética, que não podia esperar, o fez concluir namoro, enxoval, licenças e casamento, tudo dentro dum mês.

Houve um baile. Ludovina apareceu com uma bela toilette, mas dançou pouco, porque houvera um engano nos sapatos – e os que tinha nos pés torturavam-na a ponto que esteve para desmaiar.

Depois ao fim dum ano a pobre Cantanhede morreu de parto – e outra vez Machado soluçou perdido de choro nos braços de Godofredo; outra vez Godofredo recebeu a chave do caixão, deu apertos de mão profundos e mudos, na noite de pêsames. Mas desta vez Ludovina ajudava-o, Ludovina chorando também, porque ela e a pobre Cantanhede eram íntimas, não se deixavam, passavam o seu dia a beijar-se. E a dor de Ludovina foi tão grande quase como a do Machado.

Depois a vida continuou banal e corredia como ela é. Ao fim de dois anos Machado tinha pôr amante uma atriz do Ginásio. E pôr esse tempo houve em casa do Alves um desgosto – o casamento de Teresa, feito contra vontade da irmã e do cunhado, com um empregado da alfândega, um imbecil, um tacanho, sem vintém, sem cabeça, que seduzira a menina pôr ser louro como uma espiga. E foi necessário casá-la porque se definhava, ameaçava de se deitar da janela abaixo, e havia outras desconfianças. Foi necessário casá-la.

E os meses passaram, depois os anos. A firma Alves e Cia. Crescia, enriquecia. O escritório, agora mais largo, mais rico, com seis caixeiros, era à esquina da rua da Prata. Godofredo estava mais calvo, Ludovina engordara: tinham carruagem; e no verão iam para Sintra. Depois Machado casou outra vez, com uma viúva, casamento inexplicável porque nem era bonita, nem rica; tinha apenas uns olhos extraordinários, muito negros, muito pestanudos, muito quebrados, a expirar de langor.

Foi um casamento à capucha – e os noivos partiram para Paris. Voltaram, vieram viver para o pé dos Alves, que agora tinham mudado para um palacete a Buenos Aires. E uma outra grande amizade nasceu logo entre a Ludovina e a senhora dos olhos langorosos: bem depressa Ludovina se tornou a escrava desta curiosa criatura que escravizava também o marido, tinha uma influência absoluta em Godofredo, dominava tudo em redor de si, criados, relações, fornecedores, sem nenhum esforço, sem qualidade nenhuma superior, só com a sua figurinha roliça e os seus olhos pestanudos que expiravam de langor.

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