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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

No café, em certos momentos, quase sem transição, ele passava das objurgatórias mais terríveis a recitar versos, cheios de detalhes de modas e ardendo de admiração pelas coisas de luxo. Havia nisso muito da sua forte mocidade para que eu me lembrasse de Georges Ohnet. Bem parecido, de rosto bem-feito e um nariz clássico e uns bigodes e uns cabelos pretos, tratados com especial carinho de manhã e à tarde, ele tinha a insignificante boniteza dos homens, tanto do agrado das nossas mulheres. Era um namorador temível. No seu quarto, além da mesa e alguns volumes com que preparava as arengas revolucionárias, tinha uma cama de vento, nua e órfã de lençóis e travesseiros com fronhas, uma grande mala cheia de camisas, colarinhos, punhos, gravatas e perfumes. Ganhava noventa mil-réis no Centro dos Varredores, gastava vinte e cinco no quarto e o que sobrava era mais para as coisas de toillette do que para a sua alimentação. Freqüentava os lugares elegantes, ou tidos como tal, e uma noite levou-me ao Parque Fluminense, onde encontrei o Agostinho Marques, o elegante Agostinho, cheio de anéis e alfinetes, que eu não quis reconhecer. Desde que nos demos a conhecer, isso havia perto de um mês, nunca mais o tinha visto; ele, porém, chamou-me amigavelmente. Era o solicitador do doutor Leitão Fróis, ganhava um conto e tanto por mês e pretendia formar-se em Direito precisando de mim, para lhe explicar uns preparatórios. Disse-me isso no momento em que Leiva se deixara absorver por uma dama elegante da nossa vizinhança. Estávamos sentados a uma mesa do botequim, e servíamo-nos de cerveja, a convite de Marques. Quando Leiva se voltou de sua preocupação extra-revolucionária, Agostinho queixou-se dos calos:

— Não há sapateiro que preste no Rio de Janeiro... Mandei fazer essas botinas no Martinelli, dei quarenta e cinco mil-réis e é esta desgraça! Apertam-me como diabo...

O Abelardo tinha opinião um pouco diferente sobre os sapateiros da cidade. Antigamente, mandava fazer as botinas de encomenda; ultimamente, porém, comprava-as feitas. Eram estrangeiras e melhores...

— Mas o Martinelli, “Seu” Abelardo! objetou semi-indignado o solicitador. O cabedal, os aviamentos, tudo vem da Europa; só são cortadas e montadas aqui...

— Ora, continuava Leiva, eu já tive botinas dele e sei tudo isso; mas não vale a pena, é um engano... Olhe, o senhor dá trinta e cinco mil-réis por uma Walk-Over ou Clark e fica mais bem servido do que com ele. E são bonitas... Veja!

Mostrou o pé e durante minutos os dois estiveram a debater-se, procurando toda sorte de argumentos para defenderem as suas firmes opiniões sobre a distinção, a comodidade do calçado comprado feito e mandado fazer de encomenda.

Agostinho Marques, “solicitador nos auditórios desta Capital”, chegou a empregar argumentos de natureza jurídica; Abelardo Leiva, apóstolo do socialismo revolucionário, inimigo da execrável burguesia, procurou justificativa nos elegantes do mundo chic parisiense. A minha reserva só os fazia prolongar a discussão; estavam diante de um juiz, a quem expunham as suas razões com delicadeza e urbanidade.

— Lá vai o Raul Gusmão, exclamou Marques.

Voltei-me um pouco. Era de fato ele de braço com o Oliveira. Vestia um grande fraque de xadrez; tinha botinas de verniz com os canos de pano e marchava conversando com o companheiro, apertando os olhos e procurando os mais surpreendentes gestos que lhe viessem aumentar a reputação jornalística.

— E um rapaz de talento, disse Marques.

O carrousel moía uma música banal, preguiçosa e irritante. Leiva esteve pensando um instante e disse:

— É, e parece que faz prosperar o seu talento com práticas suspeitas.

— É verdade o que se diz por aí dele? indagou a meia voz o solicitador.

— Não sei, nunca vi, mas, no domingo, nós... — não foi Caminha?

Fiz um sinal afirmativo e o meu amigo continuou:

— ... no domingo vimo-lo entrar numa hospedaria da Rua da Alfândega com um fuzileiro naval.

— Qual, disse Leiva, não creio. Ele faz constar isso e faz suspeitar, para se ter em melhor conta o seu talento. O público quer que todo talento artístico tenha um pouco de vicio; aos seus olhos, isso o aumenta extraordinariamente, dá-lhe mais valor e faz com que o escritor ganhe mais dinheiro.

— Como é então que entrou na hospedaria? indagou Marques.

— Tinha-nos visto e, mediante uma gorjeta, obrigou o soldado a prestar-se ao papel... Aquilo é o gênio do réclame.

Em torno de nós, sob a chuva miúda do vapor condensado do motor de iluminação, grupos de passeantes moviam-se de um lado para outro, isocronamente, lentamente, tristemente, como se obedecessem a uma lei inflexível a cujo império não se pudessem furtar. Só o carnaval tira essa triste gravidade aos nossos passeios. Os rapazes excedem-se, saem fora da bitola, e as moças, e as senhoras abandonam-se aos impulsos do temperamento. Lembro-me que em um dos últimos carnavais a que assisti, às oito e meia da noite, vi duas moças afastarem-se um pouco para o interior do escritório da Gazeta de Notícias, donde assistiam à passagem de cordões, e lá dentro requebrarem lascivamente com as exigências que um “maxixe” tocado por uma banda de música a passar pedia. Fora do carnaval sempre senti essa mesma tristeza nos nossos passeios públicos, tendo presente sempre a tirania doméstica e a preocupação do dia seguinte.

(continua...)

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