Por Raul Pompéia (1882)
— Deixo tudo nas poderosas mãos de V. Exa., — disse o chefe de polícia, ao despedir-se do duque. — Confesso a minha impotência neste emaranhado negócio. Diante de certas dificuldades, não há remédio senão confessar-se a gente obtuso... Juro-lhe que aquela corda do gancho lança-me num oceano de dúvidas e hipóteses que confundem-me toda a perspicácia... Mas o que para mim é um obstáculo, pode não sê-lo para a perspicácia de Vossa Excelência... Realmente entre nós, permitindo a familiaridade, entre nós há a distância que vai de soberbo carvalho para o débil trigo... Desde que Vossa Excelência deseja honrar a polícia, revestindo-se do caráter dela, nada mais tenho a fazer do que curvar-me à imerecida honraria e fico inteiramente sossegado. Há de fazer o carvalho o que não pôde o trigo...
Estes cumprimentos eram a conclusão e a conseqüência de uma conversa que houvera durante o almoço do duque.
Estavam dois carros na larga avenida de frente do palácio. Um deles pertencia ao marquês d’Etu, o outro esperava pelo chefe de polícia.
Antes de se separarem o marquês e o chefe, o príncipe dos cortiços, que não estava mais tranqüilizado, apesar da certeza que o duque lhe dera de que haviam de ser achadas as jóias, disse ao funcionário em despedida:
— Vejam lá!... Vejam lá!... a época não está boa... eu levanto os aluguéis...
A duquesa fora informada de tudo o que tivera lugar no palácio. O roubo das jóias não lhe causou maior abalo do que ao duque. Incomodou-a unicamente o fato de se achar entre as jóias roubadas o anel da nora. Apesar disto ninguém ouviu-lhe uma palavra de censura contra os descuidados servidores de seu marido. A perda das jóias não lhe deu que pensar, e a duquesa, comprometendo-se consigo mesma a fazer presente de algum adereço de valor à nora, voltou-se para as ligeiras atenções domésticas que a ocupavam.
Quando o sol resvalava pelas montanhas do ocidente saiu a fidalga a um dos habituais passeios da tarde.
A essa hora, já não se lembrava dos sucessos da manhã.
Outro também era, então, o alvo dos pensamentos do duque. No seu misterioso gabinete, ruminava uma idéia alegre, juvenil: visitar à noite um menina.
Havia tempos que certa formosa imagem se lhe gravara na retina e no cérebro. Era um capricho excepcional.
Passeando, uma vez, pela quinta, vira a brincarem pela relva do parque duas meninas. Andavam pelos quatorze ou quinze anos. Duas avezinhas arrulhantes, graciosas, correndo pela grama, arrancando flores aos canteiros e pétalas às flores, para cobrirem o lago de mimosas canoinhas, que o menor vento carregava logo para as criptas escuras de rochedos artificiais, onde mal se viam, como roscas de serpentes adormecidas, as raízes das árvores que sombreavam as águas.
Depois de muito brinquedo, uma delas sentou-se à beira do gramado e cruzou os pés; a outra sentou-se ao lado da companheira.
Conversaram; falaram das canoinhas de pétalas; uma das canoas, até, levara a bordo uma linda aranha microscópica de cor vermelha; esta fora a de Claudinha; a da Conceição levara uma formiga muito preta que andava à roda com medo de cair no lago, agitando dois cabelinhos compridos, que tinha na cabeça. Falaram das nuvens, que formavam bichos nos ares; riram de ver uma nuvem que parecia dois gatos brigando...
Depois de algum tempo, uma das meninas deitou a cabeça no colo da outra.
Não tinham visto o duque que se aproximava, passeando e observando-as.
Uma das donzelinhas enfiou uma palha no ouvido da amiga que estava deitada no seu colo. Esta deu uma grande risada e moveu o corpo nervosamente, rolando no chão.
— Faz cócega, Conceição? — perguntou a que estava sentada.
A que estava deitada, a mais bonita das duas, não respondeu, mas rolou de novo para junto da companheira, como pedindo mais cócega...
A companheira repetiu o brinquedo. O fio da palha lá foi ao fundo da concha do ouvido fazer rir a amiguinha. Nova risada de criança ressoou no jardim. Pela segunda vez rolou a alegre menina pela grama.
Nessa ocasião, passou por elas o duque. A que estava sentada, que ria-se da amiga, ficou muito séria. A outra, vendo que o duque olhava para ela, ergueu-se toda enrubescida em sentou-se depressa, puxando o vestido para cobrir a alvura das meias que o brinquedo descobrira...
O duque de Bragantina prosseguiu, sorrindo; e várias vezes voltou a cabeça para observar as rolinhas que continuavam a divertir-se no parque, aproveitando as últimas claridades do belo dia.
Desde essa ocasião, uma idéia fogosa se enroscara à espinha dorsal do senhor de Bragantina. Era uma coisa irresistível como um sopro de Mefistófeles; o duque não sossegava... Conversara com o seu confidente Pavia; não conseguira sossego...
Era isto o que pretendia em profundas cogitações o fidalgo de Bragantina no seu gabinete.
Foi-se a tarde. Veio a noite. A noite adiantou-se. Quando era bem tarde o duque saiu de seu gabinete. Deixou depois o palácio e foi para o parque.
Ninguém estranhou a saída do duque. Quando tinha motivos de preocupação, ele costumava expor o crânio aos resfriamentos da noite.
Julgava-se que ele estava preocupado com o negócio dos povos... Pouco de estranhar, portanto, a saída fora de horas...
Estava uma noite olímpica.
As estrelas mantinham-se no espaço como um turbilhão pasmoso de luminosa poeira, levantada por furacões desconhecidos...
(continua...)
POMPÉIA, Raul. As joias da coroa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17439 . Acesso em: 6 abr. 2026.