Por Raul Pompéia (1881)
Ao por-do-sol, os penhascos esticavam para a esquerda umas projeções longuíssimas de sombras; que lhes ficava o astro para a direita, descendo os contornos verticais do Corcovado. Para baixo desenrolava-se a rampa do precipício. Um precipício esplêndido. Mil reentrâncias e mil saliências ásperas, agudas, abruptas, denteadas, que faziam arrepios à imaginação afigurarse um desgraçado em degringolada por aquelas unhas. Além, cobrindo o horizonte, o cone do Pão d'Açúcar e as montanhas verdes de Botafogo e Copacabana, prolongadas até às eminências da Gávea e dos Dous irmãos. Mais próximo, a enseada, como uma vasta placa de anil, margeada pela casaria do arrabalde fidalgo, batido de flanco pelas espadas vermelhas e rútilas do sol poente.
Era a hora em que terminava o serviço dos cavouqueiros. Ficava a pedreira sem viva alma.
Por entre as pedras insinuava-se um cão rateiro e esfomeado. E ouvia-se, como o toque significativo de uma sineta, o ruído metálico e tilintante da última alavanca, atirada do alto pelo derradeiro operário a retirar-se.
Ao romper do dia a cena era outra.
Geralmente, quando Alexandre chegava, ainda o cobria o céu com a sua coma azul empoada de estrelas. Dançavam no oriente as primeiras brancuras do dia, passando pela cortina esburacada de qualquer nevoeiro negro achatado sobre o firmamento. Aos pés do mancebo dormia o panorama de Botafogo, velado por um lençol tenuíssimo de vapores. Através dos vapores se distinguia a massa pardacenta da casaria entremeada de um negro-esverdeado pela perspectiva dos jardins e das chácaras, com um ou outro ponto luminoso brilhando a esmo.
Quando, por tudo aquilo, se espraiava o luar da alvorada, percebiam-se as notas assobiadas de alguma cantiguinha popular; e lá vinha subindo um homem pelo declive que levava até certa altura da pedreira.
Era o primeiro operário que chegava. Depois deste, chegavam outros, em pequenos grupos, calados ou mastigando meias palavras, sem olhar para os lados; jaquetão atirado ao ombro e em cima do jaquetão umas ferramentas brutas, pesadas, cheias de ferrugem. Era o exército do trabalho.
Em cousa de poucos minutos, dispersavam-se para todos os pontos. Este havia que passava mão a um cabo, cuja extremidade se perdia pela pedreira acima, e desaparecia na altura, arrastando uma barra de ferro; aquele sentava-se a um lajedo, sob uma coberta de estopa, armada cm taquaras, e punha-se a picar a pedra com o dente de um ponteiro ou o corte de um escopro batido a macete; um outro elevava acima da cabeça e fazia desabar com todo o peso o picão agudo, fragmentando pedras para o fabrico dos macacos, muitos armavam-se de longas agulhas de ferro e iam brocar a rocha com as minas destinadas ao alojamento das arrobas de pólvora que tinham de fazer voar o granito.
Nisso apontava no horizonte um estilhaço de sol.
Já então ressoava a encosta, aos golpes de cem martelos e os - passarinhos despertados fugiam espavoridos por entre a mataria das montanhas.
Escapando-se aos ardores do dia, Alexandre ia para casa. No caminho, aguardava-o certa insignificância graciosa, que era também para o moço um atrativo daqueles passeios; sem chegar, diga-se a verdade, a ser o principal, como bem podiam insinuar as lingüinhas da malícia.
Em saindo das pedreiras, tinha-se de passar por uma estrada, rasgada numa rampa de esmeraldino capim de Angola, juncada de cordões de frade com os seus nós de espinhos e floritas roxas, balouçando-se ao lado dos matacões que os tiros da pedreira semeavam na planície.
À margem desse caminho, listrado de sulcos pelas carroças a serviço dos cavouqueiros, havia (se existe ainda, - não sei) uma habitação edificada no estilo pitoresco e barato da miséria. Teto chapeado de zinco, com declives íngremes arrimados em tábuas podres e paredes de barro crivado de grandes furos; três janelas abertas para a estrada e uma porta para um cercado de bambus secos, em T, com meia dúzia de estacas de pinho.
No cercado havia couves e tinas d'água. Por cima das couves voavam reflexos de borboleta; no teto de zinco passarinhos cantavam, nos rombos do barro, aninhavam-se pombos. Não era exatamente a essas cousas que Alexandre dava atenção.
Era a um par de mãos níveas, pequenas, às voltas com uma costura, mimosas extremidades de braços modelados por... qualquer chapa de poeta lírico. Estes braços, nus como a inocência, até aos cotovelos, enfiavam-se timidamente pelas mangas curtas de um corpinho de musselina que em outro ponto comprimia com força duas resistências esféricas, de uma geometria provocante a mais não poder. Para cúmulo, rasgava-se, das resistências acima, um modesto decote, donde, fresca e jovial emergia, desabrochava uma cabecinha peregrina. Um camafeu delicado, róseo, transparente, rodeado de pequenos cachos negros em delicioso descuido, com muito sorriso na dobra dos lábios, muito fogo nos largos olhos e nas palpitantes narinas...
Era arrebatadora na sua janela, essa costureira! A estrela d'alva à sombra de um reles teto de zinco.
Alexandre variava. Chamava a sua estrela d'alva, só quando a via de manhã; pela tarde chamava-a de Vésper.
Uma vez, voltava o moço do seu habitual passeio quando teve de assistir a uma cena que espinhou-lhe a curiosidade.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.