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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

— Adelaide... — murmurou Furtado numa voz suplicante. — Zangou-se?

A jovem senhora não respondeu. Ia calada, muda, abafando o seu ódio, enxugando as lágrimas. Compreendia agora os zelos do secretário para com ela, a sua fingida dedicação ao Evaristo; compreendia tudo...

Mas, ao mesmo tempo, compreendia a necessidade de ocultar aquele episódio revoltante "para não dar escândalo", para evitar a cólera de Evaristo e uma grande desordem, talvez, entre o secretário e a mulher. Oh, infelizmente era preciso mostrar cara alegre, ainda que o coração estivesse sangrando... Nunca lhe passara pela idéia que o Sr. Furtado, um homem que se dizia tão fino, tão bem-educado, abusasse da sua posição e de um momento como aquele para... para beijá-la, como se estivesse tratando com uma criadinha de família, sem pejo nem nada! Era muita coragem e muita desfaçatez!

— D. Adelaide... — repetiu Furtado aproximando-se dela. - Queira desculparme se a ofendi...

A esposa de Evaristo continuou no mesmo silêncio obstinado, como uma pessoa que de repente perdesse a fala, indo maquinalmente pela avenida, sem ver as coisas, olhando para o chão fofo que seus pés iam pisando insensivelmente. De alegre que estava quando saiu do caramanchão, tornou-se melancólica e indiferente às belezas do jardim e às fulgurações da luz. Doía-lhe a cabeça com uma intensidade atroz.

Furtado emudeceu também, penalizado, um pouco arrependido já, receoso de que Adelaide não fosse cometer alguma imprudência desabafando-se. Mordia o castão da bengala com um ar sério de quem cogita numa grave questão. Aventurou nova pergunta:

— Quer que me ajoelhe e peça perdão? Creia que foi uma loucura de que me confesso arrependido...

Adelaide suspirou levemente, como alívio, ainda sem responder. Neste instante a música do outro lado do parque tocava uma habanera saudosa cujo eco ia morrer longe nas montanhas, penetrado de evocações. O coração terno da esposa de Evaristo encheu-se de bondade e acordou subitamente da melancolia em que o deixara Furtado. Ela, porém, não tinha coragem de abrir a boca e dizer uma simples palavra, como se estivesse na presença de um estranho, de um desconhecido. Queria esquecer a ofensa que recebera do amigo do Evaristo, acabar com aquilo e continuar a viver como dantes; o homem às vezes não é senhor de si... Lembrava-se dos favores que o bacharel devia ao secretário, da extremosa amizade de D. Branca e um sentimento de gratidão penetrava-a desanuviando-lhe a alma, restituindo-lhe o bom humor e a visão otimista da paisagem e das coisas... Não valia a pena zangarse, amofinar-se por uma tolice, de uma loucura... Ninguém vira o secretário beijar-lhe a mão, ninguém...; a aléia estava deserta como o interior de uma gruta longínqua. Para que então, provocar escândalo? Também não se deve ser muito escrupulosa... deve-se desculpar, fechar os olhos a estas coisas.

Furtado ouviu um rumor na areia. O Raul aproximava-se correndo; atrás dele vinha o bacharel em passo ordinário.

—Eh, lá! — gritou Evaristo. — Esperem ao menos pela gente!

O secretário voltou-se com Adelaide e riram ambos da filosofia ingênua daquele marido excepcional.

— Já te fazíamos desertor!

— A mim?... Ufa, que já me não tenho nas pernas!... Desertor?

— Onde andaste há quase uma hora?

— Vendo as cascatas e os reservatórios... Pergunta ao Raul!

— Oh, que bonito, heim, senhor Evaristo? Que bonito, papai! A cachoeira vem de lá de cima da montanha rolando, rolando como uma chuva...

— Esplêndido! — tornou o bacharel. — Já não nos lembrávamos de vocês...

Que é do visconde?

— Vai lá adiante com a Branca.

— Papai, oh papai! — interrompeu o menino.

— Que é, meu filho?

— Um homem estava tirando o retrato da cachoeira, com uma máquina... — Já sei.

E para Evaristo:

— D. Adelaide é que está com uma dorzinha de cabeça.

— Melhorei um bocado, já não dói tanto — disse Adelaide.

— E agora para onde nos atiramos? — perguntou o bacharel. — Ao encontro do visconde e da Branca.

Foram andando os três, mais o Raul. Saíram na grande aléia das palmeiras, onde se achava o Santa Quitéria de braço com D. Branca cm torno do repuxo, vendo cair a água em fios dentro do reservatório.

— Olá, como estão embebidos! - exclamou o Furtado.

O bacharel, por trás do secretário, piscou maliciosamente o olho à esposa.

— É verdade, como estão embebidos! - repetiu Evaristo.

E aproximaram-se justamente na ocasião em que o Santa Quitéria falava em voz muito baixa no seu escritório na Rua da Alfândega, onde havia uma alcova, toilette, jarro com flores, et coetera...

O instinto de D. Branca advertiu-a da aproximação de Furtado; ela fez sinal com os olhos ao banqueiro e entraram todos a confabular alegremente.

(continua...)

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