Por Adolfo Caminha (1895)
O português, com a roupa em frangalhos e o cabelo em desordem, abalou na carreira; mas o negro, vendo se aproximarem polícias, brandindo a arma furioso, ameaçou:
— Quem for homem, venha!
A figura do “galego” tinha desaparecido: sua cólera voltava-se agora contra o povo e contra a polícia. Ninguém ousava se aproximar daquele homem-fera, cujo olhar fazia medo...
Quatro horas no relógio da estação.
Daí a pouco saltou no cais um oficial da marinha. Bom-Crioulo esperou-o a pé firme: — Não venha, que leva!
Era um primeiro tenente; acompanhavam-no marinheiros.
— Segurem aquele homem, ordenou, parando à distância.
— Não venha! Não venha! exclamou o negro, gingando com a navalha no ar.
Os homens dividiram-se, três para cada lado, e marcharam impavidamente, de prancha desembainhada.
Foi um momento de ansiedade e assombro.
A figura colossal do negro, multiplicando-se em movimentos de requintada clownerie, torcia-se, evitando as baionetas, como se o impelisse oculta mola de arame. — Não venha! Não venha!...
Mas, quando, num formidável arranco, salta à direita, um pulso mais forte “gruda-o” pela esquerda e Bom-Crioulo, o invencível Bom-Crioulo, sente-se agarrado, preso como um animal feroz!
O povo todo afluiu vitorioso ao lugar do conflito, sem o receio de agressões, comentando o fato, e o marinheiro foi acompanhado à beira d’água por uma onda de curiosos.
Que luta para o embarcar! O negro escabujava, mordia, no auge de um desespero hidrofóbico, insultando, rogando pragas.
Afinal, lá o conduziram à viva força, e a embarcação deslizou, toda branca, na baía calma...
CAPÍTULO VIII
O comandante do couraçado, bela estampa de militar fidalgo, irrepreensível e caprichoso, era o mesmo, aquele mesmo de quem, na frase tosca de Bom-Crioulo,
“falavam-se cousas...”
Um lenda obscura e vaga levantara-se em torno do seu nome, transformandoo numa espécie de Gilles de Rais menos pavoroso que o da crônica, cheio de indiferença pelo sexo feminino, e cujo ideal genésico ele ia rebuscar na própria adolescência masculina, entre os de sua classe.
Calúnia, talvez, insinuações de mau gosto.
Os marinheiros narravam entre si, por noites de luar e calmaria, quando não tinham que fazer, lendas e histórias muitas vezes forjadas ali mesmo no fio da conversa...
O comandante, diziam, não gostava de saias, era homem de gênio esquisito, sem entusiasmo pela mulher, preferindo viver a seu modo, lá com a sua gente, com os seus marinheiros...
E havia sempre uma dissimulação respeitosa, um pigarrear malicioso, quando se falava no comandante.
Fosse como fosse, ninguém o desrespeitava, todos o queriam assim mesmo cheio de mistério, com o seu belo porte de fidalgo, manso às vezes, disciplinador intransigente, modelo dos oficiais.
Bom-Crioulo, porém, nunca o estimara verdadeiramente: olhava-o com certa desconfiança, não podia se acostumar àquela voz untuosa, àquele derretido aspecto protetoral que ele sabia fingir nos momentos de bom humor. Evitava-o como se evita um inimigo irreconciliável. Por quê? Ele próprio, Bom-Crioulo, ignorava. Repugnância instintiva, natural antipatia — forças opostas que se repelem...
— Esse homem nasceu para me fazer mal, pensava o negro supersticiosamente.
Metido em ferros no mesmo dia do “rolo”, a imagem do comandante brilhou na caligem de sua embriaguez e o perseguiu toda a noite sem trégua, sem o deixar um instante, ora terrível, ameaçadora, implacável, outras vezes, doce, meiga e complacente...
Dormiu essa noite numa sepultura de ferro, espécie de jaula estreita e sem luz onde só cabia um homem. Trancado ali dentro, imóvel, porque os pés e as mãos estavam presos, adormeceu quando os outros acordavam, ao primeiro toque d’alvorada, quase dia. Durante o sono viu a figura do português inchando para ele com uma faca, desafiando-o: “Vem, negro, vem, que eu te mostro!” Era um homem reforçado, em cuja roupa havia manchas de sangue — barba longa, olhar atrevido.
Iam se pegar, mas Aleixo não consentiu dizendo que a polícia vinha os prender, que não valia a pena brigar por uma cousa à toa... Então Bom-Crioulo, como gostava do pequeno, fugiu, deixando o português no meio de uma praça muito grande, cheia de arvoredos.
A realidade, porém, veio despertá-lo. Eram onze horas. Tinha-se aberto a porta da solitária e, mesmo em jejum, ele ia ser castigado. Faltava o comandante para se dar princípio à solenidade. Uma onda de luz banhou a prisão iluminando o rosto do marinheiro.
— Levante-se! ordenou o sargento da guarda.
Bom-Crioulo não podia se mover: foi preciso que o segurassem. Apertava-lhe a boca uma mordaça de ferro. Havia no seu olhar uma indignação muda e triste.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.