Por Aluísio Azevedo (1895)
Meu Deus, como eu, que aliás ainda não tinha então descoberto a terrível lei da incompatibilidade do amor físico com o amor moral, me sentia já ansiosa e apreensiva, pensando no casamento de Palmira! Aquele rapaz, mesmo rigorosamente dirigido por mim, faria com efeito a felicidade de minha filha?... Amála-ia deveras? Seria ele com efeito um bom moço, ou teria conseguido enganar-nos, com os seus gestos de jovem atleta civilizado e com os seus claros sorrisos de mocidade olímpica? Oh! também só nisto punha eu todo o meu empenho — em que ele não nos iludisse; pois, quanto ao fato da sua pobreza e da sua modesta procedência, longe de fazer-lhe carga, dava-lhe até boas vantagens ao meu ver. Minha filha e eu éramos bastante ricas, para não precisarmos perturbar o plano da felicidade dela, e minha, com mais esses frios interesses de dinheiro.
Que era ele um belo exemplar de homem, isso é o que ninguém poria em dúvida, e isso valia bem pelo dote pecuniário de Palmira; pelo outro, ainda mais bonito que ela trazia em pureza, inocência e formosura, valeria a boa vontade com que o noivo aceitasse as estreitas e rigorosas condições, que eu lhe ia impor ao casamento. E nesta última parte estava o ponto mais delicado da questão; para realizá-la, sem futuros prejuízos dos meus planos de absoluto domínio sobre eles, dispunha-me a empregar todo o esforço e toda a astúcia de que eu fosse capaz; pois, em consciência, a verdade era que outro homem já não queria eu, nem já me convinha, para cavalheiro de minha filha ou para gerador de meus netos porque outro com certeza não descobriria eu em condições naturais tão boas e perfeitas como Leandro. Até a sua própria mediocridade de inteligência se me afigurava o belo complemento da sua perfeição de animal humano: — o talento elevado a certo grau é sempre, no amor, uma anormalidade perigosa. Achava-o cada vez melhor e mais próprio para bom marido; achava-o, além disso, muito simpático e atraente; achava graça naquele seu tipo moreno pálido, de olhos muito azuis e cabelos muito pretos; até mesmo o crespo sotaque inglês, que a princípio lhe estranhei e me fazia torcer o nariz, agora achava eu que lhe ia bem com o sonoro metal da sua voz masculina e forte.
Entretanto, não me convinha de modo algum que ele alcançasse com facilidade a certeza da posse de minha filha. Afastava-os intencionalmente; começava a representar, entre eles dois, o terrível papel de linha divisória, de linha sanitária, estabelecida em guerra contra os traiçoeiros inimigos das suas ilusões de amor. Ah! quanto me custava, e quanto me aprazia ao mesmo tempo, esse altruísta e odioso mister de delicada perseguição! Quanto eu me sentia ir ficando sogra! Mas estava disposta a não me arredar um passo do meu programa, ainda mesmo tendo mais tarde de entestar, como já esperava, com a cólera de meu genro e com as lágrimas de minha filha.
Seria muito preferível, em todo o caso, que ela chorasse dessas lágrimas de ilusão a ter mais tarde de amargar as lágrimas de desengano que chorei.
O namoro de Leandro ia se tornando tanto mais insistente, quanto mais era por mim contrariado. Só uma vez por semana lhe consentia viesse ver a desejada, nas noites de recepção comum, como todos os outros nossos freqüentadores; e isso bem percebia eu que o torturava cruelmente.
Vingava-se nas cartas; essas, consentia eu, fingindo ignorá-las. As cartas não podiam prejudicar, antes serviam, opostamente, para manter firme a intensidade do desejo.
E as coisas assim corriam bem. Ele perseguia e cercava Palmira por toda a parte e em todos os lugares, no passeio, nos teatros, nas compras à rua do Ouvidor; mas, quando me via, antes de ver minha filha, perturbava-se logo, sem ânimo de vir ter conosco e contentando-se apenas em cumprimentar-nos com o chapéu. Coitado!
tinha-me medo!
Ah! se ele soubesse todavia quanto o meu coração é bom!
Pareceu-me chegada a ocasião de preparar o espírito de minha filha para a campanha já travada. Conversei largamente com ela. Falei-lhe muito do seu casamento, não em tom de mãe ralhadora, mas no de amiga confidente; falei-lhe como se fosse apenas uma sua irmã mais velha. Palmira, felizmente, compreendeu e compenetrou-se do louvável alcance da minha norma de proceder. Disse-lhe claramente que a sua felicidade dependia daqueles alicerces; e que ela me deixasse, a mim, parecer às vezes impertinente e dominada por espírito de contrariedade; que deixasse, confiante no futuro; não era natural que estivesse eu em erro, porque toda a complicada arquitetura do edifício daquela felicidade tinha a sua base na experiência dos fatos essenciais da vida doméstica e no profundo estudo da desgraça do amor conjugal. Ela, ameigando-me contente jurou que de corpo e alma se entregaria às minhas mãos, e que nem só me obedeceria sempre, mesmo depois de casada, como ainda havia de ajudar-me na execução dos meus desígnios.
Abraçamo-nos, satisfeitas e concertadas com aquela conferência.
— Olha! disse-lhe, em remate. Asseguro-te é que, até hoje, mãe nenhuma pensou na felicidade de sua filha com tamanha dedicação, nem fez por ela os sacrifícios que por ti afronto, minha Palmira. O menos que me pode acontecer é ser amaldiçoada por teu futuro marido, por quem aliás devia eu ter o direito de ser amada como verdadeira protetora. Ah! não me iludo neste ponto! Não procuro enganar-me — bem sei o que me espera!...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.