Por Visconde de Taunay (1871)
Seja como for, vencêramos e ainda com este resultado excelente: crescera o coronel Camisão no conceito dos soldados pelo sangue-frio de que dera mostras.
Mas, infelizmente, não bastava isto: perdêramos o "ado. Que seria de nós sem víveres? Mandou o comandante chamar vários oficiais, uns após outros e, depois, longamente conferenciou com o velho Lopes, que, intrépido e até terrível, pode-se dizê-lo, em combate apenas travado, mostrava-se nas deliberações, mais do que ninguém, o homem dos bons conselhos e inspirados expedientes. E só deste lado havia agora salvação a esperar.
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(1) Houve mais de 230 mortos. Travara-se a luta entre colunas cujo total, quando muito atingi 3000 homens. (N. do A.)
A esta refrega deram os paraguaios o nome do combate de Nhandipá. (N. do T.)
CAPÍTULO XIII
Deliberação sobre o caminho a seguirmos Primeiro incêndio no campo.
Dirigia-se pare leste a estrada que diante de nós se abria. Passadas seis léguas, neste rumo, voltava-se pare o norte, até a colônia de Miranda, de que nos separavam ainda quatorze léguas, às quais cumpria ainda ajuntar mais dez pare atingirmos Nioac. Só ali, a vinte e quatro léguas da fronteira, poderíamos nos reabastecer de "ado. De quinze dias, no mínimo, precisaríamos pare transpor esta distancia, na marcha em que caminháramos, pare o Apa.
Conhecia o inimigo teme esta estrada e já se pusera à nossa frente. Seria sua entrada em Nioac muito antes da nossa, ocasionando-nos, quiçá, a perdição, ao cabo tantos esforços.
Logicamente era, pois, tal caminho impraticável. Iembraram-se alguns, então, do que propusera Lopes, quando se tratava de invadir o território paraguaio e escolher a melhor via pare o realizar. Na opinião do guia, preferível a qualquer outra, era a passagem pela sua fazenda do Jardim, situada a três dias de marcha a sudoeste de Nioac. Afirmava haver facilmente vencido esta distancia em dois dias e meio. Dali à fronteira do Apa, quando muito, teríamos seis dias pelo campo Quanto a este último trajeto que, segundo as suas asseverações, por ocasião de nosso primeiro conselho de guerra sobre tal assunto, nos devia colocar em frente ao forte de Bela Vista, insistira na necessidade de um reconhecimento que rapidamente deveríamos, dois ou três, em sua companhia realizar, montados em bons cavalos. Fora, então, impossível, porém, conseguir-se um estudo sério do alvitre. Acoimaram-no de abusão existente apenas na imaginação do guia. Se houvesse passagem, diziam, os paraguaios, grandes mateiros sempre a devagar, conhecê-la-iam certamente. Ao que sempre respondera Lopes: — Só se meu filho lhas ensinasse, pois só Deus, eu e ele podemos ir de minha fazenda ao Apa, pelo campo. Riram-se os que lhe faziam as objeções e não se falara mais no caso. Nas circunstancias em que nos achávamos, informado o Coronel da passagem dos paraguaios para a margem setentrional do rio, e até da existência de um acampamento, ali estabelecido, apressou-se em falar ao velho guia sobre o caminho pela sua estancia. Respondeu este bastante fria. mente que, com efeito, em tempo, indicara tal estrada Aconselhara então, porém, que de antemão se exploras" sem aqueles lugares, no que não fora atendido. Agora era tarde demais.
Entretanto, havendo dado largas ao ressentimento, e passados alguns minutos de silêncio, acrescentou que tudo bem meditado não via impraticabilidade para uma tentativa deste gênero. Certamente muito nos maltratara a macega alta; supunha, contudo, que em menos de uma semana poderíamos atingir a sua estancia onde repousaríamos; e, com suas laranjas, nos haveríamos de restabelecer. A seu ver era esta fruta de inestimável valor para a saúde; cada vez que ao Jardim fora, para nos abastecer de gado, grandes sacos dela nos trouxera. Achavam-se as suas árvores carregadas e ainda o deviam estar.
Pessoalmente pertencêramos à maioria que outrora opinara pelo itinerário por Lopes proposto, pelo fato de nos facultar. meios, graças aos quais mais facilmente atingiríamos o território paraguaio. O que, então, mais proveitoso fora, para a ofensiva, continuava a sê-lo para a retirada. Não havia hesitar.
Pronunciou-se a maioria dos oficiais pela escolha desta estrada sob a direção do guia. De novo afirmou este, dando a palavra, que em cinco ou seis dias estaríamos no Jardim. Mais dois ou três nos bastariam depois para alcançar Nioac, onde nos poderíamos ainda antecipar ao inimigo. Foi o plano aceito pelo comandante. Último dia de triunfo para José Francisco Lopes!
Inteiramente a seu favor tinha a opinião dos soldados, a dos oficiais e a do chefe. Investia-o a confiança geral, até como que solenemente, de quase ilimitada autoridade; a pública necessidade e a lei suprema da salvação tornavam-no como um ditador.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.