Por Franklin Távora (1878)
A dar-se ao Recife o termo que o governador queria, perdia a nobreza do país; porquanto, igualando-se os nobres aos mascates, e sendo estes muito mais numerosos, vinham aqueles a ser excluídos nos pelouros dos lugares da republica; perdiam as rendas publicas na arrematação dos contractos, porquanto, sendo os arrematantes os mascates, e compondo estes o senado, perante quem se arrematavam, vinham eles a ser juizes e partes, e a seu salvo podiam arredar da arrematação os nobres que quisessem lançar; perdia finalmente toda a população produtora, porquanto, competindo aos almotacés taxarem os preços dos viveres, e sendo o almotacé do Recife mascate, seguia-se, como se seguiu, que os gêneros conduzidos a mercado pelos matutos se taxassem em preço mui baixo, e os que vendiam os mascates taberneiros se estimassem em subido preço.
Por onde se vê que nem era de todo sem fundamento o ódio que nobres e mercadores se votavam mutuamente, nem a guerra a que esse ódio deu lugar podia faltar em rebentar com a veemência e crueza que a caracterizaram. Enfim, a luta era menos de fidalgos e peões do que da agricultura ameaçada de ruína, e do comercio que aparecia como tirano. Não há luta mais fatal e terrível em seus resultados do que a em que se empenham dois princípios que devem constituir, nas épocas normais, um só elemento de prosperidade publica, servindo cada qual de complemento natural do outro. Estamos por isso muito distantes dos que nesse memorável movimento querem ver, antes um testemunho de ridículos preconceitos, costumes e educação dominantes no século próximo passado, do que a séria colisão de interesses que ainda em nossos dias podem trazer, achando-se em desacordo como então se acharam, resultados ainda mais tristes e lastimosos.
Enquanto as pretensões dos mercadores não passaram de tentativas malogradas, mantiveram-se as coisas em saudável equilíbrio. As pretensões, porém, de que é alma o interesse pecuniário ou a ambição de riquezas dificilmente se resignam a completa renuncia. Quando menos se espera, elas fazem explosão, e só então se reconhece que o silencio em que por algum tempo estiveram a modo de sepultados, não foi o silencio da morte, mas da concentração espiritual e o do estudo dos meios de dar vitoria á dita ambição.
O governador a que alude o cronista na passagem sobremencionada, era Sebastião de Castro Caldas. Não foi o primeiro que chegando a Pernambuco e deixando-se quase dirigir por seus conterrâneos mais exaltados na sua pretensão capital, representara a el-rei a favor da criação da vila. Antes dele já o tinham feito alguns outros, inclinados sempre a proteger os interesses dos seus patrícios. Nenhum, porém, o fizera com tão fortes razões como o novo governador, homem de grandes espíritos, de animo ousado e tão dado á pratica de ator de despotismo que o próprio rei lhe estranhará asperrissimamente, em data de 7 de outubro de 1709 o <Ter invadido a jurisdição dos ministros, soltado presos, mandado tirar devassas, suspendido no procedimento dele despoticamente, abusado das regias leis e provisões e cometido outros absurdos e excessos de grande prejuízo á boa igualdade da razão e em grande dano da justiça dos povos de Pernambuco.>
É fama que pouco tempo depois de haver entrado no exercício do seu cargo, um negociante lhe foi dizer (não se sabe se havia verdade ou enredo na historia do oficioso senhor) que alguns pernambucanos tinham jurado repetir com ele, se metesse a tomar o partido dos do Recife na criação da vila, o mesmo que seus antepassados tinham praticado com o governador Jeronimo de Mendonça Furtado no século anterior.
A isso respondeu Caldas: - Se são nobres e têm, segundo dizem, por se o popular da capitania, repitam o procedimento dos seus maiores. O que eu lhes asseguro é que não hei de imitar Mendonça Furtado, e que, desembainhada a minha espada, não a meterei novamente na bainha antes de embebida no coração do primeiro conjurado.
Não aconteceu, assim porém. Levado do capricho pessoal, ou do interesse, ou do ódio, ou da vaidade de dar mostras de ser capaz de arrostar com a oposição da nobreza de Pernambuco em peso, fez reiteradas instancias ao ministério e ao rei para que se realizasse a elevação do Recife a vila. Esta elevação foi afinal ordenada pela carta regia de 19 de novembro de 1709; mas, como se verificaram logo no ato da divisão de novo termo grandes vexames e violências, irritaram-se mais os ânimos de parte a parte. Caldas respondeu á reação dos pernambucanos notáveis mandando-os prender. Foram do numero dos presos Leonardo Bezerra Cavalcanti, seu irmão Manoel Cavalcanti Bezerra, Luiz Barbalho, Afonso de Albuquerque e outros. O triste exemplo, produzindo impressão de terror em vários agricultores, obrigou-os a deixar suas propriedades e ocultar-se foragidos nos bosques. Enquanto porém alguns se retiravam aterrados, a reação concertava na sombra a sua desforra. Assim que pelas 4 horas da tarde de 17 de outubro de 1710, por ocasião de passar o governador pela frente de uma casa desocupada da Rua-das-aguas-verdes, um tiro lhe foi dai desfechado, não tendo sido parte para que o não fizessem os dois mandatários obscuros o ir Caldas acompanhado e guardado por uma escolta de 25 homens.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.