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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

Saindo enfim daquela espécie de vertigem, levantou-se, e volvendo um último olhar para a estrada da Uberaba, divisou ao longe um cavaleiro, que vinha só dirigindo para a fazenda. Pelo que se podia julgar ao longe, era pessoa de distinção; cavalgava possante e garboso animal, e acompanhava-o um camarada tocando um cargueiro com canastras. Paulina, que já se havia levantado e ia-se recolher, deteve-se alguns minutos para reconhecer quem era o viandante. Como vinha marchando com muita rapidez, este não levou muito tempo a chegar à porteira do curral. Quando curvou-se sobre o animal para correr a tramela e abrir a porteira, gritando – dá licença,– pela voz e pela figura logo o reconheceu; já antes seu coração lho estava adivinhando. Era ele! era Eduardo!

Só Deus sabe quanto esforço foi preciso à pobre moça para manter-se em pé, e saudar convenientemente o cavaleiro, que entrava.

Comprimentou-o, todavia, dominando do melhor modo que pôde a sua perturbação, convidou-o a apear-se e a subir para a varanda, e a muito custo com passos trêmulos e vacilantes o foi acompanhando.

As faces de Paulina, onde há longo tempo não assomava nem o mais leve rubor, se incenderam de repente, e converteram-se em duas rosas purpúreas; o lado principalmente, em que Roberto acabava de imprimir seus lábios, ardia-lhe como uma brasa viva. Considerava-se quase como uma amante infiel, e parecia-lhe que Eduardo estava vendo em sua face o vestígio do beijo que acabava de receber, e entretanto notava que Eduardo a olhava com um olhar bem diferente do de outrora, e lhe lançava vistas repassadas de emoção e de ternura. Pobre infeliz! acabava de se precipitar no abismo no momento em que a mão do destino baixava talvez sobre ela para erguê-la ao céu do amor e da felicidade.

Como porém aparecera Eduardo ali naquela ocasião?... o que vinha ele fazer?

É o que o leitor vai imediatamente saber.

Eduardo poucos dias depois da última conversa que tivera com sua mãe, fez seus aprestos de viagem, e partiu para Sorocaba. Esperava conseguir com as fadigas, cuidados e distrações dessa longa jornada senão o completo esquecimento, ao menos uma grande diversão a seus pesares.

Sorocaba em tempos de feira, assim como é um foco de atividade e comércio, é também mansão de prazeres e divertimentos de toda a natureza.

A afluência de uma multidão de pessoas de todas as classes e procedências, a animação e movimento, que ali reina, as reuniões, jogos, bailes, espetáculos e folguedos de todo o gênero são suficientes para atordoar a cabeça de um moço, e fazê-lo esquecer, ao menos temporariamente, a fada de seus sonhos, por mais enamorado que esteja.

A vida do muladeiro, por outro lado, é rude e trabalhosa; exige uma contínua vigilância, uma atividade incessante. O muladeiro quase que não larga os arrieiros senão para deitar-se e repousar algumas horas. Tanger manadas de milhares de mulas bravias através de imensos e inóspitos sertões por matas, serradões e campinas abertas, rodeá-las, repontá-las e contá-las todos os dias de manhã e de tarde, além de outras muitas fadigas e cuidados inerentes a esse gênero de vida, é tarefa para acabrunhar as mais ativas e robustas organizações, e pouco ou nenhum tempo pode deixar para pensar em amores.

Não aconteceu assim a Eduardo, que, no meio da sedução de mil festins e prazeres, e a despeito de todas as fadigas e preocupações de seu afanoso negócio, nem um só dia se esqueceu de Paulina. Bem pelo contrário tudo lhe rememorava a imagem dela, e a cada passo encontrava objetos, que lhe avivavam a saudade que o consumia. Uma bonita perspectiva, um curral, uma gameleira, que via em seu caminho, levava-lhe a imaginação para a fazenda de Joaquim Ribeiro e para junto de Paulina.

Se bem que não se descuidasse dos penosos misteres do seu gênero de vida, trabalhava como por hábito e maquinalmente, como quem se desencarrega de uma tarefa, e não com aquele gosto, zelo e dedicação de quem procura promover seus interesses e adquirir bens da fortuna.

O giro costumado de Eduardo nas excursões de seu negócio era passar o Paraná, percorrer alguns municípios da província de Mato Grosso, atravessar a de Goiás e entrar em Minas pelos municípios de Paracatu, Patrocínio, Araxá e Uberaba, para daqui recolher-se à Franca.

Desta vez, porém, sem plano deliberado, quase sem o querer e sem o pensar, começou sua derrota em sentido inverso. Seu coração o chamava para a Uberaba, e para lá tangeu a sua tropa. Bem sabia, que não ia senão avivar suas mágoas no teatro de seu infortúnio; mas ia assim mesmo, como o passarinho fascinado pela serpente, e que soltando lamentosos pios vai descendo de ramo em ramo até meter-se nas goelas do voraz e hediondo réptil.

(continua...)

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