Por José de Alencar (1864)
Do primeiro olhar, vi Emília sentada na outra extremidade, sempre bela e resplandecente; mais por certo que nunca, pois nesse instante eu a admirava com olhos de maldição. Recostado ao umbral da porta, estava um homem, que a devorava com a vista, esperando impaciente a oportunidade para falar-me. Era o tenente Veiga, de quem já te falei.
—Ainda outro, meu Deus! soluçou minha alma agonizante.
Julga do meu sofrimento, Paulo, pela vileza a que me arrastava o desespero. Acabava de roubar um papel que me não pertencia; não era bastante; fiz-me espião. Dei volta pela varanda de modo a aproximar-me da porta sem que os dous me pressentissem. Não cheguei já a tempo de ouvir, mas vi...
Emília desprendera uma violeta de seu ramo e deixara-a cair aos pés intencionalmente: o oficial curvouse, apanhou rápido a flor, que beijou e prendeu com orgulho ao peito da farda ornada de condecorações.
Tudo isto fora feito com tão delicado disfarce, que ninguém mais na sala o viu, nem suspeitou.
Vaguei pelo salão conversando com um e outro, cumprimentando algumas senhoras de meu conhecimento, procurando assim gastar ao atrito dos indiferentes as emoções dolorosas que me pungiam. Depois sentei-me à mesa do jogo.
Chegou finalmente a quadrilha que eu devia dançar com Emília, a sexta, se não me engano. Uma das finezas que ela me fazia nesse tempo, era não dançar mais em um baile, depois de ter dançado comigo; por isso me reservava sempre a última de suas quadrilhas.
—Como o senhor está pálido, meu Deus! exclamou ela tomando-me o braço.
—Não; há de ser o efeito das luzes sobre este papel escarlate; respondi sorrindo. E o seu acesso? Já passou? —Que acesso? perguntou surpresa.
—Não disse há pouco... que tinha febre n'alma? —Ah!... Sim! Já passou! replicou sorrindo. O senhor é tão bom médico de minha alma, que bastou sua lembrança para curar-me.
—Então lembrou-se de mim? —Que remédio, se não lembrar-me? Procurei-o tantas vezes com os olhos, e não o vi!... Onde esteve o senhor todo este tempo? —Pois deveras reparou em minha ausência, D. Emília? Juraria o contrário! —Jurava falso! Se não fosse verdade, por que lho diria? —Quem sabe? — Quem melhor do que o senhor! A voz de Emília nessa conversa era doce e meiga. Seu olhar macio acariciava-me com delícias. Em toda a sua pessoa derramava-se um celeste eflúvio de ternura, que manava de sua alma, e rorejava a flor nativa de sua ingênua altivez. Nunca eu a vira assim maviosa, nem mesmo nas horas em que estávamos sós.
—E não me quer dizer onde esteve? perguntou de novo com branda queixa. —Estive jogando.
—O senhor?... o senhor que aborrece o jogo? Que lembrança foi esta? —Aborreço o jogo, é verdade! É de todos os vícios o que mais revolve os instintos maus. Porém às vezes é necessário. Os venenos também são remédios... perigosos, sim... Quando não curam, matam.
—Queria esquecer-me! disse Emília com terna exprobração.
Ingrato!... Quando minha alma o chamava!... Esta palavra exacerbou-me o coração:
—Para que, D. Emília? Para que me chamava a senhora? Não tenho nem posição brilhante, nem glória, nem talento, para depor a seus pés. O meu amor?... Esse fora um mesquinho triunfo para quem alcança os mais brilhantes. Um amor banal... Mas perdão! Não devo mais profanar o meu sentimento com esse nome. Chamarei amizade —como a senhora. Não me disse uma noite, por outras palavras, que a minha afeição era uma flor muito modesta para se fazer dela ramalhetes e grinaldas de baile?... Tinha razão!... No campo, por desfastio, em algum dia monótono, pode excitar a curiosidade. Não lhe parece?... Assim foi melhor que eu me conservasse longe; devia mesmo não voltar. Tenho receio de envergonhá-la com uma paixão ridícula! Emília cravara em mim seu olhar inteligente e soberano, que me trespassou a alma todo o tempo que eu levei a proferir estas palavras.
Havia nesse olhar, de uma fixidade importuna, arrogância e curiosidade ao mesmo tempo. Ela parecia querer recalcar-me no coração minha palavra sarcástica, e ao mesmo tempo arrancar dali o segredo da súbita mudança operada em mim.
Depois de uma pausa começou com a palavra triste e lenta:
—Não me fale assim! Eu tenho, o senhor bem sabe, um espinho em minha alma; é o orgulho. Quando tocam nele o fel se derrama, e eu me sinto má!... Não quero responder-lhe. Posso dizer-lhe alguma palavra dura e magoá-lo... Depois sofreremos ambos. Não é melhor a franqueza, do que estarmos aqui como duas crianças a ferir-nos com pontas de alfinetes, que podem entrar no coração? O senhor tem alguma cousa que o aflige e que eu ignoro. Fale! Emília deu à, sua voz uma terna inflexão para pronunciar estas últimas palavras:
(continua...)
ALENCAR, José de. Diva. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1839 . Acesso em: 15 jan. 2026.