Por José de Alencar (1870)
E às oito horas estava em casa de D. Clementina. Nessa noite a moça, cujo espírito jovial simpatizava com as cores frescas e risonhas, escolheu um vestuário sombrio. Era uma faceirice melancólica. Aquela menina de 18 anos, que na véspera, muito espontaneamente se prometera a um homem elegante de seu gosto e escolha, afigurava-se agora uma vítima do dever, sacrificando-se heroicamente ao compromisso contraído.
Essa convicção dominava Amélia ao entrar na sala, e ressumbrava não só nas fitas pretas de seu traje, como na languida flexão da fronte e no olhar cheio de mágoas. Ela se julgava sinceramente coagida por uma força irresistível, que a arrancava a um amor profundo e santo, como a flor que o vento arrebata ao tronco onde se enlaçara.
Leopoldo compreendeu a melancolia de Amélia, e adivinhou que essa mulher estava perdida para ele no mundo, mas que sua essência divina lhe pertencia, para todo o sempre. Sentiu pois a mágoa da saudade, que precede a longa ausência. Quando se tornariam a encontrar as duas metades dessa alma, separadas por uma contingência da matéria?
Pela noite adiante Leopoldo aproximou-se de Amélia, porém só lhe falou de coisas indiferentes, ao contrário do que ela esperava. Se o moço a interrogasse a respeito do casamento, aproveitaria o momento para confessar-lhe; mas ele nem de leve tocou nesse ponto.
Na ocasião de se despedirem a moça fez um esforço.
— Já sabe? perguntou com voz trêmula e quase imperceptível.
— Adivinhei! disse o mancebo fitando nela os olhos tristes.
Amélia ficou um instante indecisa, em face dele, como se esperasse mais alguma palavra; Leopoldo dissera tudo naquele olhar, em que difundira sua alma.
— Adeus! murmurou a moça afinal.
CAPÍTULO XIII
A casa nobre de Azevedo resplandecia. A melhor sociedade da corte concorrera ao suntuoso baile.
Toda a aristocracia, a beleza, o talento, a riqueza, a posição e até a decrépita fidalguia, estavam dignamente representadas nas ricas e vastas salas, adereçadas com luxo e elegância: duas coisas que nem sempre se encontram reunidas.
Eram nove horas. Ainda o baile não começara, e notava-se na reunião a gravidade solene, o grande ar de cerimônia, que serve de prólogo às festas esplêndidas. Os cavalheiros percorriam lentamente as salas, observando o íris deslumbrante que formavam os lindos vestidos das senhoras; mas admirando especialmente as estrelas que brilhavam nessa via-láctea.
Amélia acabava de sentar-se.
Horácio foi logo saudá-la, e cumprimentou-a pelo bom gosto e delicadeza de seu traje.
Realmente não se podia imaginar um adorno mais gracioso. O vestido era de escumilha rubescente, formando regaços onde brilhavam aljôfares de cristal; nos cabelos castanhos trazia uma grinalda de pequenos botões de rosa, borrifados de gotas de orvalho.
Um poeta diria que a moça tinha cortado seu traje das finas gazas da manhã; ou que a aurora vestindo as névoas rosadas, descera do céu para disputar as admirações da noite.
— Dançaremos a primeira, disse Horácio.
A moça corou:
— Sim.
Laura passava. Amélia chamou-a, mostrando-lhe um lugar a seu lado. Horácio afastou-se para deixar as duas amigas em liberdade; mas principalmente para poupar a Laura a contrariedade de sua presença. Desde a noite do teatro o leão compreendera que a moça lhe votava antipatia.
Conversando com a amiga, Amélia descobriu defronte, no vão de uma janela, o vulto de Leopoldo, absorvido em contemplá-la com um olhar profundo e intenso, que servia de válvula às exuberâncias de sua alma. Sentindo-se sob a influência desse olhar, a moça inclinou a fronte, como um sinal de submissão, e abandonou-se à contemplação do mancebo.
De vez em quando procurava ler de relance no rosto de Leopoldo as impressões de seu espírito, os movimentos de sua alma.
Pressentiu que o moço desejava aproximar-se dela para lhe falar, mas não se animava; a solenidade da festa, a grande concorrência, a proximidade de Laura, tolhiam o mancebo, cujo caráter fora da intimidade se confrangia, por uma espécie de pudor, próprio das almas virgens.
Amélia sentiu um desvanecimento, descobrindo aquela fraqueza no homem cujo olhar a dominava, e lembrando-se que ela podia nesse instante protegê-lo Não há para a fragilidade da mulher maior orgulho e prazer, do que observar a fragilidade no homem. Vinga-se da tirania do sexo forte.
— Vamos sentar-nos de outro lado, Laura?
— Para quê? Estamos tão bem aqui.
— Dali vê-se melhor a sala; e deve estar mais fresco.
— Como quiseres.
As duas moças atravessaram a sala e foram tomar lugar justamente no vão da janela onde Leopoldo se achava. Amélia conservou-se algum tempo de pé, com o pretexto de arranjar a cadeira, mas para dar ocasião a Leopoldo de falar-lhe. O mancebo adiantou-se com efeito e cumprimentou.
Amélia estendeu-lhe a mão com interesse, para animá-lo.
— Terei a felicidade de dançar uma quadrilha...
— Qual?
— A última!
— A última? repetiu Amélia rindo-se.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.