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#Comédias#Literatura Brasileira

Luxo e Vaidade

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Anastácio — Aquele que durante anos foi recebido no seio de uma família honesta, e por ela tratado como um amigo; que jantou cem vezes à sua mesa, que foi objeto de atenções e cuidados penhoradores; que gozou de sua confiança inteira; que mereceu, enfim, ser considerado digno de receber em casamento uma jovem cheia de encantos e virtudes, o anjo querido de seus pais,e que no momento em que essa família cai em desgraça, vem insultá-la, lançar-lhe em rosto a sua miséria, pelo receio vil e mesquinho de perder três contos de réis, é...oh! não é um malvado, não; não é um tigre; é menos do que isso, é um homem vil e abjeto!...é um réptil asqueroso, em que nem mesmo se pisa sem repugnância: não tem coração, não tem alma, não tem... não tem ao menos dignidade fingida para revoltar-se, quando ouve as injúrias que lhe estou atirando ao rosto!

Pereira — Tudo isso é bom de se dizer; mas três contos de réis é dinheiro! E se ao menos...

Anastácio — A sua letra!

Pereira — Ei-la aqui; mas que pretende fazer?...

Anastácio (Tira a carteira e dá dinheiro) — Rasgue-a! que não toque nas minhas mãos um papel que passou pelas suas. (Pereira rasga a letra). Dou-lhe minha palavra de honra, que a sua alma vale este trapo que piso com os meus pés!

Pereira — Sim...porém a emoção...a fadiga...o calor...com licença, um copo d’água...(Bebe) Ah! Sinto-me um pouco melhor.



CENA X

Anastácio, Maurício e Hortênsia.

Maurício — Que fatalidade!

Anastácio — Não se assustem, a água que ele bebeu é inocente; eu destruí os preparativos para o último ato de loucura de meu irmão.

Maurício — Ainda bem!

Anastácio — E não te envergonhas, Maurício, do atentado que ias cometer contra

Deus e a sociedade? Nem te lembrou a esposa?

Hortênsia — Ingrato!

Anastácio — Nem a filha...

Maurício — Minha pobre Leonina! Se eu a tivesse junto de mim resistiria com mais coragem ao golpe tremendo da fortuna.

Anastácio — E nada sabes ainda a respeito de Leonina?

Maurício — Ignoro o principal. Sei que essa indigna Dona Fabiana e Frederico, seu infame cúmplice, estavam a ponto de realizar um plano de antemão forjado, raptando minha filha, quando apareceram dois máscaras que arrancaram a vítima de suas garras; mas depois eles por sua vez me roubaram Leonina. Eis tudo quanto pude descobrir; e além disto, nada...nada mais!

Anastácio — Maurício, tu desprezaste pelos falsos os teus verdadeiros amigos, e eles se vingaram de ti, salvando tua filha.

Hortênsia — Onde está minha filha?

Maurício — Anastácio! Minha filha...onde está minha filha...

Anastácio — Junto de sua tia...da mulher de Felisberto...

Maurício — Ah! Que felicidade tão grande! E quem a salvou?...

Anastácio — Olha!...



CENA XI

Os precedentes, Leonina e Henrique.



Leonina (Correndo a abraçá-los) — Meu pai!...mãe!...

Hortênsia — Minha filha!

Maurício — Leonina!...

Anastácio (À parte) — Pior está essa...penso que já vou ficando com os olhos molhados...pois se eu sou um chorão!...

Maurício — E o teu salvador...onde está ele?... (Vendo-o) Henrique!

Hortênsia — Meu sobrinho...nos meus braços. (Abraça-o)

Anastácio — Sem a menos dúvida, a desgraça dá juízo aos parvos...



CENA XII

Os precedentes e Felisberto.

Maurício — Felisberto!

Anastácio Felisberto!

Leonina — Meu tio!

Henrique — Meu pai!

Hortênsia (À parte) — Eu tremo de confusão...

Felisberto — Bom dia, Maurício; Deus a guarde, minha senhora.

Anastácio — Com que cara vens tu, Felisberto?

Felisberto — Venho dizer-te, Anastácio, que tu és um homem mau.

Anastácio — Heim?...como é lá isso?...

(continua...)

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