Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)
A fonte nunca mais deixou de existir, e há ainda quem acredite que por desconhecido encanto conserva duas grandes virtudes...
Dizem, pois, que quem bebe desta água não sai da nossa ilha sem amar alguém dela e volta, por força, em demanda do objeto amado; e em segundo lugar, querem também alguns que algumas gotas bastam para fazer a quem bebe adivinhar os segredos de amor.
— Terminei aqui a minha história, disse a sra. d. Ana, respirando.
— E eu sou capaz de jurar, disse Augusto, que pela terceira vez sinto o ruído de alguém que se retira correndo.
— Pois examine depressa.
Augusto correu à porta e voltou logo depois.
— E então?... perguntou a sra. d. Ana.
— Ninguém, respondeu o estudante.
— E vê alguém no jardim?...
Apenas a sra. d. Carolina, que vai apressadamente para o rochedo.
— Sempre minha neta!...
E eu, minha senhora, tenho que pedir-lhe uma graça.
— Diga.
— Rogo-lhe que, por sua intervenção, me facilite o prazer de ouvir sua linda neta cantar a balada de Ahy, que tanto me interessou com o seu amor.
— Oh! ... Não carece pedir: não a ouve cantar sobre o rochedo?... É a balada.
— Será possível?!
— Adivinhou o seu pensamento.
CAPÍTULO X
A balada do rochedo
A hóspeda e o estudante deixaram então a gruta e, tomando o do jardim para vencer a altura do rochedo, viram a bela Moreninha em pé e voltada para o mar, com seus cabelos negros divididos em duas tranças que caíam pelas espáduas, e cantando com terna voz o seguinte:
I
Eu tenho quinze anos
E sou morena e linda!
Mas amo e não me amam
E tenho amor ainda.
E por tão triste amar,
Aqui venho chorar.
II
O riso de meus lábios
Há muito que murchou;
Aquele que eu adoro
Ah! Foi quem matou;
Ao riso, que morreu,
O pranto sucedeu.
III
O fogo de meus olhos
De todo se acabou,
Aquele que eu adoro
Foi quem o apagou:
Onde houve fogo tanto
Agora corre o pranto.
IV
A face cor de jambo
Enfim se descorou,
Aquele que eu adoro
Ah! Foi quem a desbotou:
A face tão rosada
De pranto está lavada!
V
O coração tão puro
Já sabe o que é amor,
Aquele que eu adoro
Ah! Só me dá rigor:
O coração no entanto
Desfaz o amor em pranto.
VI
Diurno aqui se mostra
Aquele que eu adoro;
E nunca ele me vê,
E sempre o vejo e choro;
Por paga a tal paixão
Só lágrimas me dão!
VII
Aquele que eu adoro
E qual rio que corre,
Sem ver a flor pendente
Que ti margem murcha e morre:
Eu sou u pobre flor
Que vou murchar de amor.
VIII
São horas de raiar
O sol dos olhos meus,
Mau sol! Queima a florzinha
Que adora os olhos seus:
Tempo é do sol raiar
E é tempo de chorar.
IX
Lá vem sua piroga
Cortando leve os mares,
Lá vem uma esperança
Que sempre dá pesares:
Lá vem o meu encanto,
Que sempre causa pranto.
X
Enfim abica a praia,
Enfim salta apressado.
Garboso como o cervo
Que salta alto valado:
Quando há de ele cá vir
Só pra me ver sorrir?
XI
Lá corre em busca de aves
A selva que lhe é cara,
Ligeiro como a seta
Que do arco seu dispara:
Quando há de ele correr
Somente para me ver.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. A Moreninha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16667 . Acesso em: 1 jan. 2026.