Por Eça de Queirós (1887)
El señor D. Topsius, madrugador, já estava embaixo a almoçar pachorrentamente os seus ovos com presunto, a sua vasta caneca de cerveja. Eu tomei apenas um gole de café, no quarto, a um canto da cômoda, em mangas de camisa, com os olhos vermelhos sob a névoa das lágrimas. A minha sólida mala de couro atravancava o corredor, fechada e afivelada; mas Alpedrinha estava ainda acomodando, à pressa, a roupa suja dentro do saco de lona. E Maricoquinhas, sentada desoladamente à borda do leito, com o seu gentil chapéu enfeitado de papoulas e as olheirinhas pisadas, contemplava aquele enfardelar de flanelas, como se fossem bocados do seu coração atirados para o fundo do saco, para partirem e não voltarem mais!
Levas tanta roupa suja, Teodorico!
Balbuciei, dilacerado:
- Manda-se lavar em Jerusalém, com a ajuda de Nosso Senhor!
Deitei os meus bentinhos ao pescoço. Nesse instante Topsius assomava à porta, cachimbando, com a barraca do seu guarda-sol fechada sobre o braço, de galochas anchas para a umidade do tombadilho, e um volume da Bíblia enchumaçando-lhe a rabona de alpaca. Ao ver-me sem colete, repreendeu a minha amorosa preguiça.
- Mas compreendo, bela dama, compreendo! - acudiu ele, às cortesias a Mary, esgrouviado e onduloso, de óculos na ponta do bico. E doloroso deixar os braços de Cleópatra... Já Antônio por eles perdeu Roma e o mundo... Eu mesmo, todo absorvido na minha missão, com recantos crepusculares da história a alumiar, levo gratas memórias destes dias de Alexandria... Deliciosíssimos os nossos passeios pelo Mamudiê!... Permita-me que apanhe a sua luva, bela dama!... E se voltar jamais a esta terra dos Ptolomeus, não me esquecerá a Rua das DuasIrmãs... "Miss Mary, luvas e flores de cera". Perfeitamente. Consentirá que lhe mande, quando completa, a minha História dos Lágidas... Há detalhes muito picantes... Quando Cleópatra se apaixonou por Herodes, o rei da Judéia...
Mas Alpedrinha, da beira do leito, gritava., alvoroçado:
- Cavalheiro! Ainda há aqui roupa suja!
Rebuscando, entre os cobertores revoltos, descobrira uma longa camisa de rendas, com laços de seda clara. Sacudia-a; e espalhava-se um aroma saudoso de violeta e de amor... Ai! Era a camisa de dormir da Mary; quente ainda dos meus abraços!
- Pertence à senhora D. Mary! E a tua camisinha, amor! gemi eu, cruzando os suspensórios.
A minha luveirinha ergueu-se, trêmula, descorada - e teve um poético rasgo de paixão. Enrolou a sua camisinha, atirou-me para os braços, tão ardentemente, como se entre as dobras viesse também o seu coração.
- Dou-ta, Teodorico! Leva-a, Teodorico! Ainda está amarrotada da nossa ternura!... Leva-a para dormires com ela a teu lado, como se fosse comigo... Espera, espera ainda, amor! Quero pôr-lhe uma palavra, uma dedicatória!
Correu à mesa, onde jaziam restos do papel sisudo em que eu escrevia à Titi a história edificativa dos meus jejuns em Alexandria, das noites consumidas a embeber-me do Evangelho... E eu, com a camisinha perfumada nos braços, sentindo duas bagas de pranto rolarem-me pelas barbas, procurava angustiosamente em redor onde guardar aquela preciosa relíquia de amor. As malas estavam fechadas. O saco de lona estalava, repleto.
Topsius, impaciente, tirara das profundezas do seio o seu relógio de prata. O nosso lacedemônio, à porta, rosnava:
- D. Teodorico, es tarde, es mui tarde...
Mas a minha bem-amada já sacudia o papel, coberto das letras que ela traçara, largas, impetuosas e francas como o seu amor: "Ao meu Teodorico, meu portuguesinho possante, em lembrança do muito que gozamos!"
- Oh, riquinha! E onde hei de eu meter isto? Eu não hei de levar a camisa nos braços, assim nua e ao léu!
Já Alpedrinha, de joelhos, desafivelava desesperadamente o saco. Então Maricoquinhas, com uma inspiração delicada, agarrou uma folha de papel pardo; apanhou do chão um nastro vermelho; e as suas habilidosas mãos de luveira fizeram da camisinha um embrulho redondo, cômodo e gracioso - que eu meti debaixo do braço, apertando-o com avara, inflamada paixão.
Depois, foi um murmúrio arrebatado de soluços, de beijos, de doçuras...
- Mary; anjo querido!
- Teodorico, amor! ...
- Escreve-me para Jerusalém...
- Lembra-te da tua bichaninha bonita...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.