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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

A admiração que ele inspirou a Alípio foi grande e duradoira.

Muitas vezes ouvi o Conde afirmar, quando se agitavam as grandes questões do Clero, do Ultramontanismo:

– Não, não... Não é tanto assim! O Clero é extremamente virtuoso. Olhe, um padre conheço eu, o padre Augusto, que foi meu companheiro nas Portas de Santo Antão... Uma vez...

E era certo então vir alguma deliciosa anedota, em que as virtudes do padre Augusto resplandeciam, como jóias fulgurantes delicadamente engastadas.

E julgando todos os eclesiásticos, de todo o Universo, por este sacerdote que conhecera na mocidade – tanto o seu espírito prático amava as opiniões a posteriori e fundadas na experiência – o Conde nunca concebeu o clero senão como uma classe cheia de virtudes, passajando meias, indiferente às engomadeiras e cheia de benevolência pelas fraquezas humanas.

Poucos dias depois da sua instalação na casa de hóspedes de D. Adelaide, a intimidade de Alípio com o padre Augusto era tão completa, que à noite, depois de deitados, ainda conversavam através do tabique. O assunto nunca variava: os Amados, as virtudes de D. Laura, as prendas de D. Virgínia, as capacidades do Desembargador, os méritos da Ana cozinheira – de tal sorte que ao fim de uma semana Alípio conhecia os Amados, os seus hábitos, os seus fracos, as suas propriedades, os seus gostos, as suas ideias, melhor do que se, com a sua própria imaginação, os tivesse concebido e descrito nas folhas manuscritas de um romance.

Foi deste modo que ele veio a esclarecer qual o tipo de marido que D. Laura desejava para sua filha. Esse tipo não demonstrava ambições desordenadas: um bacharel, de costumes honestos, com uma carreira começada, temente a Deus, sem tísicos na família, observando os jejuns, económico, caseiro e pontual à missa.

Alípio, com uma grande humildade, interrogou-se, sondou-se, folheou-se como quem folheia um livro, e achou que correspondia exactamente ao tipo de D. Laura. Estou certo de que, se encontrasse em si condições divergentes – se se reconhecesse inclinado à frequentação dos bilhares, ou fraco diante da beleza, ou se algum seu parente tivesse deitado sangue pela boca, estou certo (pois conheci bem aquele carácter rectilíneo e rígido), de que ele se teria considerado indigno de ser o marido da loira Virgínia. Mas como nenhuma destas circunstâncias objectáveis concorria nele, Alípio não hesitou, e, habilmente, deixou ver ao padre Augusto que ali, do outro lado do tabique, existia um bacharel com todas as qualidades de saúde, de fé, de moral e de dis-ciplina que D. Laura exigia do futuro marido de sua filha Virgínia, loira como os loiros trigos, segundo a formosa expressão do poeta.

Padre Augusto, de resto, reconhecia-o; e a sua simpatia crescia por aquele moço que não blasfemava, o acompanhava no seu passeio higiénico ao comprido do Cais do Sodré, que o tinha presenteado com duas formosas navalhas de barba, e que, uma noite em que ele estava sofrendo de um defluxo terrível, lhe pusera um sinapismo de mostarda com cuidados e carinhos de enfermeira. De tal sorte que esse moço exemplar, benévolo, doce, instruído, se tornara a preocupação dominante do bom sacerdote; e mal chegava a casa do Desembargador, ainda antes de se servir a sopa, padre Augusto, puxando o guardanapo para o pescoço, encetava o assunto querido: – Alípio!

Todavia, D. Laura podia verificar por si mesma as qualidades de Alípio – ou pelo menos aquela que mais a interessava: a sua devoção. Na missa das nove, em S. Domingos, no Lausperene, no Santíssimo, no Mês de Maria, ela podia ver aquele bacharel impecável, ora de joelhos, devorando as orações do seu ripanço, ora de pé, a cabeça caída numa meditação grave, ora estático, contemplando a edificante cintilação dos altares. Nunca os seus olhos se distraíam, solicitados por algum chapéu mais alto em que se destacasse a cor viva de um ramalhete, ou por qualquer ruge-ruge de folhos de seda. Não. Ali estava, sério, compenetrado, circunspecto, reverente. À saída, ao passar por D. Laura, uma cortesia respeitosa; e depois, taque-taquetaque, no seu caminho, com o seu livro debaixo do braço, os olhos nas pedras da calçada.

– É um modelo – dizia um dia D. Laura. – Um rapaz assim é que dá gosto a uma mãe.

Estas palavras, repetidas à noite pelo padre Augusto, mostraram a Alípio que ele podia enfim, com honestidade, fazer ao sacerdote a confidência do seu sentimento e da sua ambição.

(continua...)

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