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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

Se ele suspeita que o crime cometido por essa mulher teve por móbil a paixão, como explica o roubo?Demais, se desconfiava que ela estivesse envolvida naquele facto, se estava tão ligado com ela que a queria salvar, porque a não procurou logo, porque a não interrogou, em lugarde ir surpreender gente para as estradas, e vir fazer tableau em volta de um ca dáver?Ah! Como toda esta história é artificial, postiça, pobremente inventada! Aquelas carruagens como galopam misteriosamente pelas ruas de Lisboa! Aqueles mascarados,fumando num ca minho, ao crepúsculo, aquelas estradas de romance, onde as car ruagens passam sem parar nas barreiras, e onde galopam, ao es curecer, cavaleiros com capasalvadias! Parece um romance do tempo do ministério Villele. Não falo nas cartas de F... que não explicam nada, nada revelam, nada significam — a não ser a ne cessidade que tem um assassino e um ladrão de espalmar a sua prosa oca, nas colunas de um jornal honesto.Dedução: o doutor *** foi cúmplice de um crime; sabe que há alguém que possui esse segredo, pressente que tudo se vai es palhar, receia a polícia, houve alguma indiscrição; porisso quer fazer poeira, desviar as pesquisas, transviar as indagações, confundir, obscurecer, rebuçar, enlear, e enquanto lança a pertur bação no público, faz as suas malas, vai ser cobarde para França, depois de ter sido assassino aqui!

O que faz no meio de tudo isto o meu amigo M. C. ignoro-o. Senhor redactor, peço-lhe, varra depressa do folhetim do seu jornal essas inverosímeis invenções. — Z.

NARRATIVA DO MASCARADO

I

Senhor redactor. — A pessoa que lhe escreve esta carta é a mesma que nessa aventurada estrada de Sintra, popularizada pela carta do doutor ***, guiou a carruagem para Lisboa. Sou já conhecido, com a minha máscara de cetim preto e a minha esta tura, por todas aspessoas que tenham seguido com interesse a su cessiva aparição destes segredos singulares: eu era nas cartas do doutor *** designado pelo — mascarado mais alto — Sou eu. Nun ca supus que me veria na necessidade lamentável de vir ao seu jor nal trazer também a minhaparte de revelações! Mas desde que vi as acusações improvisadas, sem análise e sem lógica, contra o doutor *** e contra mim, eu devia ao respeito da minha persona lidade e àconsideração que me merece a impecável probidade do doutor *** o vir afastar todas as contradições hipotéticas e todas as improvisações gratuitas, e mostrar a verdade real, implacável, indiscutível. Detinhame o mais forte escrúpulo que pode dominar um carácteraltivo: era necessário falar numa mulher, e arrastar pelas páginas de um jornal, o que há no ser feminino de mais ver dadeiro e de mais profundo: a história do coração. Hoje não me re-têm essas considerações; tenho aqui, diante da página branca em que escrevo, sobre a minha mesa, este bilhete simples e nobre: — «Vi as acusações contra si e os seus amigos, e contra aquele dedicado doutor ***. Escreva a verdade, imprima-a nos jornais. Escon da o meu nomecom uma inicial falsa apenas. Eu já não pertenço ao mundo, nem às suas análises, nem aos seus juízos. Se não fizer isto, denunciome à polícia.»

Apesar, porém, destas grandes e sinceras palavras, eu resolvi nada revelar do crime, econtar apenas os factos anteriores que me tinham ligado com aquele infeliz moço, tão fatalmente morto, mo tivado a sua presença em Lisboa, e determinado esse desenlacepassado numa alcova solitária, numa casa casual, ao desmaiado clarão de uma vela, ao pé de um ramo de flores murchas. Outros, os que o sabem, que contem os transes dessa noite. Eu não. Não quero ouvir apregoar pelos vendedores de periódicos a história das dores maisprofundas de um coração que estimo.

Senhor redactor, há três anos a casa onde eu mais vivia em Lis boa, aquela em quetinha sempre o meu talher e a minha carta de whist, onde ria as minhas alegrias e faziaconfidências das minhas tristezas, era a casa do conde de W. A condessa era minha prima.

Era uma mulher singularmente atraente: não era linda, era pior: tinha a graça. Eramadmiráveis os seus cabelos louros e espessos; quando estavam entrelaçados e enrolados, com reflexos de uma infinita doçura de ouro, parecia serem um ninho de luz. Um só cabelo quese tomasse, que se estendesse, como a corda num ins trumento, de encontro à claridade, reluzia com uma vida tão vi brante que parecia ter-se nas mãos uma fibra tirada ao coração do Sol.Os seus olhos eram de um azul profundo como o da água do Me diterrâneo. Havia neles bastante império para poder domar o pei to mais reb elde; e havia bastante meiguice emistério, para que a alma fizesse o estranho sonho de se afogar naqueles olhos.

Era alta bastante para ser altiva; não tão alta que não pudes se encostar a cabeça sobre o coração que a amasse. Os seus movi mentos tinham aq uela ondulação musical, que seimagina do na dar das sereias.



(continua...)

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