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#Novelas#Literatura Portuguesa

Alves & Cia

Por Eça de Queirós (1925)

Mas no outro dia, quando entrou no escritório, não se conteve, sem motivo abraçou pela conta o Machado. E o outro correspondeu ao abraço, sem estranhar esta efusão, mas com um modo, um ar de enternecimento, um abandono triste que surpreendeu Alves, e a sua surpresa foi maior quando viu que Machado tinha os olhos vermelhos, como se tivesse chorado.

— É minha mãe que está muito mal – disse o Machado, respondendo à interrogação do seu sócio.

E Alves, com a sua alegria cortada pôr aquela dor, só pôde murmurar:

— Diabo!

Era o diabo, era! E o médico não dava esperança. A pobre senhora sofria duma complicação de doenças de fígado, de bexiga, de coração, que pareciam resolver-se agora, num desarranjo total da vida. Na véspera tinha tido um desmaio de duas horas. Ele julgara-a morta: e nessa manhã tinha um alívio, extraordinário, de que ele desconfiava. E o pobre Machado suspirava dizendo isto. O amor da mãe fora até aí o seu sentimento mais vivo: eles tinham vivido ambos, sempre juntos; pôr causa dela ele nunca quisera casar, e agora aquela perda parecia tirar da sua vida tudo o que lha tornava cara...

— Deus não há-de querer uma desgraça – murmurou Godofredo comovido...

O Machado encolheu os ombros, e daí a instantes saiu, para voltar para junto da sua pobre doente.

Todos os dias então, três, quatro vezes, Godofredo ia à casa de Machado saber notícias. A pobre senhora piorava: felizmente não sofria, e os seus últimos instantes eram consolados pôr aquele amor em que o filho a envolvia, não se arredando um instante do leito dela, recalcando a dor, escondendo a palidez, animando-a, falando de planos e de idas para o campo, e gracejando como nos bons tempos. Depois uma tarde Godofredo chegou a saber notícias. A criada apareceu com o avental nos olhos. A senhora morrera havia uma hora, como um passarinho. Ele entrou, Machado caiu-lhe nos braços, perdido de choro.

Godofredo não o deixou mais, Passou essa noite com ele: ocupou-se do enterro, dos convites, da compra dun terreno no Alto de São João. E ao outro dia, na solenidade dos pêsames, os amigos da casa davam-lhe a ele apertos de mão, tão sentidos e tão mudos, como ao próprio Machado – reconhecendo, nele, mais que um irmão de Machado, quase um pai.

O enterro foi concorrido; havia vinte carruagens; Godofredo levava a chave do caixão, e no cemitério dirigiu tudo, convidou os amigos mais íntimos para as borlas do esquife, cochichou com os padres, prodigalizou-se, e, quando o caixão desceu à cova, as únicas lágrimas que houveram foram as dele.

No dia seguinte Machado partiu para Vila Franca para casa duma tia; e Godofredo foi levá-lo à estação, ocupou-se da sua bagagem, chorou outra vez ao abraçá-lo.

Passados quinze dias Machado voltou, ocupou outra vez a sua carteira no gabinete de reps verde. Mas não parecia o mesmo. Estava mais sereno, sim, mas tão triste no seu luto, que Godofredo, sempre romântico, pensou de si para si que aqueles lábios nunca mais sorririam.

Depois, vendo-o demorar-se à carteira, sem vontade de ir para casa – para casa agora vazia, para o jantar solitário -, veio-lhe um dos seus bruscos impulsos de bondade, esqueceu tudo, abriu os braços ao Machado:

— O que lá vai! Venha você daí jantar conosco!

E nem o deixou hesitar, quase lhe enfiou o , paletot, arrastou-o pela escada abaixo, chamou uma tipóia, atirou-o para dentro, levou-o em triunfo à rua de São Bento. Machado todo o caminho não disse nada, tremendo àquele encontro, palidecendo já, procurando uma palavra natural para lhe dizer... Logo na escada sentiram o som do piano, e daí a instantes Godofredo, metendo a cabeça através do reposteiro da sala, exclamava radiante:

— Ludovina, trago-te aqui um convidado.

Ela erguera-se, e achou-se diante do Machado, que se curvava profundamente, disfarçando a sua perturbação na profundidade daquela cortesia. Ela fizera-se escarlate – mas a sua voz foi clara e firme, quando lhe estendeu a mão, dizendo:

— Como está, sr. Machado? Então chegou bem?

Ele balbuciou umas palavras, e ficou de pé, esfregando as mãos, devagar – enquanto Ludovina dissipava aquele embaraço, com uma infinidade de palavras, contando a Godofredo uma infinidade de palavras, contando a Godofredo uma visita duns certos Mendonça, e falando do Mendonça, e do Mendonça pequeno, vivamente, nervosa e com as orelhas a arder.

Depois, para dar as suas ordens, apressou-se a sair.

Quando ficaram sós, Godofredo teve esta palavra profunda:

— Isto, quando há boa educação, tudo se vem a acabar bem!

Daí a pouco ela voltou, mais serena, tendo decerto posto na face uma camada de pó-de-arroz. Machado sentara-se no famoso sofá amarelo, e quis-se erguer, dar-lhe esse lugar. Mas ela não consentiu, sentou-se ao lado, na poltrona amarela, e, como se quisesse emendar um esquecimento, apressou-se a dizer dum fôlego, como um recado:

— Eu senti muito a perda que o sr. Machado...

Ele curvava-se, murmurando uma palavra.

E Godofredo acudiu, exclamando:

— Nisso não se fala agora! Devem-se aceitar os decretos de Deus, acabouse.

(continua...)

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