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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Só ele, talvez, conheceu-me as preocupações beatas. Senhor do meu fraco, pôs-se a informar dos pavores da fé com a ênfase satisfeita de um cicerone. Recordo-me de um assunto: a comunhão sacrílega! A propósito, Barreto me deu um livro a ler, um livro cruel, que descrevia coisas dignas de Moloc: crianças diretamente justiçadas pela celeste cólera, uma delas que, por haver comungado sem confissão prévia, iludindo ao sacerdote, fora apanhada pela roupa entre dois cilindros de aço duma máquina e reduzida a pasta, acabando impenitente, maldita, sem tempo para um ai-jesus... Era-me incrível que de uma simples hóstia pudesse a taumaturgia da crendice obter tantos efeitos de terror.

Barreto comentava reforçando. Metia medo aceso em iras santas de pregador, demonstrando quão longe ainda estavam os castigos da Providência, na

terra, dos suplícios da eternidade. Descrevia o inferno como se tivesse visto. Rúbida caverna, dragões verde-negros, cor de limo, serpentes de ferro em brasa enroscando os condenados, demônios fulvos revolvendo tachos de asfalto em fusão, outros espíritos caudatos levando a chuço magotes, para os tachos, de inconsoláveis réprobos.

Li a Nova floresta, de Bernardes. O reverendíssimo autor veio retocar a obra do Barreto, com as suas narrativas de iluminado terrifico.

Comecei a achar a religião de insuportável melancolia. Morte certa, hora incerta, inferno para sempre, juízo rigoroso; nada mais negro!

Era cedo demais, para que eu pudesse pesar filosoficamente a revelação; encontrei, todavia, embaraço invencível no ritual das cerimônias. Eu que, nos melhores dias, não conseguira formular literalmente uma só prece do catecismo, esbarrei definitivamente, na prescrição fastidiosa do preceito. Ir à missa, muito bem; mas o resto e ainda mais a dependência dos senhores ministros do culto... Em duas palavras: a sacristia e o inferno, prováveis escândalos e horrores inevitáveis, desgostaram-me de tudo. Demais, eu tinha por vezes tentado dar boa conta, estudando um pouco e rezando muitíssimo, com um pequeno jejum ainda por cima; ao dia seguinte, nota má! Era um descrédito para o favor divino. Que custava à suma Onipotência modificar em lição sabida uma ignorância sofrível, como transmutara em fartura sem conta uma miséria de cinco pães?

Ia-se por esta forma a exaltação dos meus fervores, quando me achei envolvido no episódio dos cacos. A atribulação do remorso reacendeu por um momento a chama decadente; o resultado da minha súplica nesse duro transe não provara mal; muito adiantada, porém, ia a decomposição do meu êxtase. Eu esqueci a circunstância com a ingratidão fácil dos pretendentes servidos. E cheguei à conclusão audaz.

Não tendo força para estacar de arranco a torrente dos séculos cristãos, consegui ao menos ficar a margem. Ignorante do ateísmo, limitei-me a voltar o rosto aos fantasmas do eterno. Subi ao dormitório, tirei da gaveta Santa Rosália, guardei a flor da última oferenda, seca, porque a minha pontualidade de culto falseava já, depus-lhe em despedida um ósculo, e, sem mais profanação, fi-la baixar à sala de estudo, onde lhe cometi o modesto encargo de marcar as páginas de um volume. Estava demitida a minha padroeira!

Pouco depois, algum apaixonado de gravuras raptou-ma, e eu lamentei apenas perder a lembrança da saudosa prima.

Maio tinha passado e as rosas; acabaram-se as orações à Virgem. Sem os hinos da manhã, sem o sorriso a cores de Santa Rosália, restava-me o Deus dos novíssimos, das comunhões sacrílegas, o Deus selvagem do Barreto. Positivamente não quis saber do carrasco, alijei a metafísica como um pesadelo. E me achei de novo sozinho no Ateneu; sozinho mais do que nunca. Com os astros apenas do meu compêndio, panorama da noite consoladora.

E ainda bem, que voltava da crença pela via-láctea, como para a crença fora. Retirada honrosa de um desengano.

Os dias de saída eram de quinze em quinze. Partia-se ao domingo, depois da missa; voltava-se à segunda-feira, antes das nove da manhã. Os dias santos de guarda ocasionavam saídas de véspera. O comissário dos gêneros e despenseiro insistia com o diretor afrouxasse mais o sistema de feriados. Os rapazes precisam passear, grifava ele, com a liberdade de mordomo confidente. Aristarco replicava com a invenção cordata dos gêneros de terceira, elasticidade insensível dos orçamentos.

Havia, porém, saídas extraordinárias de prêmio ou de obséquio.

(continua...)

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