Por Adolfo Caminha (1895)
Confundiam-se-lhe as idéias numa turva agitação de quem vai perder o juízo; os objetos começavam a parecer-lhe sombrios, tinha vontade de cometer loucuras, de se sentar no meio da rua e abrir a boca e dizer horrores como um alienado.
— Eu daqui vou direitinho, mas é para bordo, murmurava. Hei de mostrar à canalha! Vou porque quero, porque sou livre!
E batia com força no peito.
— ... que os pariu! Salvei o homem da gota, fiz um ato de caridade, agora podem falar! Papagaio de noite não tem olho, como dizia meu comandante... já não me lembra o nome...
Eram duas horas da tarde. As lojas tinham-se fechado: os armazéns de madeira, todas as casas de negócio, com exceção de raríssimos cafés, estavam trancadas àquela hora dominical.
Poucos transeuntes iam passando vagarosamente, ao sol, numa marcha lenta de gado que recolhe à tardinha, calados, pensando na vida...
Bom-Crioulo desceu rua abaixo, cambaleando, ziguezagueando, sem prestar atenção à ninguém. Mas, ao desembocar no Largo do Paço, um cachorro vadio começou a ladrar, atirando-se a ele, perseguindo-o, cercando-o. Outros cães vieram se juntar ao primeiro e fez-se logo em torno do negro um alarido infernal, que aumentava pouco a pouco, ensurdecedor e azucrinante. Garotos açulavam a canzoada com assobios e gritos. Houve um alarma entre os galegos do cais. — Ora quem havia de ser? Quem havia de ser?... O negralhão, o marinheiro!
No entanto, Bom-Crioulo caminhava sempre, aos tombos, equilibrando-se, investindo contra os cães, ameaçando-os à pedra, ganindo insultos: —... que os pariu!”
Viram-no se dirigir para o cais.
— Ó do escaler! gritou ele avistando uma pequena embarcação de guerra imóvel sob os remos, ao largo.
Ninguém respondeu.
Havia calma no mar. A água reluzia como aço polido. Abafava!
Defronte, lá muito longe, em Niterói, via-se a torre branca de uma igreja, pequenina, esguia como um obelisco.
Botes de ganho flutuavam silenciosamente, com o toldo aberto, amarrados uns aos outros, na lingüeta de mar, entre as estações das barcas, quietos, modorrentos...
— Ó do escaler! bradou o negro.
A embarcação não se movia: era como se não houvesse ninguém a bordo. Os marinheiros fingiam-se distraídos.
— Cambada de burros! Atraca essa porcaria!
E abriu a boca numa tremenda explosão de impropérios, fechando o punho ameaçadoramente, desenrolando todo o vocabulário imundo e obsceno das tarimbas contra os companheiros, berrando em alta voz “que era livre, que havia de fazer, que havia de acontecer!...”
— Infames! Não preciso de vocês pra nada! Pra nada!
Mas, ao voltar, deu de ombros com um português, que estava a seu lado rindo tranqüilamente, segurando um remo.
— E você também, seu galego; você está se rindo, porque ainda não apanhou nessa lata! fez Bom-Crioulo dando um empurrão no homem.
O português carregou o rosto, medindo o negro d’alto a baixo, sem dizer palavra.
— E não tem que olhar não, não! Se dúvida faço-o beber água salgada.
— Vá-s’embora, homem de Deus! murmurou o outro com benevolência. Vás’embora...
— O quê?
— Mal vai a cousa...
— O quê, seu galego, o quê?
E “abotoou” o português, oferecendo-lhe o peito e sacando fora o boné.
— O senhor não me provoque...
— Arrebento-lhe a cara, seu galego, aqui mesmo!
O homem perdeu a calma Nos seus olhos fulgurou um clarão de raiva, o sangue tomou-lhe o rosto, o remo caiu-lhe da mão, e, investindo para o Bom-Crioulo, quis derrubá-lo corpo a corpo, naquele mesmo instante. Era sujeito baixote, rijo, de bigode fulvo, muito vermelho, com pintas de sarda.
Abriu-se a luta imediatamente. O cais, todo o espaço entre as duas estações marítimas, coalhou-se de gente rumorosa, alvoraçada, que vinha de todos os ângulos da praça numa precipitação de avançada. — “Rolo! Rolo!”
E, no desespero da briga, os dois homens iam ganhando terreno para o largo, afastando-se daquele ponto insustentável, onde não se podiam mover livremente, sem risco de cair n’água, abraçados, corpo a corpo, enroscados um no outro, qual mais forte — iguais na envergadura muscular.
O escaler de guerra tinha se aproximado.
Havia grande rebuliço nos botes: o alarma era geral no cais e imediações.
— Desaparta! Desaparta! gritavam os catraieiros.
Assobios, canzoada, berros: — Não pode! não pode! confundiam-se num alvoroço descomunal, reboando na praça.
De repente, com um safanão medonho, Bom-Crioulo separa-se do português e rápido, ligeiro, esgueirando-se, puxa do cós um objeto: logo toda gente viu, com espanto, reluzir na mão do marinheiro o aço de uma anavalha.
— É agora! disse uma voz no meios do povo.
A multidão espalhou-se, recuando, abandonando o campo da luta. O clamor aumentava: — Pega! Pega! não pode!
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.