Por Franklin Távora (1878)
- Eu não sei dizer como é, não, meu padrinho. Eu só sei que Lourenço é mau e ingrato.
Triste e cabisbaixa, a menina poz-se a chorar. Era muito intensa a dor que feria seu coração. Não chores, pequena, disse Francisco abalado. Hei de fazer que ele venha a casar contigo. Pede bem a Nossa-Senhora-da-Conceição que eu não morra. Tanto farei que ele mesmo é que me há de pedir licença para dar este passo.
Secreto pressentimento, porém, dizia á menina, não obstante este formal compromisso do matuto, que nem o coração de Lourenço nem sua mão lhe pertenceriam jamais.
Entretanto a esperança que tais palavras infundiram em seu espirito, entrou ai como luz serena e divina. Momentos depois, voltaram todos para casa, conduzindo as mãos-de-milho. A uns derramavam-se espigas pelas costas, a outros caiam os atilhos dos braços, ou das mãos. Marianinha, enquanto os demais tinham a atenção concentrada na colheita, volvendo em torno de se seus belos olhos, há pouco cheios de lágrimas, agora repletos dos fulgores do contentamento intimo, que se revelava, não por palavra mas pela luz do olhar meigo, pelo rápido sorriso, pela irradiação suavíssima do semblante, tinha bem diversos pensamentos. Nas sombras crepusculares que começavam a cobrir a solidão ela descobria encantos e primores naturais, que momentos antes, de caminho para o roçado, debalde buscara na verdura da natureza, formosamente iluminada pelo clarão imenso do sol.
Nem com entrar em seu espirito acompanhada das sombras e dos mistérios do deserto tinha para ela menos brilho e formosura a esperança.
XI
Numeroso foi o concurso de pessoas de alta e distinta jerarquia durante a noite da véspera e o dia de S. João de 1711 no engenho do sargento-mór João da Cunha.
Esta respeitável campanha compôs-se dos cavaleiros que diremos: os irmãos André Cavalcanti, Luiz Vidal e Cosme Bezerra; Filipe Cavalcanti, capitão de ordenanças; Jorge Cavalcanti, sargento-mór honorário, e filho natural de André Vidal de Negreiros, o restaurador da Paraíba; Martinho de Bulhões, que veio do engenho Itambé, onde morava com seu sogro Matias Vidal, a quem o dito engenho pertencia, bem como todas as terras da povoação fundada por aquele restaurador. Além destes apontavam-se outros muitos proprietários e autoridades de Goiana, mais ou menos ligados, por laços de parentesco, amizade ou dependência particular com o senhor do engenho.
Foi uma festa que muito deu que falar, não tanto pelo brilho, como principalmente pela concorrência. Dos principais nobres da vila não faltou nenhum. A posição social e política de João de Cunha; sua procedência ilustre; seus haveres geralmente tidos por avultados asseguravam-lhe grande respeito da parte dos seus vizinhos.
Houve quem viu no importante ajuntamento, logo que ele se anunciou pela voz da fama, um pretexto para tratarem em família e em secreto os nobres de Goiana dos seus interesses ameaçados pelos mascates do Recife. Nem era mister grande penetração para fazer esta conjectura, depois do rompimento destes contra aqueles, rompimento que se realizou em 18 de junho do ano apontado, de uma para duas horas da tarde.
Para que fique inteirado do necessário o leitor que não for muito versado no conhecimento das lutas políticas de nossa terra nos tempos coloniais, indispensável nos parece examinarmos aqui, posto que de relance, a causa da agitação dos espíritos na época em que se passou esta historia.
De que procedeu o sobredito rompimento? De quererem os negociantes do Recife que esta povoação passasse a vila, e de o não quererem os nobres da cidade de Olinda. Qual a razão de quererem os negociantes do Recife e de não quererem os nobres de Olinda que passasse a vila aquela provação, que aliás já tinha sido cidade no domínio holandês, por suas vantagens naturais, posição física, e principalmente por ser porto de mar e oferecer fácil ancoradouro? A razão era porque, sendo o Recife quase em sua totalidade habitado por negociantes portugueses, passariam estes a ter, com a elevação da povoação a vila, preponderância no senado da câmara, e por seus votos poderiam reduzir a nada, visto que o seu numero era grande, os nobres da cidade na taxação dos gêneros, na arrematação dos contractos, enfim na governança que até então tinha sempre andados nas mãos da nobreza da terra. Um cronista, contemporâneo da guerra dos mascates, escreveu sobre este ponto as palavras que trasladaremos para melhor compreensão do leitor. São as seguintes:
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.