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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Achava alguma razão nas palavras do marido; mas dispensaria de bom grado aquela delicadeza. Desejaria antes ser querida por Hermano com tanto anelo e transporte que tudo para ele fosse novo nessa casa, nesses sítios, cheios do passado.

Apreciava a pureza das flores d'alma recém-abertas ao seu influxo; mas também pensava que em uma alma completamente regenerada pelo amor, já não devia de haver flores murchas e fanadas, como eram essas recordações que pungiam o marido.

Os três primeiros dias depois do casamento, Amália e Hermano os passaram no mesmo delicioso a sós. Comiam no retiro do toucador, não como casados da véspera, mas como namorados em partida campestre, às ocultas.

Esse cunho de improviso e de folia era o que mais encantava Amália. Ela que sempre fora menina e travessa queria descontar agora os dias de tristeza. A solenidade da vida conjugal e a serenidade da posição de dona de casa assustavam a seu gênio faceiro. Assim, esquivando-se a pretexto de recato e acanhamento, retardava o momento de assumir suas graves funções.

Chegou, porém, o dia.

A mesa estava servida para o almoço. Amália tomou a cabeceira e o marido sentou-se ao lado.

— Onde está Abreu? perguntou o dono da casa. Chame-o!

A voz de Hermano tinha uma severidade desusada. Nunca Amália ouvira aquele timbre. Ela fitou o semblante do marido, e notou a expressão áspera de sua fisionomia e o olhar imperativo com que ele recebeu o velho criado.

Abreu aproximou-se da mesa com o passo ríspido dos soldados; dobrou a cerviz por um movimento de engonço, e perfilou-se.

Quando Hermano passou-lhe o prato destinado a Amália, ele o conservou na mão imóvel. Foi preciso que o amo lhe desse ordem terminante:

— Para a senhora!

Então, sem voltar-se, estendeu o braço e pôs o prato na cabeceira. Nem então, nem depois, durante todo o almoço, o seu olhar, que ele tinha sempre levantado, buscou a dona da casa.

Não a queria ver, e não a viu.

Capítulo 16

Tinham decorrido quinze dias depois do casamento.

Amália já não podia esconder a sua tristeza. As apreenções, que a haviam assaltado antes, aí estavam realizadas. Sacrificara-se para fazer a felicidade do homem a quem amava, e essa união ia tornar-se um suplício cruel para ambos.

Nos primeiros dias, a moça, enlevada pelos lirismos do coração virgem, sentiu-se feliz. Em sua inocência, não desejava mais do que possuía. As efusões de Hermano, sua palavra comovida, seu olhar terno e fagueiro sorriso bastavam para encher-lhe a alma e transbordar.

Havia, porém, nesse afeto uma timidez que ela não podia definir. Ainda não recebera uma só carícia; quando solteira tomaria tais demonstrações como desacato. Mas agora o seu titulo de esposa as santificava. Parecia-lhe que seu marido devia ter o mesmo direito que seu pai, de beijar-lhe a face e estreitá-la ao peito.

Talvez Hermano se acanhasse, e não tivesse ânimo de tomar essa liberdade. Compreendia o seu enleio pela comoção, que tinha ela também, só de pensar nisso. Mais tarde viria a intimidade.

Então o espírito da moça lançava-se no vago, ansioso de perscrutar o desconhecido; e coligindo em suas recordações idéias outrora incompreensíveis, rastreava um pensamento que a fazia estremecer. Não sabia nada; não suspeitava; mas pressentiu.

Julgou-se humilhada, não somente em sua beleza, mas em sua dignidade de senhora.

Ao mesmo tempo outras circunstâncias concorriam para agravar a sua posição já melindrosa. Hermano, que a princípio se mostrava cheio de atenções e somente ocupado dela, agora tinha freqüentes distrações, sobretudo na mesa.

Seus olhos a evitavam, ainda mesmo quando lhe dirigia a palavra. Ficava por muito tempo calado e absorto. Às vezes no meio daquela concentração fitava a mulher, observava-lhe as feições com estranheza, e no seu semblante pintava-se a surpresa. Desviava então a vista; e de novo caía na sua abstração.

Uma manhã, Amália mandou mudar a disposição da mesa, colocando seu talher na outra cabeceira, para não ter o sol de face. Veio o marido, que tomou maquinalmente o seu lugar costumado. Pouco depois, reparando na alteração, lançou à moça um olhar de espanto; e saiu precipitadamente da sala, onde não voltou esse dia, dando-se por incomodado.

Amália adivinhou que era o lugar de Julieta na mesa. Hermano, não querendo que ela o ocupasse, lhe havia destinado outro. Daí a sua contrariedade. Não obstante a impressão que lhe causou o fato, a moça procurou disfarçar, e convidou o marido para jantarem nessa tarde à sombra das mangueiras.

O Abreu por seu lado continuava a ser para ela o mesmo homem de pau do primeiro dia. Em quinze dias, ainda não lhe tinha dirigido um olhar, nem uma palavra. Com a sua máscara impassível, isolava-se dela inteiramente.

(continua...)

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