Por José de Alencar (1870)
Durante o resto da noite, a moça mostrou a mesma calculada indiferença, a ponto de irritar o mancebo. Apesar de se ter rendido, sentiu ele um ímpeto de revolta, e deixou sua cadeira junto à orquestra com intenção de visitar um camarote fronteiro ao do Sales Pereira. Lá estava uma linda moça de seu conhecimento, uma das estrelas de sua coroa de rei da moda.
Sentar-se-ia junto dela, e estabeleceria um diálogo entretecido de sorrisos, de olhares e meias confidências como por ai se dão tantos nos bailes e espetáculos: verdadeira cena mímica de amor representada perante o público. Com esse entretenimento, Horácio comprometeria seriamente a reputação de uma senhora; mas vingar-se-ia de Amélia, excitando-lhe ciúmes.
Chegava já o leão à porta do camarote quando ocorreu-lhe este pensamento:
Faltava apenas um ato para terminar o espetáculo; se ele mostrasse afastamento, Amélia irritada persistiria em seu desdém durante o resto da noite; e quem sabe que resolução tomaria sob a influência desse despeito?
Horácio teve medo e recuou. Já se tinha submetido no começo da noite; o melhor expediente era perseverar. Naturalmente Amélia, no fim do espetáculo, abrandaria o seu rigor.
Começara o ato. Horácio deixou passar algum tempo, e dirigiu-se ao camarote de Amélia. A moça que já tinha reparado na ausência do leão, cuja cadeira estava desocupada, adivinhou-lhe a presença, ouvindo abrir-se a porta. Seu primeiro movimento foi voltar o rosto; mas reprimiu-se a tempo, e disfarçou dirigindo o binóculo para o fundo da sala.
Apesar do império que tinha sobre si, Amélia estava ao cabo das forças. Se naquele momento Horácio fingisse uma retirada, ela não resistiria. Felizmente o leão não se lembrava disso e tinha resolvido esperar a saída para trocar algumas palavras com a moça.
Terminou o espetáculo afinal. Horácio ofereceu o braço a Amélia:
— Muito lhe ofendi com meu pedido, D. Amélia?
A moça calou-se.
— Não lhe mereço nem uma palavra?
— Parece que o senhor lhe dá bem pouco apreço.
— Que injustiça!
— Quem passou tantos dias sem ela pode bem esperar ainda os dois que faltam.
— Então sou eu o culpado dessa demora! Quem me condenou a ela?
— E o senhor nem ao menos procurou abreviá-la: achou mais cômodo esperar tranqüilamente! Pois continue a esperar.
— Mas, D. Amélia! Depois da resposta de seu pai, se eu me apresentasse em sua casa, tornar-me-ia importuno. Cuida que não sofri, passando tantos dias sem vêla? Ingrata! Quantas vezes, não podendo resistir, fui até à porta de sua casa, e passei, impelido pelo receio de indispô-la contra mim? Se ela me amasse, pensava eu, teria aceitado logo: não o fez; quer refletir; devo deixá-la tranqüila e respeitar a sua resolução. Que vou eu lá fazer? Obrigá-la a me aborrecer.
Horácio mentia; ele se ausentara da casa do Sales Pereira, somente para vencer a resistência da moça por uma simulada indiferença. O carro do negociante aproximou-se:
— Vai sem me deixar uma esperança?
— Não é aqui o lugar de pedi-la.
— Então amanhã?
— Se quiser!
No dia seguinte à noite o leão estava em casa do negociante. Amélia o recebera com um resto de ressentimento, que se desfez com os primeiros galanteios. Sucedeu o que era natural: depois de uma abstinência de tantos dias, esses corações tinham a sede de ternura, e beberam um no outro a largos sorvos.
Quando o leão se retirou, ele sabia que dois dias depois receberia oficialmente, por uma carta do negociante, o sim que ouvira naquela noite entre um sorriso e um rubor.
Quanto a Amélia, depois que a ausência do moço rompeu o encanto e deixoulhe unicamente a consciência do compromisso tomado, lembrou-se involuntariamente de Leopoldo, cuja imagem pálida e triste desenhou-se em sua imaginação.
— Ele há de sofrer muito! pensou a moça suspirando.
No dia seguinte havia reunião em casa de D. Clementina. Amélia recordou-se disso e fez tenção de ir. Naquele momento julgou-se obrigada a comunicar sua última resolução a Leopoldo. Pareceu-lhe que seria uma deslealdade deixá-lo na ignorância de seu casamento, até que viesse a sabê-lo por algum estranho.
Mais tarde surgiram os escrúpulos. Tendo aceitado a mão de Horácio, não era bonito animar uma afeição, que deixava de ser inocente. Embora nunca retribuísse a paixão de Leopoldo, podiam supor que não a repelias Demais, sendo natural que Horácio fosse passar a noite em sua casa, ela procederia muito mal, trocando sua companhia pela de um rival.
Enquanto as horas do dia se escoavam, estas e outras razoes disputavam no espírito da moça a decisão que ela devia tomar. Afinal interveio o coração.
— Tenho pena dele!
(continua...)
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.