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#Comédias#Literatura Brasileira

Uma Pupila Rica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)

D. Corina, tranquilize-se: ninguém crê nessa aleivosia satânica; ninguém a ofenderia com uma suspeita, ou eu faria ajoelhar a seus pés o miserável ofensor.

Corina (levantando a cabeça) Mas a aleivosia feriu a triste órfã; e que ela diga mil vezes — é falso — a malícia de uns... a simples dúvida de outros, abafadas, embora no silêncio, estarão sempre a procurar a mancha negra no véu branco da donzela... oh!... Uma pobre menina que já não tem pai, nem mãe, devia ser objeto da compaixão de todos!... Como é que me assassinam assim!...

Firmino Corina... minha filha...

Corina (forte) Sua filha?... E a minha reputação?... Oh!... Tome para seu filho toda a riqueza que meus pais me deixaram; mas eu quero insuspeita a minha honra: eu quero!... Meu tutor! A honra da sua pupila?... Amigo suposto de meu pai! A honra da filha do seu amigo?... Meu Deus!... (com desespero) A minha pureza aos olhos do mundo?... Eu sou inocente!... Sou inocente!...

Cena 6ª

Teodora - Júlia - Corina - Suzana - Teófilo -Firmino - Criado que logo se retira - e André

Criado O senhor doutor André de Araújo pede para ser recebido. (sensação geral)

Corina Oh! (cobrindo o rosto com as mãos)

Firmino Dá-lhe entrada.

Suzana (à Corina, apertando-lhe as mãos) Filha! Tem fé!...

Criado (da porta) O senhor doutor André de Araújo. (vai-se —cumprimento geral)

Firmino Tenha V.S.ª a bondade de sentar-se. André V.S.ª me desculpe: sou um cavalheiro que profundamente ofendido vem dar e exigir contas.

Firmino Exigir?...

André

Amo sua pupila e por ela autorizado, pedi-lha em casamento: V.S.ª negou-ma: não quero esclarecer o motivo; sou, porém, tão conhecido e, direi, tão estimado nesta capital, que ter-me-ia sido fácil obrigá-lo a sujeitar-se ao que me recusou.

Firmino Senhor doutor...

André

Não quis fazê-lo: confiando plenamente na senhora que amo, preferi esperar a expô-la e exporme às discussões públicas sobre a noiva em depósito e o casamento com intervenção da autoridade. Eu desejava receber minha esposa no altar, sem notoriedade de oposição e de contendas; para que não atacasse de leve nem o mais rápido olhar de reparo injustamente malicioso. V.S.ª me obrigou ao contrário.

Firmino Tutor de Corina, só darei ao juiz dos órfãos contas do meu proceder, enquanto ela for solteira, e de sua fortuna a seu marido logo que se case. Não tenho a honra de ver em V.S.ª nem juiz, nem marido.

André

Venho da casa do juiz dos órfãos que condenando a recusa, com que V.S.ª me repeliu, ofereceume toda ação da sua autoridade e nem para isso precisei mostrar-lhe o que o meu amor e o santo pudor de sua honestíssima pupila impunham-me o dever de ocultar. V.S.ª sabe o que é...

Firmino Mas ignoro ainda o fim da acerba visita de V.S.ª

André

Exigir explicações desta carta anônima, caluniosa e malvada que hoje recebi. (apresenta a carta) Tenha a bondade de lê-la! V.S.ª, como tutor, tem obrigação de destruir torpes falsidades e de vingar a honra ultrajada da sua pupila. Senhor Firmino! Vim pedir-lhe... quero o nome do difamador aleivoso... quero-o! porque em falta do tutor... eu, o noivo de Corina, tenho o direito e o dever de punir o miserável...

Teóf.

André!...

Firmino V. Sª. certamente não teve a idéia de referir-se a mim, quando pronunciou as palavras difamador e miserável...

Teóf.

É preciso não esquecer que ele ama d. Corina, e que o seu coração deve estar abrasado de cólera... André! André!...

André

(a Firmino) Eu não estaria falando a V.S.ª se o julgasse autor desta afronta: as culpas do tutor são grandes... mas são outras: tenha a bondade de ler. (apresenta a carta)

Firmino Uma carta anônima rasga-se e despreza-se.

André

Mas eu li esta carta, senhor! V.S.ª deve lê-la também! Ela mancha a sua casa... traz uma nódoa para a sua família... deve lê-la...

Firmino V.S.ª tem necessidade de acalmar-se: quero ceder... lerei este vergonhoso escrito. (recebe a carta e lê: Teóf. procura sossegar André: comoção geral)

Cena 7ª

Teodora - Júlia - Corina - Suzana - Teófilo - Firmino - André e Peregrino

Peregrino (indo a Júlia) Que é isto aqui por casa?

Júlia (a Pereg.) Começo a crer que é a providência que vai entrar nela.

Peregr.

(a Júlia) A providência? Não conheço tal senhora.

(continua...)

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