Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Anastácio — Orgulhosa fidalga de ontem! Como trataste os parentes de teu marido, durante dezoito anos de vaidade e de presunção?...que fizeste há cinco dias, quando se apresentaram em tua casa teu cunhado, o marceneiro, e teu sobrinho, o pintor?...prova, mulher, prova hoje por tua vez o cálice da humilhação e do desprezo!
Hortênsia (Curvando-se) — Perdão.
Anastácio — É o castigo de Deus!
Hortênsia (De joelhos e com veemência) — Perdão!...perdão!...
Anastácio (Sentindo-se comovido) — Levante-se minha irmã; tarde chega às vezes o arrependimento para os homens; mas nunca ele vem tarde para Deus. Que tem feito desde que lhe roubaram sua filha?...
Hortênsia — Chorar.
Anastácio — As lágrimas são estéreis, senhora; nas maiores aflições o recurso é o
Onipotente. Reze.
Hortênsia — Sim...sim...tem razão.
Anastácio — Não derrame lágrimas sobre a terra; levante os olhos para o céu e espere. Vá orar. Deus é grande.
Hortênsia — Eu vou; é dele somente que agora espero tudo. (Vai-se)
CENA IV
Anastácio (Só)
Pobre senhora! Fui talvez austero demais: a vaidade germina espontaneamente no coração da mulher; mas é o homem que cultiva e dá vigor a essa planta venenosa. O mais culpado é meu irmão,q eu deveria ser o protetor e o guia de sua esposa; que devera ser forte e prudente, que por sua fraqueza levou sua família a uma ruína completa. Que será feito desse infeliz? Creio que ouço suas pisadas: observá-lo-ei de perto. (Vai-se)
CENA V Maurício (Só — depois de alguns instantes de silêncio, observa a pêndula).
A hora se adianta, pouco falta: ao meio-dia o meu opróbrio estará consumado. Hão de vir enxotar-me desta casa, e à porta da rua eu encontraria talvez soldados,q eu me levassem à prisão. Coberto de dívidas, desonrado por um crime vergonhoso, desonrado pela desonra de minha filha, lancei uma nódoa indelével no nome de meu pai e na tenho esperança, senão na morte. Não hão de arrastar-me a um cárcere; não curvarei a cabeça ao peso de injúrias e de maldições; não!...porque em lugar de um homem, só acharão um cadáver. Acabemos com isto. (Vai buscar uma garrafa d’água e um copo, e deita naquela o veneno que traz em um vidro). Era exatamente pelo suicídio que devia terminar uma vida desgraçada e louca. Perdão, meu Deus! Minha filha, perdão! Ora pois...bebamos a morte. (Pega na garrafa e deita água no copo).
CENA VI
Maurício e Anastácio
Anastácio — Maurício!
Maurício (Estremecendo) — Quem é...Anastácio...(Larga a garrafa e o copo)
Anastácio — Não ouviste um grito de tua mulher?...
Maurício — De Hortênsia...
Anastácio — Lembra-te ao menos dela, acode-a depressa.
Maurício — Hortênsia! Que mais devo sofre, meu Deus!
CENA VII
Anastácio (Só)
Um suicídio! Mas de que me admiro? Maurício não é homem fraco? Na hora da adversidade a fraqueza mata-se para poupar-se ao incômodo de lutar. Sublime recurso! Um extravagante enche-se de dívidas, e no dia do vencimento das letras, suicida-se, pregando assim um calote a Deus, além dos que pregou aos credores. Nos cálculos dos dissipadores o único que ganha é o Diabo. Um suicídio! Que bela idéia! O homem despoja-se da vida a pretexto que a honra a isso o briga. Mentira! A honra é o cumprimento do dever. Mas o extravagante abre com o punhal ou com o veneno o caminho do inferno, e no dia seguinte os jornais referem a história da loucura e do crime tão romanescamente, que fazem a outros loucos vontade de imitar aquela ação heróica!...(Deita fora a água da garrafa e enche esta de outra água). Muito bem: vou apreciar os efeitos da água da Carioca.
CENA VIII
Anastácio, ao fundo. O comendador Pereira.
Pereira — Chego deitando a alma pela boca...não importa; bato,ninguém aparece; grito, ninguém me responde: eis o que importa muito. Então certos são touros! É uma indignidade e uma infâmia! O homem está perdido, deve os cabelos da cabeça, não tem onde caia morto, e os meus três contos de réis foram devorados! Deixaramme sem mulher e sem dinheiro! Ainda se eu me casasse com a moça, sofreria com paciência o prejuízo; mas enquanto o pai rebentava financeiramente, a filha batia as asas amorosas, e ambos me pregavam dois calotes desastrados; nada, ao menos quero os meus três contos de réis...isto é uma patifaria, este homem é um...
Anastácio — Acabe!
Pereira — É um...sim...um...um infeliz!
Anastácio — E o senhor que é?
Pereira — Eu?...eu...sou um comendador...
Anastácio — Não! É somente um miserável!
Pereira —
Senhor Anastácio...Anastácio...Anastácio não sei de quê...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Luxo e vaidade: comédia em um ato. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1860. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1666 . Acesso em: 3 jan. 2026.