Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Maricoquinhas suspirava. Que encanto, viver nessa Alexandria, e navegar para Canópia, numa barca toldada de seda!

- Sem mim? - gritava eu, ciumento.

Ela jurava que, sem o seu portuguesinho valente, não queria habitar nem o céu!

Eu, regalado, pagava o champagne.

E os dias assim foram passando, leves, flácidos, gostosos, repicados de beijos - até que chegou a véspera sombria de partirmos para Jerusalém.

- O cavalheiro - dizia-me nessa manhã Alpedrinha engraxando os meus botins - o que devia era ficar aqui na Alexandriazinha, a refocilar...

Ah! se pudesse! Mas irrecusáveis eram os mandados da Titi! E, por amor do seu ouro, lá tinha de ir à negra Jerusalém, ajoelhar diante de oliveiras secas, desfiar rosários piedosos ao pé de frios sepulcros...

- Tu já estiveste em Jerusalém, Alpedrinha? - perguntei, enfiando desconsoladamente as ceroulas.

- Não senhor, mas sei... Pior que Braga!

-Irra!

A nossa ceia com Maricocas, à noite, no meu quarto, foi cortada de silêncios, de suspiros; as velas tinham a melancolia de tochas; o vinho anuviava-nos como aquele que se bebe nos funerais. Topsius ofertava consolações generosas.

- Bela dama, bela dama, o nosso Raposo há de voltar... Estou mesmo certo que trará da ardente terra da Síria, da terra da Vênus e da esposa dos Cantares, uma chama no seu coração mais fogosa e mais moça...

Eu mordia o beiço, sufocado:

- Pois está visto! - Ainda havemos de andar de caleche pelo Mamudiê... Isto é só ir rezar uns padre-nossos ao Calvário... Até me faz bem... Volto como um touro.

Depois do café fomos encostar-nos à varanda a olhar, calados, aquela suntuosa noite do Egito. As estrelas eram como uma grossa poeirada de luz que o bom Deus levantava lá em cima, passeando sozinho pelas estradas do céu. O silêncio tinha uma solenidade de sacrário. Nos escuros terraços, embaixo, uma forma branca movendo-se por vezes, de leve, mostrava que outras criaturas estavam ali, como nós, deixando a alma embeber-se mudamente no esplendor sideral; e nesta difusa religiosidade, igual à de uma multidão pasmando para os lumes de um altar-mor, eu sentia subir aos lábios, irresistivelmente, a doçura de uma ave-maria...

Ao longe o mar dormia. E, à quente irradiação dos astros, eu podia distinguir, num pontal de areia, mergulhando quase na água, uma casa deserta, pequenina, toda branca e poética entre duas palmeiras... Então comecei a pensar que, mal a Titi morresse e fosse meu o seu ouro, eu poderia comprar esse doce retiro, forrá-lo de lindas sedas, e viver ao lado da minha luveira, vestido de turco, fresco, sereno, livre de todas as inquietações da civilização. Desagravos ao Sagrado Coração de Jesus ser-me-iam tão indiferentes, como as guerras que entre si travassem os reis. Do céu só me importaria a luz anilada, que banhasse a minha vidraça; da terra só me importariam as flores abertas no meu jardim, para aromatizar a minha alegria. E passaria os dias numa fofa preguiça oriental, fumando o puro latakié, tocando viola francesa, e recebendo perpetuamente essa impressão de felicidade perfeita, que a Mary me dava só com deixar arfar o seio e chamarme "seu portuguesinho valente".

Apertei-a contra mim num desejo de a sorver. Junto à sua orelha, de uma brancura de concha branca balbuciei nomes inefáveis; disse-lhe rechonchudinha; disse-lhe riquinha. Ela estremeceu, ergueu os olhos magoados para a poeirada de ouro.

- Que de estrelas! Deus queira que amanhã o mar esteja manso!

Então, à idéia dessas longas ondas que me iam levar a ríspida terra do Evangelho, tão longe da minha Mary, um pesar infinito afogou-me o peito, e irreprensivelmente se me escapou dos lábios, em gemidos entoados, queixosos e requebrados... Cantei. Por sobre os terraços adormecidos da muçulmana Alexandria soltei a voz dolorida, voltado para as estrelas; e roçando os dedos pelo peito do jaquetão onde deviam estar os bordões da viola, fazendo os meus ais bem chorosos - suspirei o fado mais sentido da saudade portuguesa:

Coa minh'alma aqui te ficas,

Eu parto só com os meus ais,

E tudo me diz, Maricas,

Que não te verei nunca mais.

Parei, abafado de paixão. O erudito Topsius quis saber se estes doces versos eram de Luís de Camões. Eu, choramingando, disse-lhe que estes, ouvira-os no Dafundo ao Calcinhas.

Topsius recolheu a tomar uma nota do grande poeta Calcinhas. Eu fechei a vidraça; e depois de ir ao corredor fazer às escondidas um rápido sinal da cruz, vim desapertar sofregamente, e pela vez derradeira, os atacadores do colete da minha saborosa bem-amada.

Breve, avaramente breve, foi essa noite estrelada do Egito!

Cedo, amargamente cedo, veio o grego de Lacedemônia avisar-me que já fumegava na baía, áspera e cheia de vento, el paquete, ferozmente chamado o Caimão, que me devia levar para as tristezas de Israel.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2526272829...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →