Por Eça de Queirós (1925)
Muitas vezes me disse o Conde, anos depois, que esta convivência com o padre Augusto lhe fora extremamente instrutiva, porque o esclarecera definitivamente sobre os costumes íntimos dos senhores eclesiásticos, e destruíra muitos prejuízos que uma tradição injusta formou em volta do clero, em hostilidade aos excessos dos frades. Assim se convenceu que é absolutamente infundada a reputação que têm S. Ex.as de costumes lúbricos. «Durante dezoito meses que vivi com o padre Augusto, Zagalinho, nem por palavras, nem por olhares, nem por obras, o vi desviar-se da regra imposta pelos votos. Um modelo de castidade, Zagalinho! Um modelão!
Ele mesmo, pelos seus olhos, se certificara desta verdade. O seu quarto e o do padre Augusto eram separados por um tabique, onde outrora houvera uma comunicação sem porta. Esta abertura, para isolar os dois quartos, fora depois tapada com uma simples lona coberta de papel pintado, onde um pequeno rasgão triangular permitia a Alípio mergulhar um olho observador no interior do quarto do reverendo. Conseguiu assim verificar que este homem inteligente poderia ser comparado (se tal comparação não fosse ofensiva da sua qualidade de sacerdote cristão) ao profeta do Islã, de quem as legendas do deserto celebram os costumes simples e o amor das ocupações domésticas. O reverendo sacerdote, ele próprio, passajava as suas meias, cosia as suas voltas e limpava a batina com benzina; vivia arrumando, espanejando o quarto, e todos os dias polia o seu candeeiro de latão, com uma dissolução de ácido oxálico que ele mesmo ia comprar à Farmácia Azevedo. Pendurado defronte da janela, tinha um canário de que tratava com cuidados femininos. À noite, ao recolher, dispunha sobre a mesa um covilhete de marmelada, uma garrafa de Porto (de que D. Laura o tinha sempre bem provido) e com satisfação e método, tomava a sua ceia, tendo defronte o breviário aberto que ia lendo. Alípio nunca o viu tomar mais de meio cálice de Porto, aos pequenos goles, que conservava um momento na boca, saboreando-lhe o aroma, e que engolia com um estalo plácido. Depois, despia-se, dobrava a roupa com método minucioso – e daí a pouco ressonava com estridor. Vida de um santo!
Uma tarde de grande calma, em meados de Agosto, a engomadeira da casa, depois de levar a roupa a Alípio, entrou no quarto do padre Augusto. Era uma formosa rapariga. Alípio imediatamente correu a aplicar o olho ao rasgão da lona, a observar o que faria o eclesiástico, só no quarto com a engomadeira, naquela tarde de Verão em que a casa estava solitária e calada. Padre Augusto dormitava na sua poltrona, com o lenço de seda sobre o rosto, as pernas estendidas, as mãos sobre o ventre. Alípio julgava.39 que passaria ao menos os dedos pelo queixo da rapariga, que lhe beliscaria o braço apetitoso. Pois não: ergueu a ponta do lenço, e vendo com o olho meio fechado que era a engomadeira, continuou a sua sesta plácida! Excesso de quebreira, dir-se-á. Não, porque daí a pouco Alípio ouviu-lhe dizer por baixo do lenço:
– Ó menina, que não esqueça o par de peúgas que ficou da outra vez.
Tão grande era a sua indiferença às tentações do amor!
Era, além disso, sóbrio – o que destrói inteiramente a conhecida e lendária gula canónica – e não de todo hostil às profanidades da arte, pois que, sempre que o homem do realejo fazia, ao cair das tardes de Verão, o seu giro no bairro, padre Augusto propunha entre os hóspedes da D. Adelaide uma subscrição de cinco-réis por cabeça, para mandar tocar ao italiano as peças escolhidas da Norma, que ele escutava com deleite.
O fraco deste santo era o alho; gostava dele cru: esfregava com alho o gume da faca, o miolo do pão, o fundo do prato, e dizia sempre depois desta operação:
– Muito estomacal, caros companheiros, muito estomacal...
Não era um fanático; nunca a sua conversação recaía sobre «questões religiosas». Quando se falava diante dele do progresso das ideias revolucionárias, não se exaltava, mas, coçando o queixo, dizia:
– Pois será o que quiserem, caros companheiros, será o que quiserem. Mas lembrem-se das palavras de Cristo: «Não prevalecerão contra ele as portas do Inferno; a barca de Pedro não se submergirá!»
E se ouvia algum dos companheiros – um certo Azevedo do Ministério do Reino, sobretudo, proferir impiedades ou achincalhar os dogmas, o bom sacerdote sorria:
– Tudo isso é muito bom enquanto se tem saúde, amigo Azevedo. Mas quando vem a velhice, e as doenças, e o final... Eh! Eh! O amigo verá como se chega às boas ideias. Verá como ainda me manda chamar! Não, que a Eternidade é coisa séria!
Tal era este santo homem. As suas ocupações eram simples: de manhã, dizer missa em S. Domingos; durante o resto do dia, salvar a alma de D. Laura.
Nem gula, nem lubricidade, nem ambição. Os três Inimigos da alma, da Cartilha, os três sinistros colegas – Mundo, Diabo e Carne – que de braço dado rondam em volta da humanidade, à caça das almas indefesas, ou nunca ousaram aproximar-se deste varão impecável, ou, se o fizeram, foram vergonhosamente escorraçados, como ratos – se me permitem a comparação – surpreendidos sobre um velho pedaço de queijo.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.