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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

- Não, com o Eusebiosinho não, filho! Não tem saude para essas cavalladas... Carlinhos, olhe que eu chamo o avô!

Mas o Eusebiosinho, a um repellão mais forte, rolara no chão, soltando gritos medonhos. Foi um alvoroço, um levantamento. A mãe, tremula, agachada junto d'elle, punha-o de pé sobre as perninhas molles, limpandolhe as grossas lagrimas, já com o lenço, já com beijos, quasi a chorar tambem. O delegado, consternado, apanhara o bonet escossez, e cofiava melancolicamente a bella pena de gallo. E a Viscondessa apertava ás mãos ambas o enorme seio, como se as palpitações a suffocassem.

O Eusebiosinho foi então preciosamente collocado ao lado da titi; e a severa senhora, com um fulgôr de colera na face magra, apertando o leque fechado como uma arma, preparava-se a repellir o Carlinhos que, de mãos atraz das costas e aos pulos em roda do canapé, ria, arreganhando para o Eusebiosinho um labio feroz. Mas n'esse momento davam nove horas, e a desempenada figura do Brown appareceu á porta.

Apenas o avistou, Carlos correu a refugiar-se por detraz da Viscondessa, gritando:

- Ainda é muito cedo, Brown, hoje é festa, não me vou deitar!

Então Affonso da Maia, que se não movera aos uivos lacinantes do Silveirinha, disse de dentro, da mesa do voltarete, com severidade:

- Carlos, tenha a bondade de marchar já para a cama.

- Oh vôvô, é festa, que está cá o Villaça!

Affonso da Maia pousou as cartas, atravessou a sala sem uma palavra, agarrou o rapaz pelo braço, e arrastou-o pelo corredor – em quanto elle, de calcanhares fincados no soalho, resistia, protestando com desespero:

- É festa, vôvô... É uma maldade!... O Villaça póde-se escandalisar... Oh vovô, eu não tenho somno!

Uma porta fechando-se abafou-lhe o clamor. As senhoras censuraram logo aquella rigidez: ahi estava uma cousa incomprehensivel; o avô deixava-lhe fazer todos os horrores, e recusava-lhe então o bocadinho da soirée...

- Oh sr. Affonso da Maia, por que não deixou estar a creança?

- É necessario methodo, é necessario methodo, balbuciou elle, entrando, todo pallido do seu rigor.

E á mesa do voltarete, apanhando as cartas com as mãos tremulas, repetia ainda:

- É necessario methodo. Creanças á noite dormem.

D. Anna Silveira voltando-se para o Villaça - que cedera o seu lugar ao dr. delegado e vinha palestrar com as senhoras – teve aquelle sorriso mudo que lhe franzia os labios, sempre que Affonso da Maia fallava em «methodos.»

Depois, reclinando-se para as costas da cadeira e abrindo o leque, declarou, a transbordar d'ironia, que, talvez por ter a intelligencia curta, nunca comprehendera a vantagem dos «methodos»... Era á ingleza, segundo diziam: talvez provassem bem em Inglaterra; mas ou ella estava enganada, ou Sta. Olavia era no reino de Portugal...

E como Villaça inclinava timidamente a cabeça, com a sua pitada nos dedos, a esperta senhora, baixo para que Affonso dentro não ouvisse, desabafou. O sr. Villaça naturalmente não sabia, mas aquella educação do Carlinhos nunca fôra approvada pelos amigos da casa. Já a presença do Brown, um heretico, um protestante, como perceptor na familia dos Maias, causara desgosto em Resende. Sobretudo quando o sr. Affonso tinha aquelle santo do abbade Custodio, tão estimado, homem de tanto saber... Não ensinaria á creança habilidades de acrobata; mas havia de lhe dar uma educação de fidalgo, preparal-o para fazer boa figura em Coimbra. N'esse momento, o abbade, suspeitando uma corrente d'ar, erguera-se da mesa de jogo a fechar o reposteiro: então, como Affonso já não podia ouvir, D. Anna ergueu a voz:

- E olhe que o Custodio teve desgosto, sr. Villaça. Que o Carlinhos, coitadinho, nem uma palavra sabe de doutrina... Sempre lhe quero contar o que succedeu com a Macedo.

Villaça já sabia.

- Ah já sabe? Lembras-te viscondessa? Com a Macedo, do acto de contricção...

A viscondessa suspirou, erguendo um olhar mudo ao ceu atravez do tecto.

- Horroroso! continuou D. Anna. A pobre mulher chegou lá a nossa casa embuchada... E eu fez-me impressão. Até sonhei com aquillo tres noites a fio...

Calou-se um momento. Villaça, embaraçado, acanhado, fazia girar a caixa de rapé nos dedos, com os olhos postos no tapete. Outro langor de somnolencia passou na sala; D. Eugenia, com as palpebras pesadas, fazia de vez em quando uma malha molle no crochet; e a noiva de Carlos, estirada para o canto do sophá, já dormia, com a boquinha aberta, os seus lindos cabellos negros caindo-lhe pelo pescoço.

D. Anna, depois de bocejar de leve, retomou a sua idéa:

- Sem contar que o pequeno está muito atrazado. A não ser um bocado de inglez, não sabe nada... Nem tem prenda nenhuma!

- Mas é muito esperto, minha rica senhora! accudiu Villaça.

- É possivel, respondeu seccamente a intelligente Silveira.

(continua...)

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