Por Eça de Queirós (1870)
Há um crime; é indubitável; é claro. Um dos cúmplices deste crime é o doutor *** Eleestá envolvido no anónimo; não tenho por isso dúvida em apresentar esta acusação formal.
Se o seu nome fos se conhecido, se as suas cart as estivessem assinadas, eu, só com provas judiciárias, me atreveria a escrever esta grave afirmativa.Sim, o doutor *** é o cúmplice de um crime: o meu pobre ami go M. C. é um desgraçado incauto, sobre quem se querem fazer re cair as suspeitas que se poss am ter já, e asprovas que mais tarde venham ajuntar-se. Este crime, que existe, aparece-nos envolvi do nas roupas literárias de um mistério de teatro. As cartas do doutor *** são um romance pueril. Vejamos.É possível que numa cidade pequena como Lisboa, em que todos são vizinhos, amigos de tu, e parentes, o doutor ***, que parece ser um homem notado na sociedade, vivendonela, frequentando as suas salas e os seus teatros, não conhecesse nenhum destes quatro mascarados, que pelas suas indicações pertencem a essa mesma sociedade, se sentam nos mesmos sofás, escutam a mesma música nos mesmos salões e nos mesmos teatros?Uma máscara de veludo preto não basta para disfarçar um co nhecido. O seu cabelo, o seu olhar, a sua estatura, a sua figura, a sua voz, as sus mãos, a sua toilette, são bastantespara revelar, trair o indivíduo. O doutor *** pois nunca os tinha visto? O quê? Pois eram tão elegantes, tão distintos, governam tão bem as suas parelhas, falam tão bem as línguas, pareciam tão ricos, e o doutor um médico, um homem relacionado, um velho diletante de S.Carlos, nunca os viu, nunca os percebeu, nesta terra, em que toda a vida se concentra nos doze palmos de lama do Chiado! E F... tem um amigo íntimo entre os mascarados, diante desi, na carruagem, joelho com joelho, e não o reconhece, pelas mãos, pelos olhos, pe lo corpo, pelo silêncio até. Comédia!
E o menos conhecido, o menos célebre dos rapazes de Lisboa, mascara-se no Carnavalde turco, enche-se de barbas, cobre-se de plumas, veste-se de Mefistófeles, de Ci-devant, ou de melão, e não há ninguém que, no salão de S. Carlos, não diga ao passar por ele: Lá vai fulano!
E é de noite, às luzes, e as mulheres olham-nos, e estamos distraídos, e não estamosnuma estrada, de dia, surpreen didos e violentados! Tan to nos conhecemos todos! Comédia! Comédia!
E aqueles mascarados são tão inocentes, tão ingénuos, que vão procurar, num momento tão perigoso, o homem que pelas suas relações, pela sua posição, pela sua inteligente penetração, mais facilmente os poderia reconhecer. Se lhes era repugnante seremdescobertos, para que procuraram aquele homem? Se lhes era in diferente, para que se mascararam?
E depois, para que era um médico? Era para verificar a morte?- Para acudir? Para salvar? Nesse caso então que homens são esses que, em lugar de irem à botica mais próxima, a casa do primeiro médico rapidamente, avidamente, logo, logo- vão, em sossego, mascarar-se nos seus quartos, para irem ao crepúsculo, para uma charneca, a duas léguas de distância, representar os velhos episó dios de floresta dos dramas de Soulié?Supunham, porventura, que ele estava morto? Para que era então um médico, uma testemunha? E se não receavam as teste munhas, para que punham nos seus rostos umamáscara, e nos olhos dos surpreendidos um lenço de cambraia? Comédia! Comédia sempre!
Veja-se o doutor *** diante do cadáver; não há ali uma pala vra que seja científica: desde a serenidade das feições até à dilata ção das pupilas, tudo é falso naquela descriçãosintomática.
E que homens são, o doutor *** e o seu amigo F..., que na rua de uma cidade, dentrode uma casa, com os braços livres, não deitam a mão àquelas máscaras? Como é que, sendo generosos e altivos, suportam certas violências humilhantes? Como é que, sen do honestos e dignos, aceitam pela sua atitude condescendente uma parte da cumplicidade?E A. M. C.! Como o representam, ali, pueril, nervoso, tímido, imbecil e coacto! Ele de uma tão grande força de temperamento! De uma tão enérgica coragem! De um tão altivo sangue-frio! Como se pode acreditar naquela astúcia infantil, com que o doutor *** oenvolve?
— O que admira é que não deixasse vestígios o arsénico!- Mas foi o ópio! — responde M. C., segundo conta o doutor *** Qual é a imbecil ingenuidade do homem que possa descer a esta simplicidade lorpa?
E, enfim, que mulher é aquela, que aí se entrevê? Porque a quer o mascarado salvar?Que roubo é aquele de 2300 libras? Sejamos lógicos: dado o tipo do mascarado, cavalheiroso e nobre, como é que ele, vendo que o crime teve por origem o roubo, procurasalvar e tem considerações por uma mulher que mata para roubar?
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.