Por Eça de Queirós (1925)
Então, outra vez, a vida de Godofredo foi calma e feliz. Na casa da rua de São Bento entrara de novo a ordem e a alegria; os ovos ao almoço já não apareciam crus ou duros; já à noite o Souvenir d’Andalousie dava a Godofredo aquele não sei quê dos vergéis de Granada, e a todo o momento a voz dela, o frou-frou dos vestidos dela banhavam de alegria o seu coração. E o inverno tinha assim passado, passava a primavera, estava-se nos primeiros calores de março quando, uma manhã, ao sair, ao passar no corredor, avistou entre portas a Margarida que dava sub-repticiamente, e em segundo, uma carta à senhora. Foi como um rochedo que lhe arremessassem contra o peito. Mal atinava com o fecho da porta; imaginou logo outro homem, outro amante, e a sua felicidade, aquela felicidade tão laboriosamente reconstruída, de novo rachada pôr todos os laços. Sentiu um terror, como se visse vítima dum fado, dum fado terrível e bestial, da fatal incontinência da fêmea. Pensou que seria outra vez o Machado; e passou-lhe nos olhos uma onda de sangue, pensou que desta vez não haveria nem conferências, nem consultas, nem testemunhas, mas que entraria no escritório, e lhe meteria à queima-roupa uma bala no coração.
E sentiu-se tão agitado que não supôs poder tolerar o aspecto do Machado; não foi ao escritório, vagueou pela Baixa, tendo sempre diante dos olhos a mão da criada, o papelinho branco, o ar embaraçado da Ludovina. Entrou em casa, sombrio e taciturno. E não podia estar quieto , ia duma sala a outra, atirava com as portas, com o ar dum homem que sufocava, sentindo em volta de si o ar carregado de engano e de traição; Ludovina espantada terminou pôr lhe perguntar o que tinha ele. — Nervos – respondeu com mau modo.
E daí a momentos, cedendo a um impulso furioso, voltou-se para ela, declarou que estava farto de mistérios, que aquela vida era um inferno, e que queria saber que papel era o que lhe tinha dado a Margarida.
Ela olhou-o, pasmada daquela violência, daquela voz estridente, levando instintivamente a mão ao bolso do robe de chambre. Ele seguira-lhe o movimento:
— Ah, tens aí a carta! Deixa ver...
Ela então mostrou-se ofendida com aquela desconfiança. Recomeçavam outra vez as suspeitas, as questões? O que, não podia ela receber um papel sem ele querer meter o nariz!
Ele, pálido, com os punhos fechados, gritou:
— Ou me dás a carta, ou te racho!
Ela fez-se pálida, chamou-lhe malcriado, caiu para o sofá a chorar, com as mãos no rosto.
— Dá-me a carta! – gritava ele em bicos de pés. – Dá-me a carta! E desta vez não há-de ser como da outra vez. Vais para um convento, mato-te!
E não esperou a resposta, arremessou-se sobre ela, torceu-lhe o braço, rasgou a algibeira do robe de chambre, apoderou-se da carta. Mas não podia perceber a letra: era uma garatuja, sem ortografia, num pedaço de papel pautado. Começava minha querida senhora; vinha assinada Maria do Carmo, e falava-se lá de esmola, do pequenito que estava melhor do sarampo e de orações que não deixariam de se rezar pôr aquela boa esmola.
Trêmulo, murcho, humilhado, com o papel na mão, ele veio sentar-se ao lado de Ludovina que chorava entre as mãos, e passando-lhe o braço pela cintura, balbuciou:
— Está bem, vejo que não é nada, desculpa, dize lá o que é.
Ela repeliu-o, pôs-se de pé, toda ofendida. Estava satisfeito? Tinha lido a carta, hein? Era dum homem, não era?... Ele balbuciou, envergonhado:
— Mas também todos esses mistérios...
E como ela, bela e de pé, limpava os olhos engolindo os soluços, ele não se conteve, teve necessidade do seu perdão, pôs-se de joelhos, e com as mãos postas, murmurou:
— Perdoa, Luluzinha, foi tolice minha...
Com um outro soluço ainda maior, ela bateu-lhe com a ponta dos dedos na face...
E ele então quase chorou também, beijou-lhe as mãos, abraçou-lhe os joelhos, terminou pôr se erguer agarrado às saias dela, encheu-lhe o pescoço de beijos. E ainda na comoção dos dois, entre abraços, ela contou-lhe a história das esmolas secretas que fazia a uma pobre rapariga que conhecera na Ericeira, que um patife seduzira e abandonara com dois filhos, um ainda de mama...
— Mas para que fizeste mistério, meu amor? – continuava ele, comovido e apaixonado.
Ela então confessou que já lhe dera mais de cinco mil réis, - e tinha que ele achasse extravagância...
E a alegria que ele sentia era tão viva que exclamou:
— Qual extravagância! Dá-lhe outros cinco... É pôr minha intenção:
Tudo terminou num beijo.
E então Godofredo sentiu-se envergonhado da sua cólera dessa manhã contra o Machado. Lá pensara outra vez em matar o Machado! E agora sentia a necessidade de o rever, apertar-lhe profundamente a mão – sentindo nesse instante pôr ele uma amizade maior, não sei que reconhecimento vago que o enternecia.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Alves & Cia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16619 . Acesso em: 28 jun. 2026.